Sobre a “encarnação profunda”. Artigo de Gilberto Borghi

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13 Janeiro 2026

Encarnação voltou hoje a ser um lugar teológico a ser repensado, porque a Igreja se encontra chamada a testemunhar esse mistério em um mundo que já não compartilha o quadro cosmológico, antropológico e metafísico no qual ele foi originalmente formulado, e que coloca novas questões sobre a relação entre Cristo, o cosmo e a salvação. Isso vem dando origem a diversas releituras e narrativas da encarnação, que nem sempre conseguem falar efetivamente ao ser humano de hoje ou respeitar suficientemente o coração da fé que Cristo nos transmitiu.

O artigo é de Gilberto Borghi, teólogo leigo, filósofo e psicopedagogo clínico italiano, publicado Vino Nuovo, 08-01-2025. 

Eis o artigo.

Gostaria de iniciar o panorama de algumas dessas interpretações com a apresentação de um esplêndido volume, A teologia da Deep Incarnation, de Stefano Fenaroli, publicado em 2024 pela Queriniana, que em 2025 recebeu o Prêmio Frosini, o qual, a cada dois anos, destaca a obra teológica que melhor demonstra a capacidade de captar e interpretar os sinais dos tempos à luz do Evangelho.

Trata-se de um texto sólido, biblicamente fundamentado e enraizado na tradição, que procura mostrar qual é, no momento, o mosaico dessa linha teológica, centrada na ideia de que, na encarnação, Deus se fez carne em Cristo de modo tão completo a ponto de assumir não apenas a história de Jesus, mas também as condições materiais da própria existência da criação. A ideia é imaginar três níveis de profundidade da encarnação: em sentido estrito, ela se dá no evento pontual e histórico da vida de Jesus; em sentido amplo, manifesta-se na partilha, por parte de Cristo, da profundidade e da amplitude das dimensões sociobiológicas do criado; em sentido estendido, realiza-se em seu compadecer-se do sofrimento e da morte não apenas decorrentes do pecado, mas também do mal presente na história e no mundo, em vista de sua redenção.

A intenção dessa perspectiva seria dupla: por um lado, oferecer uma base mais sólida à sensibilidade ecológica do mundo crente, a fim de dialogar com esse aspecto típico de nossa cultura atual; por outro, retirar a encarnação das limitações de uma compreensão restrita do seu significado, ligada apenas à necessidade de redimir o ser humano do pecado.

Fenaroli se move em torno de três eixos principais. Primeiramente, a análise de uma fundamentação bíblica dessa perspectiva, por meio da reconsideração dos termos “carne” e “corpo de Cristo”. O primeiro não indica apenas a “carne” do corpo de Jesus, mas também a “matriz maleável da materialidade” — talvez pudéssemos dizer hoje, a energia que constitui o criado; o segundo, na esteira paulina do corpo ressuscitado e místico, indica não apenas a fisicalidade de Jesus, mas também o fundamento inclusivo de toda presença de Deus no mundo.

O segundo eixo é dado pela análise do uso, pelos Padres da Igreja, do termo Logos, que mostra como Ele é visto, desde os primeiros séculos, como protagonista da criação, na qual a encarnação se torna a sua plenitude, não exigida pelo pecado, mas pensada desde sempre dentro da única economia do amor de Deus. Trata-se de uma perspectiva teológica não nova (basta lembrar Duns Scotus ou Boaventura), mas que é reativada em um sentido muito mais amplo do que havia sido reconhecido anteriormente.

O terceiro eixo, talvez o mais instigante, indica uma possível direção teológica ao reescrever a presença de Deus na criação, encontrando uma nova possibilidade na relação de compatibilidade — ou não — entre a liberdade humana e a liberdade divina. Aqui, Fenaroli mostra bem como a deep incarnation permite atravessar os estreitos de um duplo risco. De um lado, a ideia de uma compatibilidade entre o ser humano e Deus fundada numa presença difusa de Deus no mundo, entendido como um espírito indefinido e transreligioso, esquecendo a diferença ontológica entre nós e Ele. De outro, a ideia de uma incompatibilidade de fundo entre Deus e o ser humano, que se resolve apenas se Deus se “kenotiza”, isto é, se contém o seu poder absoluto e abre um espaço ao ser humano, o que acaba por não reconhecer que Deus é amor pessoal, e não potência impessoal transcendente.

A solução da deep incarnation situa-se do lado da compatibilidade, mas se enraíza no reconhecimento de que, no evento Cristo, Deus se revela como relação pessoal de amor com todas as criaturas, e nelas sua marca amorosa abraça toda existência, humana e pré-humana, permitindo que tudo o que existe tenha acesso à plenitude da comunhão consigo. Isso explica o sentido da fórmula da deep incarnation, várias vezes recordada por Fenaroli, que é “em, com e sob”, indicando que a kenose com a qual Cristo se encarna, na realidade, nasce da plenitude de um amor que não se retrai nem se anula, mas manifesta sua força ao permitir que a criação exista livremente, porque é habitada, compartilhada e sustentada por um amor livre e libertador.

Além da clareza dessa apresentação, o texto de Fenaroli possui ainda outro mérito: não ser ideológico. O autor mostra bem como o mosaico dessa linha teológica nasceu com o teólogo dinamarquês Gregersen, que em 2001 abriu pela primeira vez essa perspectiva, e hoje é constituído por vários autores, cada um dos quais empreendeu uma linha própria e específica de reflexão. Mas, embora se posicione a favor da deep incarnation, Fenaroli também apresenta as observações críticas feitas a essa teologia, que evidenciam seus aspectos mais problemáticos no que diz respeito à sua recepção no âmbito católico.

Por exemplo, a pouca clareza na descrição precisa da relação efetiva entre a carne-pessoa de Jesus e o Logos divino. De fato, não se pode evitar a necessidade de reformular hoje, em termos compreensíveis, a união hipostática, procurando não cair em novas formas de deriva que, do docetismo do século I ao monofisismo do século V, marcaram a reflexão dos Padres. Ou ainda a articulação da relação entre a eternidade imóvel de Deus e a temporalidade da criação, que ainda não foi suficientemente elaborada por esses autores. Também aqui, tanto a exclusão recíproca desses dois termos quanto a sua unificação necessária não são suficientes para dizer, de modo novo, a relação entre Deus e o tempo, de forma que seja hoje audível. Soma-se a isso a dificuldade de reconectar a essa perspectiva uma releitura da Trindade entendida como dinâmica de amor interpessoal, que em alguns autores é apenas esboçada e não plenamente tematizada.

Nessa perspectiva, é possível traçar no texto, mesmo que Fenaroli não o faça, uma espécie de distanciamento ou proximidade progressiva desses autores em relação à exposição ainda prevalecente do depositum fidei. De Edwards e Deane-Drummond, que certamente estão muito próximos dessa noção, a Southgate e ao próprio Gregersen, que já estão menos próximos, e finalmente Johnson, que talvez seja o mais distante no momento. Em suma, uma perspectiva ainda em desenvolvimento, que precisa amadurecer, mas que pode render resultados interessantes, especialmente se conseguir responder às críticas já dirigidas a ela.

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