A ameaça mais preocupante: o ponto fraco do Golfo Pérsico está na água, e a CIA teme isso há 40 anos

Foto: Ali Hedayat/Unplash

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13 Março 2026

Os recentes ataques a usinas de dessalinização em vários países suscitaram receios de uma escalada que poderá deixar o Oriente Médio sem água potável: o Irã encontra-se numa situação crítica devido à seca, e na Arábia Saudita, em Omã e no Kuwait, mais de 70% do consumo provém destas usinas.

A reportagem é publicada por The Guardian, e reproduzida por El Diario, 12-03-2026.

Em 1983, a CIA concluiu que o recurso mais precioso do Golfo era a água potável dessalinizada. Embora a perda de uma única usina de dessalinização pudesse ser absorvida, um relatório da inteligência americana observou que "[se] ataques eficazes ocorressem contra várias usinas, isso poderia gerar uma crise nacional nos países mais dependentes, levando a tumultos e êxodo em massa".

E qual era a maior ameaça ao abastecimento de água da região? "O Irã."

Por isso, quatro décadas depois, o mundo prendeu a respiração ao ouvir as declarações feitas no sábado pelo ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi. Ele acusou os Estados Unidos de cometerem “um crime flagrante e desesperado” ao atacarem a usina de dessalinização na ilha iraniana de Qeshm (no Estreito de Ormuz). “Foram os Estados Unidos que criaram esse precedente, não o Irã”, acrescentou.

Embora os EUA tenham negado qualquer responsabilidade, no dia seguinte o Bahrein anunciou, do outro lado do Golfo, que uma de suas usinas de dessalinização havia sido atacada. O suposto culpado: “agressão iraniana”.

A partir daquele momento, quando as cidades e indústrias da região pareciam prestes a entrar em colapso em uma espiral de ataques mútuos contra a infraestrutura hídrica essencial, os ataques às usinas de dessalinização cessaram. O que aconteceu?

Mais óleo, menos água

A água potável sempre foi um recurso escasso no Golfo. A precipitação no Oriente Médio é baixa e muito variável, e quase nenhum dos países possui rios permanentes de grande porte capazes de suprir as necessidades hídricas.

Historicamente, a região se virava com seus limitados recursos hídricos subterrâneos. Mas, a partir da década de 1950, com o crescimento da indústria petrolífera, a demanda logo ultrapassou a oferta. Com os aquíferos esgotados, a dessalinização — o processo de transformação da água do mar em água potável — teve que ser utilizada para atender às necessidades hídricas dos países em rápido desenvolvimento da região.

Segundo os dados mais recentes, 70% da água potável da Arábia Saudita provém de usinas de dessalinização. Essa porcentagem sobe para 86% em Omã; 42% nos Emirados Árabes Unidos; e 90% no Kuwait. Até mesmo Israel, que tem acesso ao Rio Jordão, depende de cinco grandes usinas de dessalinização em sua costa para obter metade de sua água potável.

O Oriente Médio responde por aproximadamente 40% da produção mundial de dessalinização. A capacidade total de dessalinização da região é de 28,96 milhões de metros cúbicos de água por dia.

“As cidades modernas em vários países do Golfo Pérsico simplesmente não funcionariam sem dessalinização”, afirma Nima Shokri, diretor do Instituto de Geohidroinformática da Universidade Técnica de Hamburgo. Assim como em 1983, analistas apontam, em 2026, que o Irã poderia usar essa infraestrutura crucial como seu calcanhar de Aquiles contra seus vizinhos árabes.

“Atacar usinas de dessalinização poderia levar rapidamente à escassez de água em vários países do Golfo Pérsico”, alerta Shokri. “Muitas cidades dependem de um pequeno número de grandes usinas costeiras, portanto, um ataque eficaz poderia interromper o abastecimento de água potável em questão de dias”, explica.

“Essas usinas não podem ser facilmente substituídas ou reparadas, ao contrário das instalações petrolíferas; em casos extremos, os governos podem ser forçados a racionar água para cidades inteiras”, acrescenta.

Os danos às usinas de dessalinização também teriam consequências ambientais. Os ataques poderiam liberar substâncias químicas como hipoclorito de sódio, cloreto férrico e ácido sulfúrico, de acordo com o Observatório de Conflitos e Meio Ambiente.

Mas, desde o ataque com drones ao Bahrein no domingo, não houve mais ataques a usinas de dessalinização. Segundo Shokri, isso pode ser devido a uma “estratégia de contenção”. “As usinas de dessalinização são infraestruturas civis essenciais, e atacá-las tem sérias consequências humanitárias”, explica. “Uma escalada de ataques a sistemas de abastecimento de água poderia ampliar o conflito e atrair condenação internacional”, acrescenta.

Problemas hídricos do Irã

Embora não seja tão dependente da dessalinização, o Irã também enfrenta problemas hídricos. O país luta contra uma seca há anos, que, segundo especialistas, foi significativamente agravada pela catástrofe climática causada pela atividade humana.

“O Irã já enfrenta uma grave escassez de água devido à seca, à superexploração das águas subterrâneas e à diminuição da vazão dos rios”, afirma Shokri. Ataques retaliatórios contra sua própria infraestrutura hídrica poderiam agravar essas dificuldades. “Danos a reservatórios, estações de bombeamento ou estações de tratamento de água poderiam piorar a escassez existente.”

O relatório da CIA de 1983 incluía uma promessa de Teerã aos seus vizinhos árabes: não atacaria as suas centrais de dessalinização. Não se sabe ao certo se essa promessa ainda se mantém quatro décadas depois.

Após o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, ameaçar na terça-feira prosseguir com o “dia de ataques mais intenso” da guerra, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano, afirmou que a política do Irã nesta guerra é de “olho por olho”. “Se eles iniciarem uma guerra contra nossa infraestrutura, certamente atacaremos a deles”, advertiu.

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