Livro revela os abusos de poder nas comunidades religiosas femininas

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21 Dezembro 2021

 

No livro Il velo del silenzio [O véu do silêncio], Salvatore Cernuzio, jornalista da Rádio Vaticano e do Vatican News, recolheu 11 testemunhos anônimos de religiosas ou ex-religiosas, vítimas de abusos de poder e de consciência e, muitas vezes, forçadas a abandonar o véu ou a própria comunidade.

 

A reportagem é de Fabio Colagrande, publicada por Vino Nuovo, 20-12-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Mulheres consagradas que abandonam o véu e o mosteiro onde vivem pelos muitos abusos de poder sofridos e que se encontram tão sozinhas e desamparadas que têm que escolher a prostituição para se sustentar. De freiras a prostitutas.

Parece a trama pruriginosa de uma ficção de mau gosto, mas, pelo contrário, é o destino real e trágico de algumas ex-freiras que, ainda em fevereiro de 2020, era evidenciado em uma entrevista concedida pelo cardeal João Braz de Aviz, à frente da congregação vaticana para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.

Aquele diálogo, que foi publicado no caderno mensal do L’Osservatore Romano “Donne Chiesa Mondo”, foi um dos primeiros artigos a destapar a “caixa de Pandora” dos abusos de poder e de consciência perpetrados contra as religiosas nas congregações femininas que, muitas vezes, têm como resultado final a exclaustração, o abandono do hábito por parte das vítimas.

Ainda em anos anteriores, a explosão na Igreja do escândalo da “pedofilia”, isto é, dos abusos sexuais contra menores cometido por clérigos – embora com uma dramática demora –, tinha provocado um processo de autocrítica e evidenciado que, na origem de tais fenômenos, havia uma degeneração do exercício do poder nas comunidades católicas.

Na sua Carta ao Povo de Deus de agosto de 2018, dedicada a esse tema, o Papa Francisco falava com clareza de “abusos de poder e de consciência” e apontava o dedo contra o “clericalismo” como forma anômala de entender a autoridade na Igreja. Assim, sobretudo depois do passo decisivo do encontro sobre a “Proteção dos Menores na Igreja”, que reuniu as Conferências Episcopais de todo o mundo no Vaticano em fevereiro de 2019, o tema dos abusos (sexuais, mas não só) das religiosas ganhou cada vez mais espaço.

Em agosto de 2020, a publicação na revista jesuíta La Civiltà Cattolica do artigo do Pe. Giovanni Cucci intitulado Abusos de autoridade na Igreja: problemas e desafios da vida religiosa feminina marcava uma virada decisiva, evidenciando a gravidade do tema inexplorado da crise de gestão do poder em algumas comunidades religiosas e do drama das mulheres forçadas a abandonar as congregações, traumatizadas psicologicamente, abandonadas, marginalizadas e com o estigma de traidoras. Um tema, na realidade, já levantado em 2017 pelo documento vaticano “Para vinho novo, odres novos”, fazendo um balanço da situação da vida religiosa pós-conciliar.

Agora, o livro de Salvatore Cernuzio “Il velo del silenzio. Abusi, violenze, frustrazioni, nella vita religiosa femminile”, publicado em novembro pela editora San Paolo, marca mais um passo decisivo rumo à conscientização da necessária – e já inevitável – reforma dessas comunidades.

 

"O véu do silêncio: abusos, violências, frustrações na vida religiosa feminina", novo livro de Salvatore Cernuzio (Foto: NOME)

 

O autor, vaticanista do Dicastério para a Comunicação do Vaticano, partindo explicitamente do artigo publicado há mais de um ano pelo Pe. Cucci, conseguiu recolher 11 testemunhos (de nove ex-freiras e de duas religiosas professas) que – embora anônimas – encarnam uma crise até agora evocada abstratamente e finalmente dão voz às vítimas, infelizmente protagonistas de histórias de assédios, perseguições e humilhações psicológicas, proibições e obrigações cruéis e incompreensíveis, episódios de racismo e verdadeiras violações das normas canônicas.

Nas vestes das algozes, com perfis psicológicos evidentemente perturbados, muitas vezes há madres superiores apaixonadas pelo próprio poder, que o exercem exigindo uma obediência cega, que beira à escravidão, mas sobretudo abusando do nome de Deus. Uma degeneração antievangélica que não pode deixar de provocar – como o autor enfatiza bem na sua nota de abertura – uma reavaliação do sistema interno da vida religiosa feminina e um processo de reformas como as já iniciadas em muitos seminários.

O anonimato e os nomes fictícios por trás dos quais se ocultam as 11 histórias dramáticas contadas por Cernuzio são cada vez mais inquietantes, se refletirmos sobre a impossibilidade (ou a incapacidade?) que essas 11 mulheres têm hoje de falar de rosto aberto, por medo de vinganças ou retaliações. E é impossível deixar de conectar as histórias desses abusos de poder perpetrados nos conventos (mas há também um de natureza sexual cometido por um padre) à vexata quaestio do machismo clerical e ao papel da mulher na vida eclesial.

Entre os pontos positivos do volume, além da heroica resistência na fé e na vocação à vida religiosa da maioria das vítimas, mesmo depois de terem saído da congregação, encontra-se a leitura em chave sinodal desses testemunhos feita, no seu prefácio, pela Ir. Nathalie Becquart, subsecretária da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos.

Consciente de que essas distorções no exercício da autoridade eclesial – de forma mais ou menos aterrorizante – não pertencem apenas às comunidades religiosas femininas, Becquart deseja o abandono do “modelo clerical” da Igreja para poder entrar em um novo “modelo sinodal”, o que implica “a escuta e a participação de todos e a assunção de responsabilidades conjuntas”.

Lendo essas dramáticas histórias da vida eclesial, talvez se compreenda melhor o sentido do inédito caminho sinodal iniciado em outubro pelo Papa Francisco. Um processo baseado na escuta, até mesmo de gritos extremos como esses, que para alguns parecem abstratos e confusos e que, pelo contrário, têm a ver também com a carne viva dos fiéis, além das suas almas.

 

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