18 Agosto 2026
Dos 20 milhões de endividados, 5,8 milhões estão inadimplentes há mais de 90 dias, a maioria com cartões bancários, carteiras eletrônicas e empréstimos informais, em um drama social que emerge como a face mais visível da crise.
A reportagem é de Mercedes López San Miguel, publicada por elDiario.es, 17-08-2026.
"Colocaram uma pistola na cabeça deles para se endividarem?", disse o presidente Javier Milei diante da pergunta sobre a situação que aflige 20 milhões de argentinos, quase metade da população. O dado mais dramático é que cerca de 5,8 milhões de pessoas com dívida estão inadimplentes há mais de 90 dias e com taxas de juros impagáveis, a maioria com cartões bancários, carteiras eletrônicas e empréstimos pessoais.
A asfixia orçamentária das famílias argentinas se traduz em números frios que expõem a brecha entre o discurso oficial e o cotidiano das pessoas. Enquanto os salários reais despencam e a fragilidade do mercado de trabalho se aprofunda, a inadimplência de crédito emerge como a face mais visível da crise.
Segundo dados do Banco Central (BCRA), a taxa de inadimplência nos empréstimos hipotecários para residências subiu, em junho, para 12,7% — cinco vezes a média registrada desde a debacle financeira global das subprime. O panorama é ainda mais voraz no setor fintech: nas carteiras eletrônicas e financeiras não bancárias, a inadimplência chega a 30%.
O último relatório do Centro de Economia Política Argentina (CEPA) mostra que as dívidas que as famílias não conseguem pagar crescem de modo constante desde o último trimestre de 2024 e, em maio deste ano, atingiram patamares alarmantes. A inadimplência com os bancos passou de 2,5% para 12,1% de novembro de 2024 a abril de 2026, e com as carteiras eletrônicas saltou de 7,3% para 29,6%.
Para pagar gastos essenciais
O diretor do CEPA, Hernán Letcher, aponta ao elDiario.es que a inadimplência de pelo menos 90 dias de quase 6 milhões de devedores é o dado preocupante. "Tivemos a perda do poder aquisitivo, sobretudo pelo salto nas tarifas e no transporte, que levou muitas pessoas a ter que financiar gastos essenciais com cartões de crédito e carteiras virtuais (carteiras eletrônicas) — estas nem sequer emprestam de acordo com o nível de renda, sem controle. Quando você pergunta a uma pessoa que deve, ela não tem um problema, tem cinco: deve a três bancos e a duas carteiras eletrônicas. E as altas taxas agravaram um problema cuja origem é a falta de renda."
Até mesmo a Fundação Pensar — o think tank do PRO, aliado de Milei — admite que as famílias não se endividam para financiar investimento nem bens duráveis, mas para cobrir o consumo cotidiano de sobrevivência.
Com bancos aplicando taxas de juros que quadruplicam a inflação interanual (situada em torno de 30%) e plataformas digitais que apertam os parafusos com custos financeiros que beiram os 750% ao ano por meio de algoritmos opacos, o sufoco orçamentário se torna inviável.
"Acordo entre particulares"
Diante do fenômeno, Milei insiste que o endividamento familiar é um acordo "entre particulares" no qual o Estado não deve intervir. No entanto, nos bastidores da gestão real, a gravidade do quadro forçou o Banco Nación, o maior banco público do país, a lançar algumas linhas de socorro para devedores inadimplentes.
Da oposição, alertam que a inadimplência é uma consequência dos draconianos cortes de gastos públicos, da desregulamentação e dos aumentos de tarifas de serviços públicos. Diferentemente do Executivo, governos de várias províncias estão desenvolvendo programas para ajudar as famílias a sair das dívidas.
Letcher acrescenta que o fenômeno tem mais facetas: "O endividamento resulta em assédio, problemas de saúde mental e empréstimos cada vez mais precários, enquanto o governo responsabiliza os devedores e oferece pouca ajuda."
A advogada trabalhista Tamara Bezares aponta ao elDiario.es os riscos que surgem para as pessoas que recorrem a empréstimos, o que se denomina superexposição ao crédito. "As dívidas são encaminhadas a vários escritórios de cobrança, não são conduzidas por advogados, mas por pessoas administrativas. Não propiciam um tratamento digno como estabelece a lei de defesa do consumidor. Embora cobrar seja lícito, o limite é a dignidade humana, a saúde física e mental: não podem ligar o tempo todo para cobrar, nem nos fins de semana, nem para familiares ou colegas de trabalho."
Com as dívidas, crescem dramas pessoais, que afetam os setores mais vulneráveis, como os aposentados, cada vez mais atingidos pela política econômica deste governo. Em agosto de 2026, a aposentadoria mínima é de 490 mil pesos (326 dólares). Atualmente, há 1.345.954 aposentados endividados com prestamistas não bancários, segundo a Universidade Nacional de Avellaneda.
Os idosos, junto com as trabalhadoras domésticas, são os grupos mais afetados. "Onde está o grupo mais fraco, é onde há mais dívida e menos saídas", aponta Bezares. E acrescenta: "Os prestamistas informais recorrem a ameaças e métodos quase criminosos. Por exemplo, uma senhora que recebe a aposentadoria mínima e me ligou para se aconselhar contou que devia cem mil pesos (66 dólares) a 10 pessoas diferentes. Entraram na casa dela e levaram a geladeira."
Aposentados e trabalhadoras domésticas estarão representados nesta quinta-feira na marcha ao Ministério da Economia contra o superendividamento familiar, convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), empresários de pequenas e médias empresas e endividados autoconvocados. Não se trata de um tema entre particulares, trata-se de um drama coletivo.
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