No fórum de Davos, o Papa lembra que no centro da política deve estar a pessoa e não o poder ou o lucro. O desenvolvimento integral deve incluir toda a família humana

Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. | Foto: Benedikt von Loebell/World Economic Forum

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Janeiro 2020

Por ocasião do Fórum econômico de Davos, que se realiza de 21 a 24 de janeiro, o Papa enviou ao diretor executivo uma mensagem entregue pelo cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson, prefeito do Dicastério para o serviço do desenvolvimento humano integral, que participa como representante da Santa Sé. Publicamos uma tradução do texto.

O texto foi publicado por L'Osservatore Romano, 21/22-01-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o texto.

Ao Professor Klaus Schwab
Diretor Executivo do Fórum Econômico Mundial

Enquanto o Fórum Econômico Mundial celebra seu 50º aniversário, envio cumprimentos e bons votos de oração a todos os participantes do encontro deste ano. Agradeço o seu convite para participar e pedi ao Cardeal Peter Turkson, Prefeito do Dicastério para o Serviço Integral de Desenvolvimento Humano, que o participasse como representante da Santa Sé.

Nos últimos anos, o Fórum Econômico Mundial ofereceu uma oportunidade para o empenho das diferentes partes interessadas na exploração de modos inovadores e eficazes de construir um mundo melhor. Também forneceu um âmbito em que podem ser guiadas e fortalecidas a vontade política e a colaboração mútua na superação do isolacionismo, do individualismo e da colonização ideológica que, infelizmente, caracteriza demais o debate contemporâneo.

À luz dos desafios crescentes e cada vez mais interconectados que o nosso mundo deve enfrentar (cf. Laudato si', 138 e segs.), O tema sobre o qual escolheram refletir este ano - Stakeholders for a Coesive and Sustainable World - indica a necessidade de um maior empenho em todos os níveis, a fim de enfrentar com mais eficácia as diferentes questões com que a humanidade se confronta. Nas últimas cinco décadas, testemunhamos a transformações geopolíticas e mudanças significativas, da economia e mercado de trabalho à tecnologia digital e ao meio ambiente. Muitos desses desenvolvimentos beneficiaram a humanidade, enquanto outros tiveram efeitos negativos e criaram importantes lacunas no desenvolvimento. Embora os desafios atuais não sejam os mesmos de meio século atrás, vários aspectos continuam sendo importantes quando iniciamos uma nova década.

A consideração predominante, que nunca deve ser esquecida, é que todos somos membros da única família humana. O dever moral de cuidar um do outro decorre desse fato, assim como o princípio relacionado de colocar a pessoa humana, em vez da mera busca de poder ou lucro, no centro da política pública. Além disso, esse dever cabe tanto ao setor empresarial quanto aos governos e é imprescindível na busca de soluções justas para os desafios que nos propõem. Portanto, é necessário ir além das abordagens tecnológicas ou econômicas de curto prazo e levar plenamente em conta a dimensão ética na busca de soluções para os problemas atuais ou na proposição de iniciativas para o futuro.

Com demasiada frequência, visões materialistas ou utilitaristas, às vezes ocultas, outras vezes evidentes, conduzem a práticas e estruturas motivadas em grande parte, ou mesmo exclusivamente, por interesses próprios. Geralmente, estes veem os outros como o meio para alcançar um fim e implicam uma falta de solidariedade e caridade, que, por sua vez, dá origem a uma verdadeira injustiça, enquanto o desenvolvimento humano verdadeiramente integral só pode prosperar quando todos os membros da família humana estão incluídos na busca do bem comum e podem contribuir para isso. Na busca de progresso autêntico, não devemos esquecer que pisar na dignidade de outra pessoa significa realmente diminuir o próprio valor.

Na minha Carta Encíclica Laudato si', chamei a atenção para a importância de uma "ecologia integral" que leve em consideração todas as implicações da complexidade e interconexão da nossa casa comum. Tal abordagem ética renovada e integrada requer um "humanismo, que apela aos diferentes saberes, incluindo aquele econômico, para uma visão mais integral e integradora" (ibid., 141).

Ao reconhecer as conquistas dos últimos cinquenta anos, é minha esperança que os participantes do Fórum atual, e aqueles que ocorrerão no futuro, tenham em mente a alta responsabilidade moral que cada um de nós tem em buscar o desenvolvimento integral de todos os nossos irmãos e irmãs, incluindo aqueles das gerações futuras. Que suas deliberações levem a um crescimento em solidariedade, especialmente com os mais necessitados, que experimentam injustiça social e econômica e cuja própria existência está inclusive ameaçada.

A todos que participam do Fórum, renovo meus votos de oração para um encontro proveitoso e invoco sobre todos vocês a bênção da sabedoria de Deus.

Do Vaticano, 15 de janeiro de 2020
Francisco

 

Leia mais