Aborto, direitos, migrantes: “O messias de um deus nacionalista e exclusivista”. Entrevista com Massimo Faggioli

Donald Trump | Foto: Business World Online

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03 Fevereiro 2025

Durante a campanha eleitoral, o aborto parecia ter se tornado um ponto fraco para Donald Trump: com o risco de afastar o eleitorado evangélico, ele se distanciou da eventualidade de apoiar uma proibição federal. Agora, no entanto, voltou ao ataque: revogou as medidas do governo Biden de proteção ao procedimento, enviando uma mensagem triunfante à Marcha pela Vida, e o Departamento de Justiça indica que limitará a perseguição àqueles que obstruem o acesso às clínicas de aborto. Paralelamente, hoje saiu a notícia de que a Suprema Corte ouvirá um caso em que os juízes poderiam decidir a legitimidade dos financiamentos públicos para as escolas religiosas, o ponto culminante de um projeto que a Corte de John Roberts parece estar engendrando há bastante tempo. Falamos sobre a “aliança” entre o fundamentalismo cristão e o governo Trump com Massimo Faggioli, professor de teologia da Villanova University, na Pensilvânia, e autor de Da Dio a Trump. Crisi cattolica e politica estadunidense (Morcelliana).

A entrevista é de Giovanna Branca, publicada por il manifesto, 26-01-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Como você considera que a direita religiosa e contra o aborto exercerá sua influência no segundo mandato de Trump?

O argumento pró-vida sempre será um argumento de propaganda, e Trump prestigiará esse eleitorado, mas a verdadeira direita religiosa se converteu ao trumpismo e não tem o poder de barganha que tinha antes. Os novos oligarcas estadunidenses têm bem pouco interesse em questões relacionadas à vida. Os próprios intelectuais do movimento contra o aborto falam sobre a necessidade de recomeçar porque, culturalmente, perderam a batalha. É uma cultura pró-vida cheia de contradições gritantes. Apenas um exemplo: poucas horas depois de fazer seu discurso na Marcha pela Vida, no qual prometia defender as mulheres diante da “cultura dominante”, o vice-presidente JD Vance, católico, como presidente do Senado, deu seu voto decisivo para a confirmação de Pete Hegseth, que foi acusado por algumas mulheres (inclusive de sua família) de violências sexuais.

Nos últimos anos, vimos o surgimento de um cristianismo fundamentalista nos EUA, cuja “cruzada” não se limita aos direitos reprodutivos, mas também tem como alvo a comunidade LGBTQ, os direitos políticos das mulheres e a separação entre Igreja e Estado.

Existe um neotradicionalismo e um neofundamentalismo na política estadunidense desde os anos 1970-1980, mas a partir de 2000 essa onda também atingiu o catolicismo. O trumpismo beneficiou e contribuiu para uma mudança fundamental: do neoconservadorismo católico moderado durante os anos de João Paulo II e Bento XVI para algo diferente, que flerta com o radicalismo de direita e é um movimento subversivo antissistema (subversivo tanto do estado quanto da igreja). A Suprema Corte de John Roberts já havia começado, durante a presidência de Obama, a desmantelar determinadas proteções fruto dos anos do movimento dos direitos civis. Há sonhos de teocracia e de um integralismo católico a que a Suprema Corte poderia fazer concessões. O modelo declarado é a Hungria de Orban. O que desmoronou é a ideia novecentista de estado governo e instituições, diante da qual até mesmo o catolicismo liberal e progressista teve muitas hesitações.

De acordo com a especialista em Suprema Corte Linda Greenhouse, a peculiaridade de quase todos os seis juízes conservadores serem católicos pode ser explicada pelo fato de que, no longo ataque a Roe v. Wade (a decisão que garantia o direito ao aborto, ndr), quando os presidentes do Partido Republicano estavam sabatinado os juízes elegíveis para integrar a Suprema Corte, “o catolicismo se tornou um ‘substituto’ para a resposta que os indicados não podiam dar à pergunta que um presidente não podia fazer”: se eles estavam dispostos a revogar Roe. O que pensa a respeito?

O catolicismo era historicamente minoritário, mas não é mais - hoje é a maior igreja do país. A conquista da Suprema Corte pela cultura católica de direita por meio das nomeações dos presidentes republicanos faz parte de um movimento cultural mais amplo para reconquistar o país, diante do qual o catolicismo liberal e progressista parece não apenas derrotado, mas também desarmado.

O crescimento do “movimento conservador legal” nos Estados Unidos é um dos “sucessos” do catolicismo de direita.

Em seu discurso de posse, Trump se apresenta como o escolhido de Deus para implementar seu plano nos Estados Unidos.

Isso não é de todo uma novidade, mas agora Trump é o messias de um deus nacionalista e exclusivista, o que faz com que até mesmo uma determinada ideia de Deus seja subjugada a um projeto político de uma forma mais perigosa do que no passado. O discurso religioso na política estadunidense era, por definição, inclusivo (talvez de maneira hipócrita), também entre os republicanos, pelo menos até G.W. Bush. Não é mais assim. E é um exclusivismo não doutrinal ou confessional, mas racista e nacionalista. É um país diferente e uma religião estadunidense diferente. O problema é que mesmo o catolicismo liberal e progressista não pode desmentir o “sonho americano”. Por exemplo, muitos católicos latinos de imigração recente votaram em Trump, mais do que se esperava.

Trump diz estar pronto para ir pegar e prender os imigrantes “ilegais” até dentro das igrejas. Uma contradição com esse papel messiânico?

Não apenas uma contradição, mas também uma violação de uma tradição e de uma prática jurídica muito antiga, aquela de considerar as igrejas como invioláveis. Obviamente, a questão da relação entre moral religiosa e política é complexa. Mas o que chama a atenção, além do conteúdo das políticas anti-imigrantes em si, é a linguagem violenta e as imagens usadas para propagá-las.

Nos últimos dias, com o sermão da bispa Mariann Budde, também se tornou visível a outra igreja, solidária e atenta aos direitos. Como avalia o apelo à “piedade”?

Observo que, durante a semana inicial do segundo mandato, a linguagem mais bergogliana para abordar pessoalmente a presidência Trump, a linguagem da misericórdia, foi usada por uma bispa protestante, e não por aqueles que representavam a Igreja Católica.  

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