Vozes de Emaús: Não é saudosismo, é memória perigosa: sobre a Romaria dos Mártires da Caminhada. Artigo de Celso Pinto Carias

Arte: Lauren Palma | IHU

10 Agosto 2026

"Fazer memória das pessoas martirizadas, de perto e de longe, é sempre lembrar o Mártir Jesus de Nazaré. O elemento fé pode não estar explícito, como nos primeiros séculos do cristianismo, mas essas pessoas não foram matadas por que defendiam uma causa meramente humana - embora haja valor em muitas causas humanas -, mas por que defendiam a causa de Jesus de Nazaré."

O artigo é de Celso Pinto Carias (o "Mendigo de Deus"), doutor em teologia e professor na PUC-Rio, assessor da Ampliada Nacional das CEBs e do Setor CEBs do Comissão Pastoral Episcopal para o Laicato da CNBB.

Celso Pinto Carias. (Foto: Arquivo Pessoal)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo.

Na Romaria dos Mártires da Caminhada acontecida em julho de 2026, em Ribeirão Cascalheira, MT, Prelazia de São Feliz do Araguaia, Frei Gilvander me perguntou como eu descreveria a Romaria. Imediatamente me veio à cabeça o conceito de “memória perigosa” que aprendi com o teólogo alemão J. B. Metz, falecido em 2019.

Nos últimos anos, no interior da crise civilizatória que estamos passando, muitos setores eclesiásticos tem acusado determinadas posições de “saudosismo”, pois entendem a alusão a pessoas e organizações do passado recente como algo que está ultrapassado. Afinal, os desafios do mundo atual exigem uma atualização. Para que lembrar o Pe. João Bosco Burnier, Santo Dias, Irmã Dorothy, entre tantos que deram suas vidas por acreditarem no que é central para viver o Evangelho: os pobres? Centralidade relembrada recentemente pelo Papa Leão XIV na Dilexi te (sobre o amor para com os pobres).

Em várias dioceses católicas tem acontecido, em nome de uma “atualização” disfarçada por um princípio de “unidade” que mais exclui do que une, uma espécie de “apagão histórico”. Bispos e padres podem assumir suas funções ministeriais como se a história do território tivesse começado com eles. Ora, evidentemente que qualquer processo de organização pastoral cabe uma boa avaliação, um bom discernimento e inclusive pode ser necessário corrigir rumos. Contudo, é fundamental reconhecer valores que foram construídos ao longo do tempo. Por exemplo, não se pode jogar fora a relação fé e vida. Não se pode esquecer Mateus 25: “tive fome e me deste de comer....”.

O mais grave é que a crítica pode vir acompanhada com justificativas ideológicas estapafúrdias, como chamar muitas das pessoas martirizadas de meros agitadores e agitadoras, comunistas disfarçados de religiosos. Pior, podem promover um verdadeiro linchamento público. Na Romaria, uma freira minha amiga, que assistiu ao julgamento dos mandantes do assassinato de Irmã Dorothy, afirmou como dava náusea ouvir os advogados tentando justificar o seu assassinato, como, enquanto estadunidense, ser “traficante de armas” para a luta no campo.

Sim, é verdade que se pode ficar prisioneiro do passado sem um diálogo com os desafios do presente. E caso isso aconteça, sem dúvida, precisaria ser criticado. Porém, é interessante observar que quem faz a crítica, muitas vezes, está preso a um tradicionalismo sem sentido. Entendem que a renovação passaria simplesmente por adaptações superficiais como, por exemplo, falar a linguagem juvenil sem entrar exatamente nas questões de fundo que perpassam a vida das juventudes.

Ora, ora, quem foi Jesus de Nazaré, que hoje é a “pedra angular” da vida cristã? Por acaso os valores e princípios deixados por Ele estão ultrapassados? O dogma cristão afirma que ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, no sentido de uma encarnação na humanidade masculina e feminina. Mas como é fácil ficar no “verdadeiro Deus” e esquecer que Jesus passou pela história fazendo o bem. Como é fácil esquecer que o mistério da páscoa não começa no dia da ressurreição, mas na encarnação. Como é fácil esquecer que a missão central de Jesus Cristo foi viver e anunciar o Reino de Deus. E como é fácil esquecer que sua crucificação não foi um desígnio sádico de Deus, mas a revelação de um Deus que é fiel, até o fim ao amor, de um Deus que não se impõe pela força. De um Deus crucificado pelo poder dominador que, ainda hoje, quer um deus que justifique a violência, a guerra, a injustiça, não um Deus que seja Aquele que sustenta a fraternidade, a solidariedade, e que caminha junto com o povo para que todos e todas tenham vida. Para muitas pessoas parece que a fé na vida eterna é para ganhar a salvação na morte, e não para um caminho salvífico que começa com a criação.

Fazer memória das pessoas martirizadas, de perto e de longe, é sempre lembrar o Mártir Jesus de Nazaré. O elemento fé pode não estar explícito, como nos primeiros séculos do cristianismo, mas essas pessoas não foram matadas por que defendiam uma causa meramente humana - embora haja valor em muitas causas humanas -, mas por que defendiam a causa de Jesus de Nazaré. O absurdo da crítica é que se pode justificar o assassinato por que eram pessoas vinculadas a setores ideológicos de “esquerda”. E as pessoas que matavam e mandavam matar eram “puras”, sem ideologia alguma: matavam por que era “necessário”? É interessante que no Evangelho de Lucas, justifica-se o assassinato de Jesus de Nazaré por uma razão parecida: “Começaram então a acusa-lo dizendo: ‘Encontramos este homem a subverter nossa nação, impedindo que se paguem os impostos a César e pretendo ser Cristo Rei” (Lc 23,2).

Portanto, como diria o Papa Francisco: “não deixemos que nos roubem a esperança”. E como foi repetido várias vezes na Romaria: VIVA A ESPERANÇA! A esperança de viver em um mundo onde diminua a injustiça, a dor e o sofrimento, sobretudo dos pobres, das crianças, e daqueles e daquelas que mais sofrem, das pessoas que estão à margem da sociedade e não tem que as defenda. As pessoas que passaram pelo martírio, como foi lembrado na Romaria, são TESTEMUNHAS DA ESPERANÇA. Por isso, não é saudosismo, é MEMÓRIA PERIGOSA. Uma memória que nos convida a refletir sobre a nossa opção de seguir o CAMINHO de de Jesus de Nazaré.

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