Pax Silica: mais guerra, exploração e dependência

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24 Fevereiro 2026

“A chamada Pax Silica é (...) uma nova declaração de guerra contra os povos e a natureza”, escreve Silvia Ribeiro, jornalista e pesquisadora uruguaia, em artigo publicado por Desinformémonos, 18-02-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Em dezembro de 2025, o governo Trump anunciou uma iniciativa para tentar “regular” o mercado global da grande indústria digital a seu favor, especialmente concentrado no desenvolvimento da inteligência artificial. Chamou isto de Pax Silica, mas não se refere a nenhuma forma de paz, exceto pela estabilidade que pretende conferir aos lucros das megacorporações tecnológicas estadunidenses e de alguns países que se alinham ao marco imposto pela iniciativa.

O objetivo é consolidar o acesso, segundo os termos e interesses estadunidenses, a toda a cadeia de suprimentos e produção necessária para esta indústria, desde minerais e outros recursos naturais, chips, semicondutores, energia, água, logística, incluindo centros de dados e infraestrutura em nuvem.

Os Estados Unidos começaram integrando seus aliados Israel, Japão, Coreia do Sul, Singapura, Reino Unido e Austrália. Em janeiro de 2026, somaram-se o Catar e os Emirados Árabes Unidos. Taiwan, um importante produtor de semicondutores, está como observador, assim como Canadá, Países Baixos e União Europeia. O acordo inclui ampla participação das empresas do setor, estadunidenses e/ou sob a sua égide.

Claramente, o objetivo é afirmar a posição dos Estados Unidos na disputa pelo domínio e controle do mercado global da indústria da inteligência artificial, fundamentalmente contra a China, mas suas implicações vão muito além.

Estamos em uma era do capitalismo em que as empresas de tecnologia, especialmente os titãs tecnológicos estadunidenses (Nvidia, Apple, Alphabet, Amazon, Microsoft, Meta, Tesla), possuem o maior valor de mercado do mundo, todas avaliadas entre um e mais de quatro trilhões de dólares. Todas também estão entre as 100 maiores empresas globais em vendas e receitas - não apenas quanto ao valor de suas ações - e várias estão entre as 10 maiores.

De diversos modos, como aponta Evgeny Morozov, crítico do solucionismo tecnológico, essa iniciativa é a intensificação de uma nova etapa do imperialismo estadunidense, no qual não utiliza mais as máscaras do comércio ou as imposições de instituições financeiras. (E. Morozov, "Pax Silica: cuando el imperio deja de fingir", revista ALAI 559, fevereiro de 2026).

Os titãs tecnológicos estadunidenses já dominavam setores-chave como chips de IA, mais de 75% das plataformas digitais e, entre apenas três delas - Amazon, Microsoft e Google -, a grande maioria do mercado de computação em nuvem. Embora desde a posse de Trump ocupem um lugar privilegiado e (mais) público na estrutura da administração pública, de qualquer forma, o governo se apresentava formalmente como árbitro. A partir da Pax Silica, fica claro que existe uma aliança estratégica de interesses imperialistas entre o governo e essas empresas, e que o objetivo é garantir, pelos meios que considerarem necessários, incluindo guerras, o acesso e o controle de toda a cadeia de suprimentos e o funcionamento desta indústria.

A participação dos titãs tecnológicos nas guerras e genocídios, como o da Palestina, além de significar um aumento notável de seus lucros, também forneceu um campo impune de experimentação de tecnologias de controle e vigilância de populações inteiras, um produto de alta demanda de muitos governos. As guerras não são apenas um meio, mas, em muitos casos, um fim em si mesmas.

Juntamente com a atualização da Doutrina Monroe por Trump, e como parte dela, a Pax Silica teve e terá impactos profundos na América Latina. A expansão da indústria da inteligência artificial apresenta sérias limitações físicas, tanto em termos de acesso e extração de minerais quanto de gigantescas demandas por energia, água e terra, especialmente para a instalação de centros de dados em hiperescala que são essenciais para as indústrias de inteligência artificial. Os Estados Unidos já enfrentam uma crise de água e energia para abastecer essas demandas, com o aumento vertiginoso de apagões e falta de água nas áreas de instalação de grandes centros de dados, razão pela qual, junto às gigantes tecnológicas, lançaram-se a ocupar outros países.

Na América Latina, os principais parques de centros de dados estão atualmente localizados em São Paulo, Brasil; Querétaro, México; e Quilicura, Chile, onde já há protestos das populações locais contra seus impactos. Em seguida, vêm as instalações na Colômbia e na Argentina. As disputas e os impactos mais imediatos estão relacionados ao acesso à água, mas o tema da energia, barulho, poluição e ocupação de territórios também é essencial.

Morozov, em seu artigo sobre a Pax Silica, cita o exemplo da Argentina. No final de 2025, divulgou-se uma carta de intenções entre a Sur Energy e a OpenAI (empresa proprietária do ChatGPT) para outro projeto de um grande data center. Ele se chama Stargate Argentina e o objetivo é a instalação de um data center de até 500 megawatts, com um investimento de 25 bilhões de dólares.

Seguindo um padrão comum em outros governos da América Latina, o governo de Javier Milei promete todos os tipos de facilidades, garantindo acesso à terra, água e energia, além de isenções de impostos e, no caso da Argentina, até mesmo subsídios com dinheiro público.

A OpenAI se refere ao projeto como “uma oportunidade nacional, com a Sur Energy liderando um consórcio e um parceiro de nuvem lhe acompanhando”, como se fosse uma contribuição para o país.

Morozov explica que esse é o modelo a ser seguido: “a modernização é oferecida como um subcontrato de infraestrutura, ao passo que o controle estratégico (modelos, nuvens, jurisdição, normas) permanece em outra parte”.

Além dos significativos impactos ambientais e sociais que gera, tanto pelo alto consumo de água e energia quanto pela produção de lixo tóxico e a construção de novas usinas nucleares, entre outros, há um aspecto que é sumamente preocupante. Junto a esses tipos de projetos, as grandes empresas de tecnologia que controlam a nuvem e seus aliados oferecem prover sistemas de inteligência artificial, de software, gerenciamento e armazenamento para as funções estatais (em todos os tipos de áreas, incluindo além da gestão governamental, a justiça, a saúde, a educação ...). Isso significa, de fato, uma janela de apropriação da própria informação, com múltiplas implicações de vigilância, incitação ao consumo, e manipulação de todos os tipos de eleições. Além disso, é uma forma de estabelecer sistemas de maior dependência dos estados e as populações em relação às empresas, vínculos que já se mostraram muito difíceis de suspender ou mudar sem a aprovação e as condições impostas pelas empresas provedoras.

A chamada Pax Silica é, na verdade, uma nova declaração de guerra contra os povos e a natureza.

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