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20 Outubro 2015

Na última sexta-feira (16 de outubro), um colega e eu levamos um velho amigo para almoçar em um dos meus restaurantes romanos favoritos. O amigo é Dom Borys Gudziak, que comanda a Igreja Católica greco-ucraniana em Paris, e que também atua como presidente da prestigiosa Universidade Católica Ucraniana, em Lviv.

Esta é a única universidade católica na antiga esfera soviética – conforme eles gostam de dizer: a única universidade católica “entre a Polônia e o Japão”.

A reportagem é de John L. Allen Jr., jornalista, publicada por Crux, 18-10-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Fundada sobre os pilares gêmeos dos mártires e marginalizados, eu certa vez a chamei de o “futuro da nova evangelização”.

Mais para o final do almoço (para constar, comemos rigatoni alla norcina regado com um bom vinho branco), Gudziak olhou para nós ali presente e disse algo do tipo: “Estou tendo uma ótima refeição, e quero agradecer a vocês por isso. Não nos esqueçamos, porém, que milhões de pessoas neste mundo vivem em extrema pobreza, pessoas que jamais poderiam sonhar em se dar ao luxo de algo assim”.

Honestamente, a minha reação foi: “O senhor é um grande cara, Borys, mas às vezes nos deixa numa ruim”.

Ele não havia acabado:

“Quase a metade do mundo vive com menos dinheiro do que custa um cappuccino neste lugar, menos de 2 euros por dia, e 80% do mundo vive com menos de 10 dólares numa base diária”, completou, com uma intensidade crescente em sua voz. “Há 150 milhões de desabrigados, 100 milhões de órfãos, 60 milhões de refugiados”.

“Estas coisas”, disse ele, “são impedimentos para uma boa vida em família”.

Gudziak estava trazendo à tona um assunto presente no Sínodo dos Bispos sobre a família deste ano, encontro bastante esperado que fora convocado pelo Papa Francisco, evento que meu colega e eu estamos cobrindo neste exato momento e em que Gudziak está participando.

O Sínodo está entrando em sua última semana, e tem sido marcado por polêmicas – tanto do que diz respeito ao processo como no tocante ao conteúdo.

Alguns críticos, em sua maioria conservadores religiosos, têm acusado de que os trabalhos estão organizados no sentido de favorecer posturas progressistas, com uma coalizão chegando ao ponto de pedir que os bispos “fiéis” se retirassem do encontro.

Embora os bispos participantes digam que a maioria das preocupações concernentes ao processo levantadas no início do evento foi resolvida, permanecem ainda algumas dúvidas em alguns setores.

Em termos de conteúdo, há uma divisão quanto à proposta de se relaxar a proibição tradicional da Igreja para com os católicos divorciados e recasados no civil de receberem a Comunhão. Há também um conflito sobre se o catolicismo necessita de uma linguagem mais positiva e inclusiva no tocante à homossexualidade, ou se se afastar das fórmulas tradicionais significa correr o risco de acabar confundindo certos ensinamentos da Igreja.

Da mesma forma, há posições conflitantes quanto a se estas questões precisam ser resolvidas em Roma, ou se elas poderiam ser descentralizadas – colocando-as nas mãos das conferências episcopais nacionais ou regionais.

Nesse contexto, Gudziak fez uma observação simples: sem dúvida, estas são questões importantes, mas vamos nos centrar no que é mais importante ainda.

Se queremos falar sobre os problemas que as famílias estão enfrentando hoje, dizia ele, há um quadro muito maior a nos ater – e consumirmos nossas energias com questões eclesiásticas internas não é uma prescrição para enxergarmos este quadro com clareza.

Estas questões mais amplas são inúmeras, mas aqui trago alguns exemplos que podem bem ilustrá-los.

Migrantes e refugiados: O Sínodo está ocorrendo na Europa enquanto o continente se debate com a sua crise de refugiados mais maciça desde a Segunda Guerra Mundial. O Papa Francisco pediu a todos as instalações católicas na Europa para que abram as suas portas a, pelo menos, uma família de refugiados, o que ele próprio fez no Vaticano.

No entanto, tem havido pouco diálogo no Sínodo sobre se isso está, realmente, acontecendo em toda a Europa, e se tal ideia deva ser replicada em outras regiões do mundo. Um bispo africano ressaltou que países tais como Etiópia, Quênia, Tanzania, Uganda, Malaui e Zâmbia são, agora, o lar de “números maciços” de imigrantes e refugiados, mas não está claro se o Sínodo está construindo uma nova estratégia católica para responder à questão.

Guerra: Francisco tem dito, por repetidas vezes, que estamos em meio a uma nova guerra mundial no início deste século XXI, guerra sendo travada em partes. Pastores que se encontram na linha de frente desta guerra tentaram chamar a atenção do Sínodo, até agora alcançando resultados não muito claros.

O Patriarca Ignace Youssif III Younan, do Líbano, por exemplo, falou apaixonadamente sobre a situação difícil na Síria e no Iraque, dizendo que os cristãos, em particular, “querem sair deste inferno, pois eles estão sendo perseguidos, levados como reféns, pelo estado terrorista do ISIS”.

Gudziak salientou que mais de 5 milhões de pessoas estão, hoje, sendo afetadas com os conflitos na Ucrânia oriental. A seu ver, a Rússia está tentando evitar que um levante popular contra o autoritarismo na Europa oriental venha a se difundir pela região.

Não está claro, entretanto, se o Sínodo já identificou novas formas de mobilização do considerável capital humano e político da Igreja no sentido de dar sustentação às famílias nestas regiões conflituosas.

Na medida em que o Sínodo chega na sua última semana, ele chega também aos seus momentos decisivos. No sábado, os bispos irmão votar num conjunto de recomendações dirigidas ao Papa Francisco, o que significa que eles vão precisar entrar em acordo em questões polêmicas. Por fim, ficará a cargo do pontífice decidir o que fazer sobre o conteúdo que os prelados vierem a propor.

No entanto, os bispos poderão também querer usar esta semana como uma última oportunidade para dar um passo atrás e se perguntar o que eles deixaram de lado. Caso contrário, poderão se ver acusados de ter passado as três semanas sinodais em branco, enquanto outros lugares que não Roma ardem.

***

O Sínodo dos Bispos se esforça para recuperar o seu “acordo de cavalheiros”

Aqui apresento alguns elementos internos da problemática eclesiástica interna.

Na semana passada, uma polêmica apareceu na imprensa em torno de uma carta escrita ao Papa Francisco assinada por vários cardeais do alto escalão, tais como George Pell (da Austrália) e Timothy Dolan (dos EUA), levantando algumas preocupações relativas ao Sínodo. A polêmica surgiu logo no início da Assembleia, e tanto Pell como Dolan dizem, hoje, acreditar que estas preocupações foram, mais ou menos, resolvidas.

Paralelamente à carta havia uma percepção que perdura desde o Sínodo de 2014, ou seja, de que houve, por parte de algumas autoridades sinodais, um esforço em controlar o fluxo informacional, criando uma falsa impressão de consenso a favor de posturas progressistas e minimizando o dissenso conservador.

Nesta semana um dos signatários da tal carta, o cardeal alemão Gerhard Müller (czar doutrinal do Vaticano), contou a um jornalista que o vazamento da carta tinha a intenção de “difundir argumentos e criar tensões”.

Enquanto surgiam as notícias da carta ao papa, o meu colega Michael O’Loughlin e eu nos sentamos com o Cardeal Donald Wuerl, de Washington, DC. Wuerl já participou de várias assembleias sinodais e atualmente faz parte do comitê de elaboração do documento final da edição deste ano.

Pedi a Wuerl que comparasse este Sínodo a outros em que havia participado, e ele não economizou nas palavras para expressar o que percebe com tanta clareza:

“A maior diferença é que, infelizmente, nós todos viemos a este Sínodo com uma hermenêutica da suspeita já presente no ar”, hermenêutica criada por “uma série de coisas publicadas de antemão afirmando que, de alguma forma, este não seria um Sínodo aberto e justo”.

(“Hermenêutica” é um termo conhecido no ambiente eclesial que significa uma forma de interpretar as coisas.)

Wuerl disse que, a seu ver, as mudanças no processo introduzidas pelo Papa Francisco tornaram o Sínodo destacadamente “aberto”, mas reconheceu que ninguém o vê dessa maneira.

“Tudo parece escuro para quem usa óculos de sol”, afirmou. “Se você começa com a ideia de uma conspiração”, continuou, então acaba vendo provas disso em todo o lugar.

Aqui ele não estava falando somente sobre os analistas e ativistas do lado de fora do Sínodo. Wuerl incluiu também alguns dos bispos participantes.

“Há pessoas dentro do Sínodo que falam sobre isso”, declarou ele. “A imprensa não criou estas histórias”.

Wuerl afirmou que os Sínodos passados possuíram os seus pontos de conflito e divisões também, mas havia uma espécie de acordo de cavalheiros entre os prelados para “não começar a apontar o dedo uns aos outros”, e para dar o melhor no sentido de se manterem unidos.

Hoje, deu a entender o nosso entrevistado, este acordo de cavalheiros pode estar valendo ainda, mas com certeza ficou desgastado.

“Acho que esta vai ser uma das feridas deste Sínodo”, disse.

Ainda na semana passada, tive a oportunidade de pedir a Pell (chefe da Secretaria para a Economia) a sua opinião sobre em que pé se encontra o tal acordo de cavalheiros entre os bispos.

“Deixe-me responder do seguinte modo: todos os bispos são cavalheiros, mas isso é algo diferente nas diferentes cultural”, respondeu sob risos.

Pell sustentou que, se havia uma “hermenêutica da suspeita” neste Sínodo, ela não saiu do nada, mas se baseou nas percepções deixadas na edição do ano anterior.

“Penso que no último Sínodo ocorreram alguns desenvolvimentos um tanto surpreendentes”, disse Pell. “Me parece que o relato de Pentin sobre o Sínodo passado, as suas sugestões e acusações, não foram respondidas plenamente”.

(Edward Pentin é um jornalista baseado em Roma que recentemente escreveu um livro intitulado “The Rigging of a Vatican Synod?”, trazendo presente as acusações de que o Sínodo 2014 fora manipulado a fim de que fossem promovidos resultados progressistas.)

“Acho que é sob a luz destas acusações que as pessoas se aproximam deste Sínodo”, acrescentou.

O que tudo isso ilustra é a importância fundamental do documento final que o Sínodo dos Bispos sobre a família vai produzir, o qual deverá ser apresentado aos 270 bispos participantes neste sábado. A partir daqui o texto, segundo o cardeal, irá ser votado “parágrafo por parágrafo” segundo os seus conteúdos.

Se a impressão é que o documento apresenta, honesta e justamente, os resultados dos debates sinodais – apontando para o consenso onde ele existir, mas também reconhecendo setores onde ele simplesmente não houve –, então talvez a “hermenêutica da suspeita” começará a declinar.

Caso contrário, a morte do acordo de cavalheiros entre os bispos pode se tornar uma característica permanente da era do Papa Francisco no catolicismo, e não somente durante encontros ocasionais em Roma. Isso não joga a favor de ninguém, provavelmente – a começar, é claro, pelo próprio Papa Francisco.

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