Lula x Flávio Bolsonaro – dois projetos de nação. Artigo de Michel Aires de Souza Dias

Lula (Foto: Marcelo Camargo | Agencia Brasil) e Flávio Bolsonaro (Foto: Lula Marques | Agência Brasil)

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07 Abril 2026

Na eleição de 2026 não se trata apenas de escolher entre dois candidatos, mas entre um modelo que transforma trabalho em mercadoria e privatiza o SUS, e outro que investe em salário mínimo, Bolsa Família e universidade pública — ou seja, entre a submissão externa e o protagonismo histórico

O artigo é de Michel Aires de Souza Dias, doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), publicado por A Terra é Redonda, 04-04-2026.

Eis o artigo.

Nessas eleições devemos escolher entre dois projetos de nação: o modelo neoliberal da extrema direita ou o modelo nacional desenvolvimentista de esquerda. O futuro de nosso país dependerá de uma escolha bastante consciente entre esses dois modelos. Seremos obrigados a escolher entre o modelo de um país agrário exportador de commodities e de terras raras, com trabalhadores precarizados, subservientes aos Estados Unidos; ou um país focado em desenvolvimento autônomo, industrializado, articulado geopoliticamente através de blocos econômicos como o Brics e o Mercosul.

Se o modelo neoliberal se fundamenta na superexploração do trabalho e na transferência de riqueza para o Norte-Global; o modelo desenvolvimentista apoia a parceria com o Sul-Global (Rússia, Índia, Irã, China, África do Sul) desafiando a hegemonia das potências tradicionais dos EUA e Europa, promovendo um mundo multipolar.

Se o modelo neoliberal da extrema direita for escolhido nas eleições de 2026, nós podemos inferir o que pode acontecer. O alinhamento com os Estados Unidos deve radicalizar a ideia de Estado mínimo, permitindo que o mercado se estenda a todas as esferas da sociedade, substituindo a governança pública pela iniciativa privada. Nesse modelo, a economia vê o mercado a partir de “leis naturais”, que se autorregularia sem a “intervenção” política.

Em razão disso, o Estado tende a assumir sua face mais autoritária com as políticas neoliberais, uma vez que pode reduzir os direitos sociais e trabalhistas, assim como as políticas redistributivas, além de reprimir os movimentos populares. Tal como na Argentina, poderá haver uma maior flexibilização do trabalho, aumentando a carga horária do trabalhador, a implementação do banco de horas e o fim das férias. Além de se acabar com a política de valorização do salário-mínimo, pois isto já foi dito pela cúpula bolsonarista.

Para os neoliberais, a mão de obra sempre foi uma commodity, uma mercadoria barata. As elites para controlar a classe trabalhadora historicamente sempre mantiveram um exército de reserva de desempregados. Ao gerar uma alta taxa de desemprego, a burguesia deve manter os salários baixos, aumentando a acumulação de capital e inibindo as reivindicações trabalhistas.

No âmbito da política externa, o Brasil deve continuar sendo o celeiro do mundo e exportador de commodities, dependente de produtos industrializados de outros países. Há fortes indícios de que seremos subjugados pelos interesses norte-americanos, fornecendo minerais críticos e terras raras para as suas indústrias, que precisam urgentemente de matérias primas essenciais para a transição energética e alta tecnologia como baterias, defesa militar e tecnologia aeroespacial.

O grande problema que teremos que enfrentar é a manipulação do ambiente social e político para aumentar a riqueza dos grupos poderosos. Esse fenômeno é chamado pelos cientistas políticos de rent-seeking (obtenção de renda). Em governos neoliberais, a prática de obter vantagens econômicas por grupos de interesses ou conglomerados econômicos, por meio de lobbies, subsídios, sonegação de impostos, licenças exclusivas e licitações fraudadas, é uma constante. No Brasil a captura do Estado pelas elites tornou-se parte da cultura das instituições.

Com os neoliberais no poder, a desregulamentação das atividades econômicas e a privatização das instituições governamentais relativos à saúde, educação, aos transportes, à energia e à previdência devem ser prioridades da política econômica. O objetivo é tornar o Brasil dependente do capital externo, em particular do Norte-Global e de suas empresas. Há indícios de que se pretendem acabar com o SUSSistema Único de Saúde e privatizar as universidades públicas, pois já tentaram no passado.

Mas esses objetivos serão alcançados aos poucos, primeiro pelo sucateamento das instituições, depois pelas parcerias com a iniciativa privada. No governo passado de Jair Bolsonaro houve duas tentativas respectivamente. O decreto 10.530/2020 colocou as Unidades Básicas de Saúde (UBS) no Programa de Parcerias de Investimento (PPI), como uma tentativa de privatizar, com a alegação de fazer estudos para concessão, construção e gestão dessas unidades pela iniciativa privada.

Contudo, o decreto foi revogado pela forte reação e polêmica que gerou na sociedade civil, acusando o governo de privatizar o SUS. Na educação, o Programa “Future-se” lançado em 2019, pelo MEC, foi outra tentativa de começar o processo de privatização das universidades públicas. O objetivo do programa era reestruturar as universidades públicas e institutos federais para uma maior autonomia financeira e incentivar a captação de recursos privados. Mas o projeto enfrentou forte resistência da sociedade civil, da comunidade acadêmica e dos sindicatos, sendo rejeitada após as discussões no congresso. É fato que a direita e a extrema-direita não devem desistir de acabar com o SUS e com as Universidades públicas.

Ao limitar o poder do Estado, os neoliberais desejam que o mercado se torne a única instituição na coordenação da economia. O resultado disso é que o Estado perde sua função de sistema de constituição legal, como instrumento de ação coletiva capaz de fazer justiça social, proteger o trabalhador, reduzir as desigualdades, melhorar os padrões de vida e defender o meio ambiente. No sistema neoliberal, os indivíduos surgem como marionetes das forças impessoais do mercado, tornando a vontade e as ações humanas impotentes diante do poder econômico.

Ao contrário da perspectiva neoliberal, se o modelo desenvolvimentista do Partido dos Trabalhadores (PT) for eleito, o Estado deve intervir de forma mais efetiva na economia, para induzir o crescimento, com foco no mercado interno, nas políticas sociais de distribuição de renda e no fortalecimento dos acordos multilaterais, visando a cooperação em áreas técnicas, econômicas e de defesa. O grande objetivo será o de reverter a democracia formal, que só existe no papel, em uma democracia substancial.

Desse modo, o governo deve fazer grandes investimentos públicos (PAC) em infraestrutura, habitação e saneamento para estimular a economia e o emprego. Com a possível queda da taxa de juros, a expansão do crédito deve possibilitar um aumento exponencial de investimentos privados, gerando mais empregos e aumentando a massa salarial.

O governo deve também continuar sua política de aumento real do salário-mínimo e das políticas públicas, focadas na transferência de renda. Por meio dessas estratégias, a política-econômica deve promover o consumo de massa, reduzindo as desigualdades e incentivando a industrialização. Além disso, o Brasil deve assumir seu papel de protagonista no mundo, pois tem influência política em vários blocos de cooperação como os BRICS, a ALADI (Associação Latino-Americana de Integração), a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) e o Mercosul (Mercado Comum do Sul), além de vários acordos bilaterais com outras nações.

O grande objetivo do governo petista deve ser a continuidade das políticas sociais redistributivas. No seu terceiro mandato, o governo Lula estruturou o Bolsa Família, condicionando seu recebimento de forma mais efetiva à educação e à saúde. Criou o auxílio gás, beneficiando milhares de famílias carentes. Deu continuidade a valorização do salário-mínimo, beneficiando diretamente os trabalhadores, aposentados e beneficiário do BPC (Benefício de Prestação Continuada).

Isentou os trabalhadores do Imposto de Renda que recebem até R$ 5.000 reais, com a redução da carga tributária para faixas superiores. Deu continuidade ao Programa Brasil Sem Fome, retirando pela segunda vez o país do mapa da fome da ONU (Organização das Nações Unidas). Criou o Pé de Meia para manter as crianças e adolescentes na escola, evitando a exploração do trabalho infantil. Deu continuidade ao Pronaf (Programa Nacional de fortalecimento da Agricultura Familiar) destinada a financiar os agricultores familiares.

O governo também contratou dois milhões de moradias que devem ser entregues até o final de 2026, além de ter quitado um milhão de moradias dos beneficiários do BPC e Bolsa família. Essas políticas devem ser continuadas se Lula for eleito, impactando diretamente no PIB (Produto Interno Bruto), fortalecendo a economia brasileira.

Diante desse diagnóstico, a escolha eleitoral deixa de ser apenas entre candidatos e se torna mais uma decisão histórica sobre o futuro do país e o tipo de nação que queremos.

Ou vamos escolher uma nação dependente, submissa aos interesses externos, exportadora de commodities e de mão de obra barata; ou seremos protagonistas de nossa própria história, um estado de bem-estar social, de classe média, como uma grande potência econômica capaz de superar economias como a do Reino Unido e a da França, como já ocorreu no passado de grande expansão econômica.

O nosso futuro dependerá da capacidade crítica dos eleitores em avaliar as implicações de longo prazo de cada projeto.

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