Fratelli Tutti: Cardeal Czerny diz que a nova encíclica está alertando para “um mundo no limite”

Armas nucleares. | Foto: Pixabay

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07 Outubro 2020

Um dos principais conselheiros do papa Francisco disse que o pontífice vê o mundo atual em situação comparável à crise dos mísseis, Segunda Guerra Mundial ou o atentado às Torres Gêmeas em Nova York – e isso é completamente entendível pela encíclica papal publicada no Domingo, que é necessário entender que “nós estamos no limite”.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 06-10-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

“Dependendo da sua idade, é como ouvir o papa Pio XII dar sua mensagem de natal durante a Segunda Guerra Mundial”, disse o cardeal Michael Czerny na segunda-feira. “Ou se parece como o papa João XXIII quando publicou Pacem in Terris; Ou depois do 11 de setembro de 2001, a crise de 2007/08... Eu penso que é necessário recuperar esse ‘frio na barriga’, em todo nosso ser, para apreciar a Fratelli Tutti”.

“Eu penso que o papa Francisco sente hoje que o mundo tem necessidade de uma mensagem comparável à que nós precisávamos durante a Crise dos Mísseis, ou a Segunda Guerra Mundial ou a grande crise de 2007/08”, disse. “Nós estamos no limite. Nós precisamos recuar de forma muito humana, global e local. Eu penso que esse é um caminho a se introduzir pela Fratelli Tutti”.

Fratelli Tutti é a encíclica do papa argentino e publicada na festa de São Francisco de Assis, depois de assinada no dia anterior na cidade italiana onde o santo franciscano viveu a maior parte de sua vida.

De acordo com o cardeal, se a encíclica anterior do papa Francisco, Laudato Si’, sobre o cuidado com a criação, “ensina-nos que tudo está interligado, Fratelli Tutti ensina-nos que todos estamos interligados”.

“Se nós nos responsabilizamos por nossa casa comum e nossos irmãos e irmãs, então eu penso que nós temos uma boa chance, e a minha esperança é reanimada e inspirada a seguir fazendo cada vez mais”, disse.

Czerny, chefe da seção para migrantes e refugiados do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Integral Humano, fez seus comentários durante a “Dahlgren Dialogue”, sessão online organizada pela Initiative on Catholic Social Thought and Public Life da Georgetown University.

O prelado disse que a Fratelli Tutti “traz algumas grandes questões e as traz para a casa de cada um de nós”, com o pontífice atacando uma teoria que a maioria consente sem perceber o que está fazendo: “Acreditamos que se é feito por nós mesmos, sem reconhecer Deus como nosso criador; somos prósperos, acreditamos que merecemos tudo o que temos e consumimos; e somos órfãos, desconectados, totalmente livres e realmente sozinhos”.

Mesmo que Francisco não use a imagem que desenvolveu, Czerny disse que ajuda a entender o que a encíclica está pressionando, para então se concentrar no que a encíclica está levando aos leitores: “A verdade, e isso é o oposto de prosperar por minha própria conta”.

O cardeal canadense nascido na Tchecoslováquia estava acompanhado pela irmã Nancy Schreck, ex-presidente da Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas; Edith Ávila Olea, uma defensora dos imigrantes em Chicago e membro do conselho da Bread for the World; e Claire Giangravé, correspondente do Vaticano para o Religion News Service (e ex-correspondente do Crux).

“Muitas pessoas hoje perdem a esperança e estão com medo porque há muito colapso e a cultura dominante nos diz para trabalhar duro, trabalhar mais e fazer o mesmo”, disse Schreck. “O que é tão encantador para mim nesta carta é que o papa Francisco nos fornece uma maneira alternativa de olhar o que está acontecendo em nossas vidas e que algo novo pode surgir neste momento”.

A religiosa disse ainda que Fratelli Tutti é um convite a se ver como “próximo, como amigo, para construir relacionamentos”, particularmente necessários em um momento em que o mundo se sente tão politicamente dividido, pois ajuda a sanar a divisão.

Como franciscana, ela deu o exemplo de São Francisco visitando o sultão muçulmano al-Malik al-Kamil durante as Cruzadas, quando o “pensamento dominante era matar o outro”.

Resumindo em uma versão “muito curta”, ela disse que a ordem que o santo dava aos que o acompanhavam era não falar, mas escutar. Depois do encontro, “eles se separaram”, e o santo voltou a Assis e incorporou à sua vida e à da família franciscana alguns pequenos elementos do Islã, como o chamado à oração.

“A chave disso é que podemos ir para a pessoa que percebemos como um inimigo ou que nossa cultura chama de nosso inimigo, e podemos ser capazes de construir um relacionamento, e vemos isso em cada elemento de Fratelli Tutti”, Schreck disse.

Ela também disse que a parte “genial” de Fratelli Tutti em termos de economia é “quem é meu próximo e como trato os que são deixados de lado por um sistema que gera gente pobre”.

“Em muitas partes do mundo, nosso modelo financeiro atual beneficia alguns e exclui ou destrói muitos”, disse Schreck. “Acho que temos que continuar construindo laços de relacionamento entre quem tem recursos e quem não tem. São os relacionamentos que guiam nosso pensamento: podemos ter teorias econômicas abstratas, mas elas começam a se firmar quando vemos o impacto que têm nas pessoas ”.

Czerny argumentou que não é papel dos líderes da Igreja, nem mesmo do Papa, “falar-nos como administrar nossa economia ou política”. No entanto, o Papa pode guiar o mundo em direção a certos valores, e é isso que o Papa faz em sua última encíclica, lembrando que a economia não pode estar no comando da política.

Ávila compartilhou sua visão como uma “dreamer”, que se mudou com sua família para os Estados Unidos quando ela tinha 8 meses.

“Como imigrante, estou em um lugar único, porque não posso evitar as adversidades”, disse ela. “Vivo com a incerteza, com a constante retórica anti-imigrante que ouvimos nas mídias e redes sociais, vivo com os pesadelos que tiro da constante ameaça. Eu não consigo relaxar”.

No entanto, para ela, Fratelli Tutti foi “um convite ao descanso, um convite a continuar com esperança, a lembrar que a cruz é extremamente dura, mas que há uma Ressurreição”.

Ávila disse que, como católica, viu a encíclica de Francisco como um convite para contribuir com a sociedade e torná-la melhor.

Ela também sentiu que o papa Francisco estava falando com ela, como uma imigrante: “Crescendo em uma família de status misto, você enfrenta desafios que não são fáceis de navegar ou compreender. Fiquei emocionada, me senti muito escutada, porque, embora nossa igreja esteja aqui e longe do Vaticano, senti que minha dor e nosso sofrimento como uma comunidade de imigrantes nos EUA não são em vão e estão sendo ouvidos”.

Giangravé disse que, como jornalista, uma pessoa pode se tornar “um pouco cínica, pois você aprende mais e isso pode fazer você perder a esperança para alguns dos sonhos ambiciosos que se tem quando criança, sobre que tipo de católicos no mundo, mas todos, de todas as religiões, poderiam construí-los juntos. Lembro-me de conversas em cafés com pessoas da minha idade falando sobre fronteiras e propriedade e o direito individual de cada ser humano, e como as religiões poderiam se unir e como poderíamos realmente ter um diálogo e uma política que refletisse os interesses dos mais vulneráveis, dos pobres”.

Para ela, era “divertido” sentir algo que o papa Francisco costumava dizer, mas ela nunca havia experimentado: “Os velhos sonham e os jovens os realizam”.

“Os idosos que eu conheço não estavam sonhando muito, eles parecem muito ocupados relembrando ou pensando sobre um tempo que se foi”, disse Giangravé. “Mas o papa Francisco sonhou nesta encíclica, e isso fez com que eu, como jovem, e muitos outros jovens, sentíssemo-nos inspirados, e talvez ingênuos, mas animados por as coisas não precisarem ser assim no mundo”.

 

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