Ciclo de Estudos sobre a teologia da encarnação profunda, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, inicia nesta terça-feira, 08-09-2026, às 10h
“Promover a restauração da unidade entre todos os cristãos é um dos principais propósitos do sagrado Concílio Ecumênico Vaticano II”. Esta é a primeira afirmação do Decreto Unitatis Redintegratio [Restauração da Unidade], sobre o ecumenismo, promulgada pelo Papa Paulo VI em 1964. De lá para cá, cristãos de várias confissões engajaram-se nessa empreitada. Se, de um lado, a unidade ainda não foi alcançada, de outro, teólogos de diferentes confissões debruçaram-se sobre temas contemporâneos com a finalidade de lhes dar um tratamento teológico. Um deles é a questão ecológica em evidência no debate público nas últimas décadas. O tema foi abordado no magistério de João Paulo II, na Exortação Apostólica Pós-sinodal Pastores Gregis, em 2003, e ganhou mais destaque no pontificado de Francisco, com a publicação da Carta Encíclica Lautato si’, em 2015.
É em torno dessa seara que nasceu, por exemplo, a discussão teológica sobre a encarnação profunda (deep incarnation). Embora essa perspectiva ainda seja pouco conhecida, ela está sendo debatida no exterior entre teólogos luteranos, anglicanos e católicos. Para tornar a temática conhecida ao público brasileiro, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove, neste semestre, o Ciclo de Estudos A teologia da encarnação profunda (deep incarnation). O objetivo geral do evento é “promover o debate transdisciplinar sobre a teologia da encarnação profunda (deep incarnation) como corrente teológica contemporânea, examinando suas fontes, analisando seu desenvolvimento no pensamento de teólogos e teólogas expoentes no tema e apontando suas contribuições para uma ecoteologia que estende o significado salvífico da encarnação de Jesus a toda a matéria da criação”.

O termo foi cunhado pelo teólogo Niels Gregersen, de tradição evangélico-luterana dinamarquesa, em 2001, na Conferência Teológica organizada pelo Pacific Lutheran Theological Seminary, em Berkeley, na Califórnia, intitulada “The Cross of Christi in an Evolutionary World” [A Cruz de Cristo em um mundo evolutivo]. Gregersen leciona na Universidade de Copenhague, na Dinamarca, e dedica-se ao estudo da relação entre ciência e religião. As pesquisas do teólogo versam sobre o significado teológico da teoria da evolução numa perspectiva biológica e cultural, associadas a teorias da complexidade e questões filosóficas e teológicas. Posteriormente, ele publicou Incarnation: On the Depth and Scope of Christology [Encarnação: sobre a profundidade e o escopo da cristologia] (Minneapolis: Fortress Press, 2015).
Também participam do debate teólogos anglicanos, como Richard Bauckham, especialista em Cristologia e Novo Testamento, e Christopher Southgate, formado em bioquímica e doutor na mesma área pela Universidade de Cambridge, e atual capelão leigo na Universidade de Exeter, onde leciona sobre a relação entre ciência e religião. Do lado católico, destacam-se as teólogas Elizabeth Johnson, professora emérita de Teologia na Universidade Fordham, instituição jesuíta localizada em Nova York, e religiosa das Irmãs de São José de Brentwood, e Celia Deane Drummond, diretora do Instituto de Pesquisa Laudato Si', na Universidade de Oxford.
Ainda do lado católico, um expoente nesta querela foi o teólogo australiano Denis Edwards, padre da Arquidiocese de Adelaide, falecido em 2019. Em Deep Incarnation (Nova York: Orbis Books, 2019), ele explica “como a crença cristã na misericórdia divina pode se reconciliar com a crueldade do processo evolutivo”, segundo Marian Ronan. A professora e pesquisadora de estudos católicos no Seminário Teológico de Nova York comentou a obra em artigo publicado no site do IHU em 2020.
Entre as questões que os teólogos visam responder com a tese da encarnação profunda, Marian Ronan destaca duas:
1. “Qual a relação entre o mundo natural – galáxias, montanhas, mares, animais, bactérias – e a vida, morte e ressurreição de Jesus?” e
2. “Qual a relação intrínseca do sofrimento, da perda, da predação e da morte com criação e a encarnação de Jesus Cristo?
Na elaboração teológica de Edwards, resume a teóloga, “encontramos uma visão da realidade fundada na comunhão de todas as coisas em Deus, uma visão profundamente encarnacional de todo o cosmos”.
Denis Edwards também formulou uma teologia ecológica teocêntrica. Em 2024, o site Settimana News publicou alguns trechos de um artigo do teólogo, publicado anteriormente na edição 4/2011 da revista Concilium. No texto, o teólogo explicou como compreende o debate e apresentou uma posição teológica. “A teologia ecológica, se quiser verdadeiramente ser uma teologia cristã, não será nem antropocêntrica nem biocêntrica, mas radicalmente teocêntrica: centrada no mistério de Deus revelado em Cristo e não implicando uma rejeição ou omissão da teologia da redenção, mas uma penetração mais profunda no mistério conjunto da encarnação e da redenção, de modo a manifestar o seu significado ecológico superabundante para o nosso tempo”, defende.
A teologia ecológica de Edwards é estruturada em três elementos e, segundo ele, “deriva da plenitude da tradição”:
1. “Primeiro, será uma teologia do Espírito e da Palavra, uma teologia totalmente pneumatológica e radicalmente fiel à encarnação”.
2. “Segundo, será uma teologia tanto da criação como da redenção em Cristo”.
3. “Terceiro ponto, esta redenção em Cristo implicará a transformação divinizante tanto dos seres humanos como das outras criaturas”.
Conclusão: “Concluirei então com uma breve reflexão sobre a experiência do Espírito criativo e da Sabedoria santa no encontro com o mundo natural”.
Para o teólogo, uma “relação mútua” entre Espírito e Sabedoria/Palavra é fundamental para o desenvolvimento de uma teologia ecológica contemporânea adequada. “Uma terceira estratégia fundamental para uma teologia ecológica cristã é articular uma teologia da redenção, ou da nova criação em Cristo, que seja capaz de proclamar o evento-Cristo num novo tempo e de mostrar o seu significado não apenas para os seres humanos, mas para toda a criação”, sugere.
Em 2010, Denis Edwards refletiu sobre a relação entre Eucaristia e Teologia, no Cadernos Teologia Pública N. 52, publicado pelo IHU. Entre as perguntas centrais que nortearam o ensaio teológico, destacam-se: “De que maneira temas ecológicos, como a mudança climática, por exemplo, afetam nossas celebrações da Eucaristia? De que modo o culto eucarístico está relacionado com ações ecológicas e com as formas de viver? O que quer dizer viver uma vocação ecológica ante o Deus de Jesus Cristo? Qual é a relação entre a prática ecológica e a espiritualidade cristã?”
A reflexão teológica de Edwards parte do pressuposto de que a geração atual defronta-se com a alteração climática global gerada pela ação humana e as ações futuras terão impacto sobre o futuro do planeta. Neste contexto histórico, o teólogo, assim como o fez o Papa Francisco, convoca a uma conversão ecológica. “A conversão ecológica à qual somos chamados implica uma nova maneira de ver, pensar e atuar. Independentemente do próprio sistema de valores de qualquer pessoa – seja esse sistema o judaísmo, o islã, o budismo, o cristianismo ou as tradições religiosas autóctones australianas, ou alguma forma de humanismo –, o estado do planeta representa um desafio a uma conversão profunda, tanto da mente como também do coração, da forma de viver e de governar”, afirma.
Na tradição cristã, explica o teólogo, encontra-se um caminho de sabedoria que pode iluminar as consciências e às ações, levando a uma conversão ecológica. “A iluminação brota de nossa esperança de que tudo será tomado e transfigurado no Cristo ressuscitado. É uma visão e uma avaliação de todas as coisas com respeito a Cristo e uma ação fiel a essa luz. Seguir Jesus-Sabedoria é ver cada pardal como submisso e amado por Deus. Quer dizer também ver cada pardal e cada árvore grande e alta como seres criados na Sabedoria de Deus que se fez carne em Jesus de Nazaré. Viver na sabedoria, no pleno sentido cristão, quer dizer considerar a criação inteira como procedente da abundância dinâmica da Trindade, como se se desenvolvesse dentro do dinamismo da vida da Árvore, destinada a encontrar sua plenitude nesta vida compartilhada”, esclarece.
Além de Niels Gregersen, mais recentemente, engajaram-se no debate teológico sobre a encarnação profunda o teólogo italiano leigo, Stefano Fenaroli, doutor em Teologia pela Faculdade Teológica da Itália Setentrional, e autor do livro La teologia della deep incarnation. Indagine, dialogo e prospettive (Queriniana, 2024), fruto da tese de doutorado do autor, e o jesuíta Paolo Gamberini, professor da Universtà La Sapienza, na Itália. Os três participarão do Ciclo de Estudos promovido pelo IHU.
A primeira videoconferência será ministrada por Niels Gregersen nesta terça-feira, 08-09-2026, às 10h. O Ciclo se estende até 10-11-2026. A palestra de encerramento será conduzida por Fenaroli. As palestras serão transmitidas na página eletrônica do IHU, nas redes sociais e no YouTube. A atividade é gratuita e aberta ao público. A programação completa está disponível na página do evento.

A noção de encarnação profunda elaborada pelos teólogos está repercutindo no debate teológico italiano. Paolo Trianni, professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, avalia que esta não é uma nova reflexão sistemática, mas, antes, “uma nova maneira de ver e abordar os principais mistérios cristãos, como a ontologia de Cristo, a natureza da criação, a causa da encarnação e a realidade do mal”. O que a teologia da encarnação profunda propõe, esclarece, é “uma maneira de ler Deus, o cosmos e o ser humano de um ponto de vista inusual: o da encarnação”, em diálogo com a cosmologia, a cristologia, a teologia trinitária e a teologia fundamental, a soteriologia e a ecologia.
A perspectiva teológica de Fenaroli, segundo Trianni, oferece melhores respostas às teses defendidas por Paolo Gamberin. “Fenaroli tenta demonstrar que a encarnação profunda é o argumento mais eficaz para responder – ou corrigir – o monismo relacional teorizado pelo jesuíta. Evitando preconceitos ou controvérsias apriorísticas, ele tenta demonstrar que a posição de Gamberini é por demais desequilibrada a favor do monismo, ao contrário da encarnação profunda, cujo panenteísmo demonstra grande equilíbrio e atenção doutrinária”.
Em janeiro deste ano, Gamberini publicou um artigo em que explica sua posição. O Logos encarnado, argumenta, “não deve ser entendido exclusivamente como o homem Jesus, mas sim abrange e se estende a toda a criação. Se, por um lado, afirma-se que 'este' Jesus é o Logos, também se deve afirmar que tudo aquilo a que este Jesus está ligado (carne da sua carne!) é assumido pelo Verbo. A gramática hipostática (Jesus é o Logos) indica uma identificação que não se limita a este Jesus, mas abrange toda a criação. Esta é a dimensão cósmica da encarnação”.
O ponto de Gamberini centra-se na ideia de que há uma “gradualidade na encarnação”. “A encarnação não é um evento único e exclusivo, mas constitui um devir ou processo que começou — poderíamos dizer, no Big Bang — e terminará quando o mundo tiver acolhido plenamente a Palavra de Deus, isto é, quando todo o cosmos tiver se tornado o Logos "plenamente" encarnado. 'Porque em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e nele vocês alcançaram a plenitude'" (Colossenses 2,9-10)”, defende.
Fenaroli está de acordo com a ideia de que a encarnação do Verbo não está restrita ao corpo humano de Jesus, mas envolve tudo o que existe. A conclusão do teólogo, no entanto, é de que “isso significa que a ressurreição e a salvação não se referem apenas ao nosso corpo mortal, mas a todo o nosso ‘mundo’, o nosso ser tecido de relações, entrelaçamento de encontros e afetos com pessoas, animais, plantas e criaturas”.
Nem todos os teólogos estão de acordo com os desdobramentos da noção de encarnação profunda. Para o teólogo leigo, filósofo e psicopedagogos clínico italiano, Gilberto Borghi, essa perspectiva teológica tem uma dupla intenção: “oferecer uma base mais sólida à sensibilidade ecológica do mundo crente, a fim de dialogar com esse aspecto típico de nossa cultura atual” e “retirar a encarnação das limitações de uma compreensão restrita do seu significado, ligada apenas à necessidade de redimir o ser humano do pecado”. Essa posição teológica, contudo, adverte, tem uma limitação central: “a dificuldade de reconectar a essa perspectiva uma releitura da Trindade entendida como dinâmica de amor interpessoal, que em alguns autores é apenas esboçada e não plenamente tematizada”.
O teólogo ressalta ainda as diferentes aproximações e distanciamentos das posições teológicas com o depositum fidei. "De Edwwards e Deane-Drummond, que certamente estão muito próximos dessa noção, a Southgate e ao próprio Gregersen, que já estão menos próximos, e finalmente Johnson, que talvez seja a mais distante no momento”. Em suma, avalia, a encarnação profunda é “uma perspectiva ainda em desenvolvimento, que precisa amadurecer, mas que pode render resultados interessantes, especialmente se conseguir responder às críticas já dirigidas a ela”.
O quê: Ciclo de Estudos A teologia da encarnação profunda (deep incarnation)
Realização: De 08-09 a 10-11-2026.
Transmissão: Página eletrônica do IHU, redes sociais e YouTube
Certificação: A atividade é gratuita. Será fornecido certificado a quem matricular-se em cada conferência e, no dia do evento, preencher o formulário de presença disponibilizado somente durante a transmissão. O evento ficará gravado e pode ser acessado a qualquer momento no Canal do IHU no YouTube, IHU Comunica.
🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google
Videoconferência: Encarnação profunda e as Três Ecologias
Palestrante: Prof. Dr. Niels Henrik Gregersen, University of Copenhagen, Dinamarca
Data: 08-09-2026
Horário: 10h
Videoconferência: Teologia da deep incarnation. Fundamentação bíblico-teológica
Palestrante: Dr. Stefano Fenaroli, pesquisador independente, Itália
Data: 22-09-2026
Horário: 10h
Videoconferência: Encarnação profunda e a perspectiva do monismo relativo. Pós-teísmo em uma versão metafísica
Palestrante: Prof. Dr. Paolo Gamberini, Università La Sapienza, Itália
Data: 08-10-2026
Horário: 10h
Videoconferência: A singularidade de Jesus Cristo na dimensão cósmica da Encarnação
Palestrante: Prof. Dr. Paolo Gamberini, Università La Sapienza, Itália
Data: 27-09-2026
Horário: 10h
Videoconferência: Encarnação profunda. Reflexões em diálogo com teólogos contemporâneos
Palestrante: Dr. Stefano Fenaroli, pesquisador independente, Itália
Data: 10-11-2026
Horário: 10h
Os artigos abaixo contemplam o debate em torno da noção de encarnação profunda. Os textos foram publicados pelo IHU entre 2020 e 2026.