Na entrevista a seguir, a professora e pesquisadora aborda a questão da legitimidade artística e da apropriação estética da arte popular
Quando tratamos de arte, tanto melhor se o substantivo não é pensado no singular. Isso porque as expressões artísticas são dinâmicas e assumem contornos distintos no espaço, mas também no tempo em que se situam. “Falar em arte é pensar sobretudo em criação, é a possibilidade que temos de dar forma, de materializar ideias e sentidos, de ordenar a nossa existência, uma necessidade de expressão que está presente em todas as culturas”, define Jancileide Souza dos Santos, em entrevista por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
“A definição de um objeto como artístico ou não artístico, como artesanato, arte popular ou arte, é uma discussão que somente pode ser compreendida quando analisamos o contexto histórico, político e social em que essas acepções foram concebidas, assim como as bases teóricas e filosóficas que sustentam os argumentos que distinguem a arte da não arte”, explica.
Neste contexto, questionarmos os limites da arte, às vezes, pode se transformar numa estratégia problemática. “Questionar o que é arte pode se tornar uma armadilha ao buscarmos uma única definição para uma expressão que é multifacetada e polissêmica e que assume diversos significados de acordo com o contexto social e político de cada região e os meios de expressão que são utilizados por artistas em um momento histórico determinado”, aponta a entrevistada.
“As artes têm um papel político importante em nossa sociedade, principalmente em tempos de injustiças e crises sociais, pois elas se convertem em um caminho que pode provocar mudanças sociais, assim como um meio de ação política, de resistência e reexistências das populações historicamente marginalizadas”, complementa.
Jancileide Souza dos Santos (Foto: UFOB)
Jancileide Souza dos Santos é doutora e mestra em História da Arte pelo Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e bacharel em Museologia (UFBA). É professora adjunta do curso de Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB). Ministrou aulas como professora substituta do Departamento de História da Arte e Pintura na Escola de Belas Artes da UFBA. É autora do livro Colecionismo de Arte: um estudo da legitimidade artística e da apropriação estética da arte popular (Appris: 2023).
IHU – O que é a arte, o que é arte popular e quais as fronteiras e contágios entre uma e outra coisa?
Jancileide Souza dos Santos – A arte é uma manifestação cultural e reflete a visão de mundo de sujeitos e grupos que vivem em um determinado sistema político e cultural. As expressões artísticas são dinâmicas e em cada sociedade elas podem assumir funções e significados diferentes conforme as apropriações, as reapropriações e os usos sociais e culturais. Falar em arte é pensar sobretudo em criação, é a possibilidade que temos de dar forma, de materializar ideias e sentidos, de ordenar a nossa existência, uma necessidade de expressão que está presente em todas as culturas. A arte denominada de popular revela as diferenças sociais e raciais que existem nos processos de produção, circulação e consumo de arte, em que os grupos socialmente marginalizados são excluídos dos sistemas oficiais das artes, seus produtores e produtoras não são vistos como artistas e suas obras são consideradas como uma arte menor ou inferior.
Essa “arte popular” pode ser compreendida como uma produção realizada pelas populações negras, indígenas e afro-indígenas que vivem nas zonas rurais, em cidades do interior e nas periferias das grandes cidades de várias regiões do Brasil. É uma arte que traduz a diversidade dessas populações, suas histórias de vida e resistência, sua memória biocultural e ancestralidade. Essas modalidades de arte se relacionam em razão das tensões sociais que existem entre as classes. Por isso, uma arte pode influenciar a outra ou ter uma semelhança entre elas.
IHU – Por que é importante pensarmos um conceito de arte para além do cânone europeu?
Jancileide Souza dos Santos – As distinções entre artes foram estabelecidas como instrumentos de colonialidade do poder e se constituiu como um modo de hierarquização e segregação das culturas e manifestações artísticas de povos não ocidentais em relação àquelas produzidas no ocidente europeu. As referências culturais e a criação plástica das populações negras e indígenas foram sistematicamente destruídas, brutalizadas ou marginalizadas pelo domínio colonial. Esse sistema eurocêntrico estabeleceu os critérios que definem o que é ou não arte e impôs a sua concepção de arte para os povos negros e indígenas. O resultado desse processo pode ser percebido na ausência de obras de artesãs e artesãos em exposições de museus e galerias de arte, assim como a classificação dessa produção como anônima.
Boa parte dos artesãos, artesãs e artistas populares não assinam as suas obras, e seus trabalhos são destinados à comercialização em feiras e mercados em muitas cidades. No entanto, é importante dizer que artesãs/artesãos/artistas populares não vivem no anonimato, uma vez que os seus trabalhos são conhecidos pelas comunidades das quais fazem parte. A atribuição da “arte popular” como uma arte anônima pode ter ocorrido em virtude de uma não investigação ou falta de interesse, por parte de museus, galeristas, artistas e colecionadores de arte, acerca da autoria das obras no momento de aquisição desses objetos.
A hierarquia das artes ainda tem permitido que a criação artesanal de homens e, sobretudo, mulheres negras, indígenas e afro-indígenas não tenha lugar no circuito galeria-museu. Dessa maneira, artesãs e artesãos sobrevivem, inventam e reinventam objetos de uso cotidiano em um contexto em que é cada vez mais difícil manter suas tradições artístico-culturais.
IHU – No Brasil, o conceito de arte popular remonta ao Estado Novo e está associado a ideias pulsantes naquele momento, que é a construção da identidade nacional. Pode nos falar sobre como se deu esse processo?
Jancileide Souza dos Santos – A partir das décadas de 1930 e 1940, as práticas de preservação do patrimônio cultural no país tornaram-se parte de uma política pública em torno da construção de uma identidade nacional. A construção dessa identidade está ancorada na valorização e na ressignificação do popular por parte de distintos segmentos sociais e pela própria constituição do Estado brasileiro. Por meio de uma rede de instituições criadas para representar o Estado, foi definido qual é o patrimônio histórico e artístico nacional, assim como foi designado o passado a ser preservado e rememorado.
No período de centralização do Estado Novo, o uso da cultura popular fazia parte dos esforços desse regime por forjar um projeto cultural para a construção de uma nacionalidade. E a cultura brasileira colonial, concebida como a cultura do povo, assim como a cultura do sertão, rural e popular servirão de bases para a criação desse projeto idealizado pelo Estado, para legitimar os novos sistemas impostos por esse novo regime. Nesse sentido, a cultura tradicional ou popular será formulada e incorporada à imagem de um Estado que pretendia representar as tradições da sociedade.
IHU – Ainda no debate histórico e cultural, como o modernismo brasileiro da primeira fase se manifesta em expressões artísticas da primeira metade do século XX?
Jancileide Souza dos Santos – A formação do modernismo brasileiro, segundo Alfredo Bosi, pode ser compreendida em duas fases: a primeira, partidária da renovação proposta pelo escritor Marinetti no manifesto do futurismo de 1909, fundada a partir da necessidade de uma renovação estética, de experimentação formal e celebração da tecnologia, e a segunda, marcada pela tentativa de elaboração de uma arte voltada para a construção de uma identidade nacional brasileira a partir de uma busca das raízes nacionais por meio de uma abordagem artística “primitivista”, com ênfase na cultura popular. Desde a década de 1920, a busca pelas raízes culturais do país e os ideários de nacionalidade começam a fazer parte das preocupações de intelectuais, e foi por meio das artes que os artistas modernistas pretendiam compreender a realidade brasileira e se colocavam como porta-vozes de uma nova consciência sobre o que seria a nação brasileira.
IHU – Em que pese seja importante, tanto como reconhecimento da pluralidade dos povos quanto de reparação histórica, incluir no acervo conceitual das artes manifestações artísticas performáticas e plásticas de populações historicamente marginalizadas, quais são os limites da arte? Como pensar essas manifestações sem cair numa vulgarização em que tudo é (e não é) arte?
Jancileide Souza dos Santos – A definição de um objeto como artístico ou não artístico, como artesanato, arte popular ou arte, é uma discussão que somente pode ser compreendida quando analisamos o contexto histórico, político e social em que essas acepções foram concebidas, assim como as bases teóricas e filosóficas que sustentam os argumentos que distinguem a arte da não arte. Análises que procuram entender a arte sob o ponto de vista cultural, social, racial, psicológico, histórico e de gênero são uma tentativa de romper com os paradigmas ocidentais que atribuem à arte um valor universal. Questionar o que é a arte pode se tornar uma armadilha ao buscarmos uma única definição para uma expressão que é multifacetada e polissêmica e que assume diversos significados de acordo com o contexto social e político de cada região e os meios de expressão que são utilizados por artistas em um momento histórico determinado.
Toda criação poderia ser considerada arte a depender do contexto em que ela está inserida. A performance, o happening, a cerâmica ou a tapeçaria são manifestações artísticas, mas a valorização dessas expressões como arte vai depender sobremaneira do contexto histórico e cultural em que elas foram produzidas e que lhe atribuíram um significado ou um valor. Não podemos esquecer que a arte, assim como a cultura, são instrumentos de controle e poder, de maneira que a hegemonia cultural de determinadas classes sociais e raciais e as questões políticas em torno do que é considerado ou não artístico afetam o modo como percebemos e valorizamos a arte de distintas populações.
No lugar de pensarmos no conceito de arte, poderíamos elaborar questões que nos permitam compreender como a categorização das artes está relacionada com as opressões e subordinações sociais e raciais, por exemplo. O que não é considerado arte pela academia? Por qual razão determinadas produções não são consideradas arte? Quais são as artes consagradas? Quem são os sujeitos que produzem as artes que são exibidas em museus e galerias? Quais as condições sociais de artistas ou artesãs que estão à margem dos sistemas de arte e cultura? Essas questões são importantes para entendermos como se sedimenta a hierarquia entre as artes, como se produzem o genocídio e o etnocídio de culturas e a inferiorização das expressões artísticas de comunidades negras e indígenas.
IHU – O que você classifica como “apropriação estética popular” em seu livro Colecionismo de arte? Como esse processo se caracteriza?
Jancileide Souza dos Santos – Artistas plásticos, na primeira metade do século XX, passaram a colecionar objetos de culturas não ocidentais, como ocorreu com alguns artistas europeus, entre eles Pablo Picasso e Georges Braque, que adquiriram objetos da África e da Oceania. Essa experiência de colecionismo, além de representar um interesse estético pela arte africana e dos povos originários, se transformou em uma crítica aos valores da sociedade moderna ocidental. Boa parte desses artistas almejavam realizar uma criação estético-cultural a partir de elementos não europeus. E a partir da arte denominada popular ou de artesanato, ou seja, a arte produzida pelas populações negra e indígena, esses artistas buscavam romper com os cânones clássicos de representação artística ainda vigentes na arte europeia.
A arte popular, também chamada de arte primitiva, tornou-se uma fonte de inspiração para esses artistas elaborarem novas formas de expressão e renovação estética. Nesse período, os estudos do folclore e da etnografia também irão exercer forte influência nesses artistas. No entanto, o interesse pela arte negra e indígena não foi acompanhado pelo reconhecimento de seus produtores e produtoras, que permaneceram e ainda permanecem à margem dos sistemas de arte e cultura, tão pouco suas produções foram reconhecidas como obras de arte.
IHU – Os povos nativos e os povos diaspóricos de África que foram escravizados no Brasil têm suas cosmologias associadas à oralidade. Como podemos pensar a tradição artística desses povos e preservá-la no contexto atual?
Jancileide Souza dos Santos – A oralidade permitiu a preservação e a transmissão de conhecimentos da população africana e afrodiaspórica diante das tentativas de extermínio das culturas desses povos. A tradição oral ocorre a partir de gestos, da música, das danças, das cantigas, da contação de histórias e da corporalidade. A capoeira, as religiões de matriz africana, a musicalidade africana, assim como outras expressões artístico-culturais, são exemplos da resistência das culturas de origem africana no Brasil a partir da oralidade, um legado transmitido de geração em geração e que revela a força da criatividade e da ancestralidade da cultura afro-brasileira. A oralidade possibilitou que africanos escravizados no Brasil mantivessem, adaptassem e recriassem suas crenças, sua arte, suas músicas, sua culinária, suas tecnologias, suas celebrações e religiões, seus modos de ser e existir. Essas culturas têm sido preservadas a partir da luta e da resistência dos movimentos negros, que buscam por reparação e conscientização da sociedade acerca da importância da cultura africana para a formação e constituição da cultura brasileira.
IHU – Uma das expressões mais comuns da arte popular é a chamada “arte sacra”. O que caracteriza a arte popular-sacra no Brasil?
Jancileide Souza dos Santos – A arte sacra de fatura popular são os objetos produzidos por artistas e artesãos populares, os denominados santeiros, que realizavam tanto as imagens de culto católico quanto as de culto das religiões de matriz africana. Ao lado da arte sacra dita erudita, existiam artistas que produziam esculturas sem nunca ter obtido uma formação acadêmica, mas que, de forma livre e espontânea, criavam imagens segundo as referências das obras localizadas nas igrejas e capelas. Nessas obras, observamos a ausência de um conhecimento técnico dos cânones clássicos de representação da anatomia humana, mas ainda que não seguissem as regras clássicas de composição, as obras desses artistas possuem um valor plástico indiscutível, tanto por sua criatividade quanto pelo caráter único de suas peças.
IHU – Qual o papel do Folclore na arte brasileira? Como compreender suas potencialidades e contradições?
Jancileide Souza dos Santos – O folclore é um campo de estudos que produz conceitos, análises e metodologias a partir de pesquisas etnográficas. No Brasil, na segunda metade do século XIX e início do século XX, as pesquisas folclóricas obedeciam aos parâmetros do pensamento tradicional europeu e norte-americano, que classificavam a arte e as manifestações culturais das populações africanas e indígenas como primitivas ou como uma “arte menor” em relação à produção plástica europeia.
O historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior diz que o folclore no discurso tradicionalista representaria a integração do povo em uma mesma região, assumindo uma função pedagógica e disciplinadora para formar uma sensibilidade. Esse autor destaca a obra de Câmara Cascudo como um exemplo da idealização do elemento popular. De acordo com Durval Muniz, os seus trabalhos conferem uma visão museológica e estática dos elementos do folclore, isto é, se constituem como verdadeiras coletâneas de materiais associados ao ambiente rural e patriarcal do Nordeste, e que passam a ser designadas como elementos autênticos do regional.
A constituição de uma identidade nacional no período da formação dos Estados Nacionais e dos estudos do folclore significou uma vinculação de uma determinada população com o seu passado histórico. Artistas modernos apropriaram-se da “arte popular” em virtude da influência desses estudos, assim como da antropologia, que tentaram formar uma “consciência” ou sensibilidade em relação às manifestações da cultura do/a “outro/a”. Penso como o artista, ativista e intelectual Abdias do Nascimento, que considera que a primitivização e a folclorização das culturas são uma forma de etnocídio cultural.
IHU – Qual a pertinência da arte hoje?
Jancileide Souza dos Santos – As artes têm um papel político importante em nossa sociedade, principalmente em tempos de injustiças e crises sociais, pois elas se convertem em um caminho que pode provocar mudanças sociais, assim como um meio de ação política, de resistência e reexistências das populações historicamente marginalizadas.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Jancileide Souza dos Santos – A arte denominada de popular muitas vezes é classificada como uma arte regional. No entanto, toda arte poderia ser considerada regional, não apenas aquelas produzidas fora dos grandes centros urbanos, se pensarmos no contexto em que elas foram criadas. Tanto a arte produzida no Sul e Sudeste do Brasil como a arte produzida no Norte, Nordeste e Centro-Oeste estão situadas em uma determinada região. Entretanto, a arte produzida pelas populações negras, indígenas e afro-indígenas do Norte e Nordeste são sempre categorizadas como regionais em comparação à produção de outras localidades.