Mudanças climáticas e garimpo ampliam riscos à saúde indígena. Entrevista especial com Sandra Hacon

“Na atualidade, 147 Terras Indígenas, 37% do total na Amazônia, estão em bacias hidrográficas impactadas pelo garimpo, e 19 possuem atividade garimpeira em seu interior”, alerta a pesquisadora

Foto: Marcelo Seabra/Agência Pará

Por: Luana de Oliveira | 27 Agosto 2026

As mudanças climáticas têm intensificado problemas de saúde graves na população brasileira, algo que tem se agravado drasticamente dentro das comunidades indígenas, principalmente pelas mãos criminosas do garimpo ilegal. De acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), a combinação de secas severas, ondas de calor, incêndios florestais e enchentes com o avanço da mineração cria um cenário de riscos compostos que ameaçam a segurança alimentar, a saúde, a mobilidade e seus meios de vida.

Em entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Sandra Hacon, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP-Fiocruz), conta que atualmente “147 Terras Indígenas, 37% do total na Amazônia, estão em bacias hidrográficas impactadas pelo garimpo, e 19 possuem atividade garimpeira em seu interior. Além disso, 40% dos garimpos fora das TIs estão a até 50 km de seus limites”. Segundo ela, as terras indígenas mais afetadas são as comunidades Kayapó, Munduruku e Yanomami que concentram 89% da área garimpada em territórios indígenas no Brasil e estão em municípios que somaram 188 eventos climáticos extremos entre 2000 e 2024.

Os incêndios que queimam as florestas também são um fator preocupante para a manutenção da saúde dos povos originários. Sandra menciona que somente na Amazônia, entre 2023 e 2024, houve um aumento significativo de internações de indígenas decorrentes de problemas respiratórios e cardiovasculares causados pelas queimadas. A professora comenta ainda que a exposição recorrente à fumaça “afeta a todos os expostos, mas já sabemos que os grupos mais vulnerabilizados, como crianças, recém-nascidos, gestantes, pessoas com comorbidades e idosos, são os que mais sofrem”.

Nessas condições, os povos da floresta têm se moldado “implementando sua sabedoria e conhecimentos de saberes ancestrais na adaptação das mudanças climáticas mediante a mudança de horário no trabalho na roça e uso de guarda-chuva para se proteger do sol muito quente, com temperaturas que ultrapassam os 40 graus”, diz Hacon.

Dra. Sandra Hacon, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP-Fiocruz) (Foto: Virgínia Damas/ ENSP-Fiocruz)

Sandra Hacon possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1974), mestrado em Controle da Poluição Ambiental pela Manchester University (1981) e doutorado em Geociências (Geoquímica Ambiental) pela Universidade Federal Fluminense (1996). É professora na Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, integrante dos programas de pós-graduação de mestrado de doutorado em Ciências Ambientais da Universidade Estadual de Mato Grosso (UNEMAT) e da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. Atua na área de Avaliação de Risco à Saúde Humana, Ecotoxicologia, Gestão Integrada de Saúde e Ambiente e Avaliação de Impactos à Saúde das Mudanças Climáticas e de Grandes Empreendimentos. Coordena projetos de pesquisa financiados pelo CNPq, FAPERJ, FINEP, CAPES, setor privado, atua como pesquisadora em projetos interdisciplinares com a UNEMAT, INPE, UNB, USP, UFRN, USP, PUC/RJ, UFCE, Fiocruz, projetos internacionais com a Universidade de Exeter, do Reino Unido, Instituto Tropical de Epidemiologia e Sáude Pública de Basel e a Universidade de Basel na Suíça. Na área acadêmica, é responsável por disciplinas nos cursos de pós-graduação da ENSP/FIOCRUZ, orientadora de mestrado e doutorado nos cursos de pós-graduação de Saúde Pública e Meio Ambiente da ENSP/Fiocruz e do Programa de CIências Ambientais da UNEMAT.

Confira a entrevista.

IHU – Quais são os riscos específicos que as mudanças climáticas representam para a saúde dos povos indígenas na Amazônia e em outros biomas brasileiros?

Sandra Hacon – Cada território indígena em terras brasileiras tem suas especificidades e seus impactos sobre a saúde decorrentes das mudanças climáticas. Os câmbios climáticos já apresentam consequências severas e abrangentes para os territórios indígenas na Amazônia. O aumento das temperaturas globais e locais, a alteração dos padrões de precipitação, a seca prolongada e o aumento de eventos climáticos extremos estão exercendo pressões e transformações sem precedentes sobre os serviços ecossistêmicos que representam riscos para a saúde dos povos indígenas.

Esses riscos apresentam uma elevada heterogeneidade espacial e dependem das localizações geográficas dos territórios, do nível de escolaridade dos indígenas, de suas crenças e do nível de vulnerabilidades socioambiental existentes, incluindo o acesso a serviços de saúde.

IHU – Em suas últimas pesquisas, o que a senhora tem identificado como um problema na qualidade de vida das populações indígenas, principalmente por conta da intensificação dos eventos climáticos extremos?

Sandra Hacon – Como já mencionado, a perda da biodiversidade, as alterações no ciclo hidrológico, a insegurança hídrica e alimentar, em quantidade e qualidade, o aumento no uso de agrotóxicos (o aumento da temperatura acarreta o aumento de pragas e, consequentemente, o aumento no uso de herbicidas), as queimadas, a degradação ambiental, entre outras alterações têm consequências diretas e indiretas para a qualidade de vida.

Os eventos extremos de 2023 e 2024, exacerbados pelo fenômeno El Niño, evidenciaram o aumento dos agravos de doenças agudas e crônicas, a emergência e reemergência de novas doenças infectocontagiosas, como a febre Oropouche, que resultaram no aumento de custos ao Sistema Único de Saúde (SUS). Dependendo da gravidade dos problemas de saúde indígena, os indígenas são conduzidos para os hospitais do SUS.

IHU – Recentemente, a senhora mencionou que, diante do calor extremo, algumas comunidades têm precisado adaptar seus hábitos cotidianos para se proteger, inclusive porque o urucum já não oferece a mesma proteção à pele exposta ao sol. Qual a importância dessas estratégias de adaptação climática dentro das comunidades indígenas? Como os territórios conseguem preservar seus conhecimentos, suas práticas e saberes ancestrais mediante essa crise climática? Como os eventos extremos tendem a mudar o modo de vida dos povos indígenas?

Sandra Hacon – As alterações do cotidiano decorrentes dos eventos extremos afetam toda a sociedade, mas sabemos que nas comunidades tradicionais e indígenas os impactos são mais severos por causa dos hábitos de vida, desigualdades sociais e econômicas, vulnerabilidades ambientais e sociais, além de situações agudas e críticas como o aumento das descargas elétricas nas aldeias acarretando incêndios das malocas de grandes proporções.

Por outro lado, os indígenas conhecem os sinais da natureza a partir das estrelas, das fases da Lua, do canto dos pássaros, da florescência de determinadas espécies de plantas, do período das chuvas, da temperatura do amanhecer, das queimaduras na sola do pé, da ausência dos peixes, no aparecimento de determinados insetos etc.

Os indígenas já estão implementando sua sabedoria e conhecimentos de saberes ancestrais na adaptação das mudanças climáticas mediante a mudança de horário no trabalho na roça e uso de guarda-chuva para se proteger do sol muito quente, com temperaturas que ultrapassam os 40 graus.

IHU – Hoje, fala-se muito em refugiados climáticos, pessoas que precisam abandonar seus territórios por causa dos efeitos extremos, que tornam regiões inabitadas. Esse é um risco real para as comunidades indígenas que vivem na Amazônia brasileira?

Sandra Hacon – Ainda não tive a oportunidade de conhecer povos indígenas que tenham deixado suas terras por causas referentes a emergência climática e seus efeitos extremos na Amazônia brasileira. Mas a atividade garimpeira cresceu 20 vezes na Amazônia Legal e 24 vezes dentro das Terras Indígenas, passando de cerca de 1,5 mil para 36 mil hectares nesses territórios.

Na atualidade, 147 Terras Indígenas, 37% do total na Amazônia, estão em bacias hidrográficas impactadas pelo garimpo, e 19 possuem atividade garimpeira em seu interior. Além disso, 40% dos garimpos fora das TIs estão a até 50 km de seus limites. As TIs Kayapó, Munduruku e Yanomami concentram 89% da área garimpada em territórios indígenas no Brasil e estão em municípios que somaram 188 eventos climáticos extremos entre 2000 e 2024: 74 nos municípios da TI Yanomami, 71 nos da Kayapó e 43 nos da Munduruku.

IHU – Sobre as comunidades indígenas que vivem próximas de garimpos, o que os estudos do Observatório do Mercúrio têm mostrado sobre os níveis de mercúrio no organismo de crianças, gestantes e mulheres? O garimpo continua sendo a principal fonte de exposição ao mercúrio para os Munduruku e Yanomami?

Sandra Hacon – Sim, o garimpo de ouro continua sendo uma importante fonte de contaminação e exposição ao mercúrio para os povos indígenas do Bioma Amazônico. A literatura é muito ampla com excelentes estudos evidenciando os impactos da exposição ao mercúrio na população indígena do povo Munduruku do rio Tapajós.

Acesse todos os dados disponíveis no Observatório do Mercúrio aqui.

IHU – O que precisaria mudar no sistema brasileiro de saúde para que ele deixasse de ser predominantemente reativo e passasse a trabalhar de forma preventiva dentro dessas comunidades? Como proteger as populações indígenas sem transformar o monitoramento em uma forma de interferência indevida em seus territórios?

Sandra Hacon – A Saúde indígena é de responsabilidade do Ministério da Saúde e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). Os 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) deveriam gerenciar uma rede de atenção básica articulada ao SUS. Na Amazônia, isso ainda não acontece: as informações são precárias, com muitas dificuldades de ordem gerencial. Os DSEIs não acompanham os avanços do SUS na universalização, na construção de indicadores, dificultando o diálogo intercultural e a estruturação de bancos de dados que possam ser trabalhados por instituições e pesquisadores na direção de uma plataforma de dados confiáveis, fundamentais para o avanço das políticas públicas em saúde indígena.

Não acredito que o monitoramento ambiental e a vigilância em saúde sejam uma forma de interferência indevida em seus territórios.

IHU – Como a presença do crime organizado interfere na capacidade do Estado de realizar vigilância ambiental e ações de saúde nos territórios?

Sandra Hacon – A presença do crime organizado inviabiliza a capacidade do Estado de realizar a vigilância e o monitoramento ambiental e ações de saúde nos territórios.

IHU – Recentemente, dados do Cimi mostraram que o número de assassinatos de indígenas em 2025 superou a média registrada durante o governo Bolsonaro. Ao mesmo tempo, o governo Lula retomou a política de demarcação e criou estruturas específicas para a proteção dos povos indígenas. Por que essas medidas ainda não foram suficientes para reduzir a violência e garantir maior segurança às comunidades que vivem nos territórios? Que fatores explicam o aumento no número de assassinatos de indígenas?

Sandra Hacon – Acredito que o avanço do crime organizado na Amazônia, principalmente em áreas de fronteira, pode ser entendido como um dos fatores que avançam em direção aos territórios indígenas, principalmente aqueles que ainda não estão demarcados. A demarcação é urgente e a cada dia mais se afasta de sua concretização, em decorrência dos interesses econômicos da mineração. A mineração ilegal, assim como o contrabando de madeira, de animais silvestres e do ouro, já é conhecida por integrar algumas das causas dos assassinatos na Amazônia brasileira.

IHU – Como a exposição recorrente à fumaça pode afetar uma comunidade que vive em uma região onde os incêndios e a degradação ambiental se tornam cada vez mais frequentes?

Sandra Hacon – Os incêndios florestais ocorridos no Pantanal em 2020 e na Amazônia em 2023 e 2024 evidenciaram um aumento significativo de internações de indígenas, decorrentes de problemas respiratórios e cardiovasculares, causados pelas queimadas. A pluma dos incêndios florestais de 2020 chegaram até São Paulo, que evidencia que não há barreiras para a poluição do ar gerada na Amazônia ou no Pantanal.

A exposição recorrente à fumaça afeta a todos os expostos, mas já sabemos que os grupos mais vulnerabilizados, como crianças, recém-nascidos, gestantes, pessoas com comorbidades e idosos, são os que mais sofrem. Os estudos com comunidades indígenas expostos a fumaça chamam atenção para o aumento da pneumonia, asma e bronquite, podendo chegar ao óbito. A pneumonia é a principal causa do óbito em comunidades indígenas da Amazônia.

IHU – As mudanças no regime de chuvas, o aumento das temperaturas e a intensificação das queimadas podem favorecer o surgimento ou a expansão de doenças nos territórios indígenas?

Sandra Hacon – As mudanças climáticas, a degradação ambiental, a poluição e a perda de biodiversidade estão impactando cada vez mais a saúde e o bem-estar humanos, principalmente de comunidades tradicionais e indígenas, que são integralmente dependentes dos serviços ecossistêmicos.

O aumento das temperaturas, os eventos climáticos extremos e as alterações nos ecossistemas estão intensificando os riscos à saúde, incluindo doenças respiratórias, cardiovasculares, metabólicas e renais, enfermidades relacionadas ao calor, como a desidratação e a insolação, infecções transmitidas por vetores e as zoonoses. As mudanças climáticas apresentam riscos significativos e multifacetados para a saúde humana, principalmente por meio da maior exposição a eventos climáticos extremos, como ondas de calor, aumento da insegurança alimentar e hídrica e alterações nos sistemas de saúde. O aumento das temperaturas e dos níveis de umidade agrava os riscos à saúde associados à poluição do ar.

Da mesma forma, a combinação de chuvas extremas e a degradação de áreas úmidas eleva o risco de inundações, o que, por sua vez, contribui para a propagação e a mudança nos padrões de doenças infecciosas, a perda de meios de subsistência e a destruição de infraestruturas de saúde. Os eventos climáticos extremos impactam diretamente a saúde física e mental. Algumas comunidades indígenas que vivenciaram as secas extremas de 2023 e 2024 na Amazônia continuam apresentando sinais e sintomas de doenças mentais, como depressão, medo do período de seca e ansiedade.

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