A minha verdade sobre Pio XII, o papa em guerra

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27 Junho 2022

 

"Ao anunciar a abertura dos arquivos do papado de Pio XII, o Papa Francisco disse: "A Igreja não tem medo da história". Só podemos esperar que, após a reação defensiva inicial à revelação dessa história, o Vaticano possa iniciar o processo de chegar a um acordo com ela. A hagiografia papal pode ter o seu lugar, mas parece-me mais importante compreender melhor esse trágico capítulo da história humana", escreve David I. Kertzer, estudioso e historiador de renome mundial, vencedor do Prêmio Pulitzer por “O papa e Mussolini”, em artigo publicado por La Repubblica, 24-06-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Em 20 de junho o jornal do Vaticano dedicou uma página inteira a uma crítica de meu novo livro, Un papa in guerra (Um papa em guerra, em tradução livre).

 

O site Vatican News posteriormente divulgou a crítica fornecendo uma tradução em inglês do artigo.

 

Meu livro reconstrói o drama vivido por Pio XII durante a Segunda Guerra Mundial. O artigo do L'Osservatore Romano se concentra em três pontos. O primeiro diz respeito às negociações secretas entre o Papa e o emissário de Hitler que começaram logo ar, o príncipe nazista Philippe von Hessen, só agora vieram à luz, com a abertura dos arquivos do Vaticano em 2020, e publicadas pela primeira vez no meu livro. Napolitano descreve essas conversas como motivadas pelo desejo de Hitler de revisar a concordata com o Vaticano na esteira da expansão do Terceiro Reich. Isso não é verdade. Assim que foi eleito, o Papa Pacelli imediatamente enviou sinais a Hitler sugerindo que ele estava ansioso para chegar a um acordo. De fato, mandou suspender as críticas à perseguição alemã contra a Igreja Católica que haviam caracterizado as páginas do jornal vaticano nos últimos meses da vida de Pio XI.

 

Em poucas semanas, Hitler decidiu enviar von Hessen, genro do rei da Itália Vittorio Emanuele III, para iniciar as conversas secretas. O papa queria que Hitler respeitasse os termos da concordata que o próprio Pacelli havia negociado seis anos antes. Hitler queria que o papa colocasse um fim a todas as críticas públicas ao tratamento dado pelo governo nazista à Igreja. Nisso ele foi bem sucedido. Pio XII e o Vaticano permaneceram em silêncio. Napolitano sustenta, além disso, que o Papa colocou como condição para continuar as negociações que Hitler respeitasse cinco pontos que ele havia elaborado em um documento para o führer, algo que, escreve Napolitano, "Kertzer conhece".

 

A insinuação é que eu soubesse disso, mas não o teria mencionado. No entanto, em meu livro, cito todo o documento. Porém, quando Ribbentrop respondeu aos cinco pontos, perguntando se o seu cumprimento fosse necessário para o início das negociações, o Papa negou expressamente que assim fosse.

 

A crítica ao Osservatore Romano volta-se então para minha breve discussão sobre a primeira encíclica de Pio XII, a Summi Pontificatus, emanada logo após a invasão alemã da Polônia em outubro de 1939. Sou acusado de não ter representado a encíclica como um ataque à Alemanha por sua agressão. Mas não era. Como escreveu John Conway, historiador da Igreja na Alemanha: "O Papa Pio XII expressou simpatia e dor por todos os povos que foram arrastados para o trágico abismo da guerra, mas não fez nenhuma referência à agressão alemã".

 

A encíclica foi tratada com respeito pelos principais jornais fascistas italianos. É verdade que, em particular, alguns líderes alemães ficaram insatisfeitos com as palavras que podiam ser lidas como uma crítica ao estado totalitário contidas no documento. Como amplamente documentado em meu livro, a encíclica seguia a práxis adotada por Pio XII durante toda a guerra, repetidamente sinalizada pelos diplomatas estrangeiros a serviço no Vaticano: ele preparava cuidadosamente seus discursos para que tivessem passagens que pudessem ser usadas por ambos os lados como prova do apoio do Papa à sua causa.

 

Nos bastidores, tanto os aliados quanto os alemães e os italianos atacaram o papa pelas declarações que consideravam mais amigáveis para com seus inimigos. Mas publicamente ambos fizeram todo o possível para apresentar o papa do seu lado.

 

O terceiro ponto focal do ataque do Osservatore Romano diz respeito à blitz das SS que prendeu mais de mil judeus em Roma em 16 de outubro de 1943. Recriminam-me por não ter incluído, em minha extensa citação do relato do Secretário de Estado, Cardeal Maglione, de seu encontro de 16 de outubro com o embaixador alemão Ernst von Weizsäcker, sua declaração de que “a Santa Sé não deveria posta na necessidade de protestar. Caso a Santa Sé fosse obrigada a fazê-lo, confiar-se-ia, pelas consequências, à Divina Providência”. Mas o que exatamente isso acrescenta ao relato dado em Un papa in guerra?

 

Cito Maglione, que diz ao embaixador: "É doloroso, para o Santo Padre, doloroso além de qualquer palavra que precisamente em Roma, sob os olhos do Padre Comum, seja causado sofrimento a tantas pessoas apenas porque pertencem a uma determinada estirpe". E quando Weizsäcker responde com a pergunta “o que faria a Santa Sé se a situação tivesse que continuar?”, cito a resposta do Cardeal: “A Santa Sé não deveria ser posta na necessidade de dizer uma palavra de desaprovação”.

 

De fato, o Papa não pronunciou nenhuma palavra de protesto quando os judeus de Roma eram enviados para morrer em Auschwitz.

 

Ao anunciar a abertura dos arquivos do papado de Pio XII, o Papa Francisco disse: "A Igreja não tem medo da história". Só podemos esperar que, após a reação defensiva inicial à revelação dessa história, o Vaticano possa iniciar o processo de chegar a um acordo com ela. A hagiografia papal pode ter o seu lugar, mas parece-me mais importante compreender melhor esse trágico capítulo da história humana.

 

 

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