Existirá esquerda no século XXI? A pergunta. Artigo de Franco Berardi

Divino Caos, de Sebastián Picker (Fonte: Wikimedia Commons)

02 Abril 2025

“A ordem ocidental está desmoronando e cairá. A questão que precisamos investigar é a seguinte: uma subjetividade coletiva e solidária pode emergir das ruínas da civilização?”, pergunta Franco Berardi, filósofo, escritor e ativista italiano, em artigo publicado por Lobo Suelto!, 28-03-2025. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Há alguns dias, recebi um convite de uma associação estadunidense para participar de uma convenção que acontecerá em Chicago, nos dias 5, 6 e 7 de abril. O tema da convenção é: “Existe uma esquerda no século XXI?”. Respondi rapidamente:

“Infelizmente, minha saúde é tão precária que não posso viajar para Chicago. Então, não poderei estar com vocês pessoalmente. No entanto, escreverei um texto e o publicarei antes de abril para que possam ler minhas reflexões, se estiverem interessados em saber a minha opinião. Obrigado pelo convite”.

Francamente (para além da minha fragilidade física), não tenho nenhuma vontade de ir aos Estados Unidos, este país apavorante, onde uma máfia de racistas agressivos governa uma população de indivíduos infelizes que vivem em uma competição frenética pela sobrevivência.

No entanto, a questão que será debatida em tal convenção é um bom ponto de partida para uma reflexão muito necessária sobre o futuro (ou o não futuro) da subjetividade social neste século. Aqui, está a minha resposta.

Uma pergunta equivocada

Existirá a esquerda no século XXI? Minha resposta é: esta pergunta não me parece interessante. O próprio significado da palavra esquerda se perdeu porque, com exceção talvez de alguns países como a Espanha, a maioria daqueles que fizeram parte de governos de centro-esquerda, nos últimos trinta anos, traiu completamente a classe trabalhadora e a sociedade em geral. Além disso, o mundo em que a palavra esquerda significava algo desapareceu.

Nos Estados Unidos, no Reino Unido e na maioria dos países europeus, a esquerda tem sido a ponta de lança da devastação neoliberal da vida social. O papel de Blair, Schröder, Hollande e outros social-democratas que governaram nos anos 1990 e na primeira década do novo século foi devastar as condições de vida da sociedade em favor do lucro e da competitividade, privatizar os serviços públicos e favorecer a transferência de dinheiro dos trabalhadores para os ricos. A política racista de rejeição aos imigrantes também foi concebida e desenhada por políticos como o italiano Marco Minniti (ex-comunista, então, ministro do Interior em um governo de centro-esquerda, arquiteto da política de deportação de migrantes que inspira Meloni e Trump).

Nos Estados Unidos, os governos de Clinton, Obama e Biden se alinharam perfeitamente com a política conservadora de agressão imperialista. Como resultado, pode-se dizer que em todo o Ocidente a centro-esquerda foi responsável pela desilusão generalizada que levou muitos eleitores a abandonar a esquerda e se voltar para o nacional-liberalismo emergente que, finalmente, culminou na fúria trumpista.

Os nazistas-libertários estão restaurando um regime escravista e empurrando o Ocidente para a agressividade nacional e a guerra. Contudo, a razão para a ascensão dessa onda ultrarreacionária está na traição da autodenominada esquerda. Portanto, por que eu deveria me preocupar com o destino de uma classe política que, autodenominando-se de esquerda, segue as mesmas políticas da direita?

A pergunta interessante hoje não é: existe uma esquerda em nosso futuro? A pergunta interessante é se nossa existência social encontrará ou não uma maneira de escapar da agressão em curso e do retorno da escravidão, do terror social, da militarização e da guerra. A vida social encontrará uma via para a subjetivação social? Surgirá um movimento (consciente, coletivo e solidário) no contexto atual de competição, depressão, pânico e deserotização da vida social? Esta é a pergunta interessante que tento responder.

Pânico

Uma onda psicótica percorre a sociedade ocidental: a causa da psicose de pânico em massa é uma espécie de colapso senil da mente ocidental.

O que é o pânico? No último capítulo de O que é a filosofia?, Deleuze e Guattari refletem sobre o envelhecimento e falam da senescência em termos da relação entre a ordem e o caos: “(…) Um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo, do que as ideias que escapam, que desaparecem mal elaboradas, já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras que já não dominamos (…) variabilidades infinitas, cujo aparecimento e desaparecimento coincidem (…)”.

Caos” é definido, aqui, em termos de velocidade, de aceleração da infosfera em contraposição aos ritmos lentos da razão e da mente emocional. Quando as coisas começam a fluir tão rapidamente que o cérebro humano se torna incapaz de elaborar o significado da informação, devido ao caos, entramos em estado de pânico. Pânico é a incapacidade de tomar decisões porque o que acontece ao nosso redor é muito rápido, muito complexo e, portanto, indecidível.

O pânico explica o comportamento atual da União Europeia inconsistente até o ponto da demência. Para comprazer o amo estadunidense (Biden), há três anos, os líderes europeus decidiram empurrar o povo ucraniano para a guerra contra a Rússia. Romperam o vínculo econômico com a Rússia e se puseram em modo belicista, apoiando e armando o nacionalismo ucraniano. Foi uma decisão suicida porque o objetivo de Biden era romper a relação econômica entre a Europa e a Rússia, e derrotar a Alemanha. A Alemanha foi derrotada, a Ucrânia foi destruída. A Europa foi empurrada para a beira do abismo.

Depois, o amo estadunidense (Trump) traiu a causa ucraniana e abandonou os europeus à própria sorte. Milhões de pessoas abandonaram a Ucrânia, inúmeros jovens morreram nas trincheiras do Donbass. Os ucranianos estão derrotados, empobrecidos e humilhados. Os europeus se deparam com uma armadilha. Após caírem em uma crise de pânico, Macron, Starmer, Merz e Ursula von der Leyen decidiram fazer algo inútil, perigoso, destrutivo e autolesivo: um enorme investimento de dinheiro no rearmamento do continente.

O que fazer em uma situação de pânico? Minha sugestão é que não se tome decisões, não se deve concentrar na torrente de informações, mas, sim, respirar fundo e renunciar a ação. Os líderes europeus, ao contrário, decidiram lançar um plano massivo de rearmamento e reconversão militar da indústria automotiva.

Os russos ficarão de braços cruzados, enquanto os europeus se armam até os dentes, ou Putin decidirá atacar a Europa, antes que ela esteja pronta para a guerra?

A russofobia generalizada dos líderes europeus corre o risco de se tornar uma profecia autorrealizável. Enquanto os europeus se apressam para pegar em armas por medo da agressividade russa, tenho medo de que os russos não fiquem esperando preguiçosamente o rearmamento total dos europeus.

Depressão

Segundo os psiquiatras, a depressão é a patologia predominante da geração que aprendeu mais palavras de uma máquina do que com a voz de sua mãe. A depressão é desagradável, é dolorosa; bem, a depressão é depressiva. Então, você faria quase qualquer coisa para se libertar de suas garras. Acontece que a mobilização agressiva de energias mentais pode ser uma terapia para a depressão.

Hitler sabia disso. Aos alemães deprimidos, humilhados após a Primeira Guerra Mundial, ele disse: “Não se considerem trabalhadores derrotados, considerem-se guerreiros. Não se considerem humilhados. Considerem-se humilhadores”. Ele venceu as eleições e os alemães arrastaram a Europa para o pesadelo da Segunda Guerra Mundial.

A autoidentificação agressiva, a mobilização nacionalista e patriotismo atuam como uma terapia de anfetaminas para a mente deprimida. Esta terapia funciona por um tempo. Depois, cai-se em tragédias abismais. Por isso, a onda psicótica da cultura ocidental senescente converge com as decisões políticas de uma parte significativa da nova geração.

Como podem ver, a pergunta interessante não é se existirá a esquerda no século XXI, mas como escapar da reação do ciclo de pânico e depressão que eclodiu abruptamente em 2025.

É possível iniciar um processo de subjetivação consciente e de autonomia social?

Deserção em massa

Meus velhos amigos pacifistas expressam sua consternação porque não há mobilização política contra o rearmamento da União Europeia, nem manifestações em massa contra a crescente militarização da economia e do discurso público.

Entendo sua consternação, mas sei que desde 15 de fevereiro de 2003, após a enorme mobilização mundial contra a guerra no Iraque, o movimento pacifista se dissolveu. Naquela ocasião, o pacifismo não pôde deter a guerra, e hoje é difícil acreditar que as manifestações e os protestos sejam úteis para conter o frenesi.

A loucura dos belicistas europeus não tem a sua raiz em uma estratégia política, mas no colapso mental da cultura ocidental, incapaz de enfrentar seu próprio declínio irreversível. E (obviamente) tem a sua raiz nos interesses do complexo militar industrial.

O que precisamos é muito mais do que manifestações e protestos. O que a vida social necessita é de uma forma de escapar da militarização da sociedade europeia. O que precisamos é de uma onda massiva de deserções. Deserção da guerra, mas também deserção da economia de guerra e da obsessão nacionalista.

Obsessão

O ano de 2025 marca um antes e um depois. No século passado, o marco da subjetivação social era a luta de classes: o internacionalismo e a solidariedade operária contra a exploração.

Não mais. O marco mudou porque ocorreu uma hiperfragmentação da consciência social, o tempo social se celularizou e o semiocapital transformou o processo de produção em uma recombinação de fractais vivos. A solidariedade se apagou da vida social devido à precarização do trabalho.

A precariedade, o isolamento e a solidão desencadearam uma onda de angústia mental e de disforia. A subjetivação social passou do âmbito do conflito social para o da psicobiopolítica. Globalmente, a identificação biológica (racial, étnica, nacional) substituiu a solidariedade social. O pertencimento substituiu a consciência. A ferocidade e a luta pela vida substituíram o conflito pela redistribuição da riqueza social. Consequentemente, a sobrevivência e o genocídio são os pontos cardeais do novo mapa biopolítico.

Consciência e psicose

A consciência (consciência de si mesmo e do outro) está criminalizada: woke é a palavra-chave desta criminalização. Estar desperto (consciente) significa ser frágil: a geração que alguns sociólogos chamam de “geração floco de neve” é muito frágil porque os jovens assumem a responsabilidade pela colonização branca e pensam na sexualidade em termos de escolha e não em termos de supremacia natural do homem.

Se você quer ser forte, esqueça a sua consciência, confie em Trump e no dinheiro. Se você quer ser forte, esqueça o pensamento e acredite (em Deus, na nação, na supremacia branca, na civilização superior do Ocidente).

Em 1919, Sandor Ferenczi disse que a psicanálise era incapaz de tratar a psicose de massas. A política também. Todo mundo sabe o que aconteceu na Europa depois de 1919. Um século depois, estamos no mesmo ponto. Agora, surge uma pergunta: o Reino de Trump é invencível? Eu não acredito. Penso que os monstros não triunfarão para sempre porque em todo o mundo colocaram em marcha um processo de desintegração geral: a desintegração do Estado, a desintegração da civilização social, a desintegração do meio ambiente.

A ordem ocidental está desmoronando e cairá. A questão que precisamos investigar é a seguinte: uma subjetividade coletiva e solidária pode emergir das ruínas da civilização?

Desintegração

Desintegração do mapa geopolítico, do sistema social e do cérebro senil do Ocidente. A integração econômica do Sul (BRICS) é um perigo para o senil mundo ocidental. A iminente crise do dólar como centro do sistema financeiro global e o declínio demográfico do hemisfério norte forçaram os Estados Unidos a abandonar o projeto de globalização que foi o eixo estratégico dos últimos trinta anos (o chamado Império). Agora, apostam tudo na aliança com a Rússia pela supremacia branca.

O trump-putinismo é o projeto de restauração do supremacismo branco, a divisão do mundo em zonas de influência hipercolonialistas, a liquidação da democracia liberal e o início de um processo de devastação extrativista dos recursos do planeta.

Genocídio, deportação e detenção da população migrante, escravidão em massa, destruição definitiva do meio ambiente: tudo isto acontecerá sob a hegemonia de Trump-Putin.

Esse projeto funcionará? A máfia predatória controlará os fluxos caóticos de terror, sofrimento e guerra que a desintegração em curso implica?

Desmoronamento da ordem, colapso iminente do meio ambiente e da economia. Trauma: este é o panorama do século.

Trauma

Na densa rede da obsessão, é possível perceber os sinais de um colapso iminente, um trauma do futuro. O trauma costuma estar ligado a uma experiência passada de perda ou violência. Agora, pela primeira vez, enfrentamos um trauma inverso: o trauma do colapso iminente e inevitável que atormenta a mente e o corpo dos jovens de todo o mundo.

A geração disfórica, que cresceu em um estado de isolamento físico e de paralisia emocional, está traumatizada pela indescritível percepção de uma catástrofe iminente. Sabem que o planeta está cada vez mais incompatível com a vida humana. Sentem que os adultos se tornaram incapazes de evitar a catastrófica mudança climática. Sofrem sua condição de solidão e são cada vez mais incapazes de administrar seu próprio corpo sexual. Finalmente, veem-se impactados pela intensificação da estimulação infoneural.

A geração floco de neve está traumatizada por algo que ainda não aconteceu, mas que é percebido como iminente, e um processo de subjetivação só pode ser baseado nesta experiência comum do trauma futuro. O desenlace de tudo provocou um trauma que é o ponto de partida do processo seguinte de subjetivação.

Como construir um sujeito ativo e consciente, a partir de um trauma?

Existe alguma forma de escapar da espiral de demência suicida que emana da senescência do Ocidente?

Esta é a pergunta que precisa de resposta.

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