Chuvas elevam rios no RS, e municípios do Taquari e do Caí registram inundações

Foto: Prefeitura de Lajeado

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23 Julho 2026

Mais de mil pessoas já tiveram de deixar suas casas devido à elevação dos rios.

A reportagem é de Valentina Bressan, João Neto e Pedro Pereira, publicada por Matinal, 23-07-2026.

O acúmulo de grandes volumes de chuva nos últimos dias elevou o nível dos rios no Rio Grande do Sul. Os municípios banhados pelas bacias hidrográficas do Caí e do Taquari foram os mais afetados: em Arroio do Meio, o Taquari chegou a 19 metros na tarde de quarta-feira (22), recuando para 18,4 metros às 19h.

A previsão inicial da Defesa Civil do RS era de que as chuvas não causassem inundações. Na madrugada de quarta (22), o órgão emitiu o alerta de risco muito alto de inundação para a região entre Montenegro e Harmonia, no Vale do Caí. Ao longo do dia, nove municípios da bacia do Taquari receberam alertas vermelhos para inundação que seguem válidos na manhã desta quinta (23): Arroio do Meio, Lajeado, Santa Tereza, Cruzeiro do Sul, Muçum, Bom Retiro do Sul, Estrela, Encantado e Roca Sales.

Às 20h de ontem, 1.099 pessoas estavam fora de casa, segundo a Defesa Civil: 728 pessoas em abrigos organizados pelas prefeituras de 13 cidades e 371 desalojados, quem recorre à casa de amigos ou parentes. O Vale do Taquari concentra 87,2% das pessoas abrigadas: Lajeado e Cruzeiro do Sul são os municípios com maior contingente nos abrigos.

Ao todo, 169 municípios haviam reportado danos ao órgão de acordo com o último boletim divulgado.

Os níveis registrados na quarta ultrapassam as cotas de inundação em vários pont//os da bacia do Taquari, segundo o Sistema de Alerta de Eventos Críticos do Serviço Geológico Brasileiro (SGB):

  • Em Estrela, o rio Taquari estava com nível de 24,3 metros às 19h15
  • Em Santa Tereza, o rio Taquari estava com 15,8 metros às 18h45
  • Em Muçum, o Taquari estava em 18,3 metros às 19h15
  • Em Encantado, o Taquari chegou a 16,5 metros às 19h15
  • Em Bom Retiro do Sul, a cota estava em 18,1 metros às 19h30
  • Em Porto Mariante, o nível era de 14 metros às 19h30.

A prefeita de Lajeado, Gláucia Schumacher, criticou a demora nos alertas para a região do Taquari. O alerta foi recebido por volta da 1h e o plano de contingência do município foi acionado às 2h40 de quarta, quando o rio atingiu a cota de alerta, duas horas antes de chegar à cota de inundação de 19 metros. "Nós tínhamos a informação de que o rio não chegaria na cota de inundação. Precisamos ter a informação correta ao menos seis horas antes, para que a gente consiga acionar todo o mecanismo logístico e de acolhida com antecedência", afirmou ao Correio do Povo. O alerta vermelho, acionado pelo sistema de Cell Broadcast da Defesa Civil Estadual, foi feito nas primeiras horas do dia, quando já havia pontos inundados na cidade.

A tendência, segundo a Defesa Civil, é de elevação do Taquari nos próximos dias.

A bacia do Caí também registrou ultrapassagem da cota de inundação nos seguintes pontos:

  • Em Barca do Caí, o Caí chegou a 11,1 metros às 19h15
  • Em Passo Montenegro, o nível do Caí era de 6,5 metros às 19h15.

No Norte do Estado, houve registro de inundação em Itapiranga e Iraí.

Em Porto Alegre, Guaíba deve atingir cota de alerta

Na capital, a régua no Cais Mauá marcava 1,52 m às 16h de quarta, dentro da normalidade. A prefeitura, a partir de simulações elaboradas pelo SGB, pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS e pela Catavento Meteorologia, estima que o Guaíba atinja a cota de alerta de 2,5 metros entre sexta (24) e sábado (25), com a chegada dos volumes das bacias superiores. O Dmae garante que todas as casas de bombas estão aptas para operar.

A região das Ilhas é a mais crítica na capital: enquanto no Cais Mauá e no Gasômetro a cota de inundação é de 3 metros, na Ilha da Pintada a marca para inundação é 2,2 metros. A última medição na régua da Ilha da Pintada ocorreu às 5h de terça-feira (21), segundo o portal do SGB. À Matinal, o SGB explicou que a medição das réguas na Ilha da Pintada e no bairro de Ipanema não são automatizadas e dependem de uma parceria com a Defesa Civil da capital, que envia os dados.

Perguntamos à Defesa Civil municipal o motivo para a falta de atualização e o nível atual do Guaíba na Ilha da Pintada. O órgão afirmou que, às 18h de quarta (22), a régua na Ilha marcava 1,4 metros, mas não soube responder se os dados já foram enviados à SGB.

Diante do cenário, o hidrólogo Fernando Dornelles, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), da UFRGS, afirma que a preparação para o enfrentamento da cheia nas ilhas de Porto Alegre já deveria ter começado. Quanto às regiões da capital protegidas pelo Sistema de Proteção Contra Cheias (SPC), destaca que a cidade "ficará na iminência do fechamento das comportas".

Colega de Dornelles no IPH, Fernando Fan reconhece a dificuldade dos modelos meteorológicos em prever com exatidão os volumes de chuva que cairiam no Vale do Taquari e que, agora, vão contribuir para a elevação do Guaíba no final da semana. Mesmo que o nível permaneça em cota de alerta, é preciso manter a atenção nas próximas semanas, segundo Fan:

"Fica a importância de monitorar e já começar a fazer [novas] previsões, tendo em vista a possibilidade de chuvas em cima de solos já encharcados. Ainda é cedo para previsões muito acuradas, mas precisamos seguir cuidando, dadas as condições tanto do solo quanto do El Niño."

Na Ilha do Pavão, as poucas pessoas que ainda habitam o território arrasado pela enchente de 2024 acompanham as recentes chuvaradas com apreensão. À Matinal, a presidente da associação de moradores do local, Sandra Ferreira, explica que a população e lideranças têm se orientado de forma autônoma, checando previsões, mas também por meio dos Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (Nudecs) e boletins diários enviados pela prefeitura. "Esperamos que a chuva pare, porque realmente não merecemos outra calamidade. Não estamos preparados para uma nova enchente, ninguém está", relata.

Moradores culpam mineradora por inundações no Baixo Jacuí

A manhã de quarta-feira também foi de elevação na região do Baixo Jacuí. Em Arroio dos Ratos, na região carbonífera, o motorista de caminhão Mateus Barros relatou à Matinal que atravessou áreas alagadas a pé para chegar e sair de sua casa, onde mora com a esposa e três filhos. "Às seis da manhã, a água chegou na frente da minha casa", contou. "Fiquei com água na cintura pra entrar. Parei o carro e troquei de roupa para chegar até a minha família".

Barros integra a "Comissão de Moradores Atingidos pela Enchente" da cidade, grupo que associa as inundações pelo terceiro ano seguido na região aos efeitos da mina de carvão da empresa Copelmi Mineração. Ele estima que até o momento, a água teria atingido cerca de 50 a 60 famílias em áreas próximas ao empreendimento.

Em evento promovido pelo Instituto Arayara na Semana de Ação Climática de Porto Alegre, Barros relatou que a empresa teria canalizado o arroio, impedindo o funcionamento das margens como várzeas que absorviam as cheias e empurrando a água em direção à cidade. "Se nós tivéssemos essa abertura ao lado do nosso arroio, se nós não tivéssemos essa barreira produzida pela mineradora gigantesca, a água passaria, como sempre fez", denunciou.

Na noite de quarta-feira, o Instituto Arayara solicitou intervenção dos órgãos estaduais na área do empreendimento. "Mandamos um ofício para o Ministério Público, para o prefeito e para a Fepam pedindo uma vistoria do empreendimento", explicou John Wurdig, gerente de transição energética da entidade.

Em caso de emergência: contate a Brigada Militar (190) ou o Corpo de Bombeiros (193).

A Defesa Civil divulgou a lista de abrigos ativos para receber famílias afetadas pelas inundações e chuvas:

  • Bom Retiro do Sul – Rua Sen. Pinheiro Machado, 640
  • Cruzeiro do Sul – Ginásio do Centro, Rua General Neto, 90
  • Roca Sales – Ginásio D. Pedro I, Rua José Brock, 690
  • São Sebastião do Caí – Rua Olavo Flores, 180
  • Santa Cruz do Sul – Rua Galvão Costa, 755
  • Encantado – Estrada dos Imigrantes, Lambari
  • Estrela – Rua Júlio de Castilhos, 1320
  • Muçum – Rua Nulvio Moriggi, Jardim Cidade Alta
  • Lajeado – Avenida Parque do Imigrante, Alto do Parque
  • Arroio do Meio – endereço a ser divulgado
  • Passo Fundo – endereço a ser divulgado

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