Nicarágua: quando o sonho vira pesadelo. Artigo de Danilo Di Matteo

Foto: aboodi vesakaran | Pexels

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

21 Agosto 2023

"Com os EUA vendo em cada anseio de mudança – daquele da Nicarágua a El Salvador, passando por Granada e Panamá – uma réplica perigosa e temível do regime cubano de Castro e com o campo progressista, especialmente europeu, que pensava entrever uma espécie de terceira via entre o império do capital norte-americano e as ditaduras comunistas. Isso mesmo, uma terceira via em alguns aspectos análoga à defendida justamente por Berlinguer", escreve Danilo Di Matteo, médico e filósofo italiano, em artigo publicado por Settimana News, 19-08-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Alguém notou algumas semelhanças nos traços do rosto entre Enrico Berlinguer, em visita à Nicarágua após a vitória da revolução sandinista em 1979, e Sandino, o herói nacional das primeiras décadas do século XX.

Confirmando um substrato cultural tradicional, católico e popular, como quando a tia vê semelhanças entre o sobrinho e o bisavô. O líder era, como hoje, Daniel Ortega. E Manágua parecia a projeção de um sonho: não a revolução que se torna Estado e regime, mas um caminho de libertação no respeito da pluralidade de vozes e dos protagonistas.

Uma forja, um fermento vital, um laboratório vivo. Tantas esperanças alimentadas por experiências, pensamentos, práticas como as Comunidades cristãs de base, a teologia da libertação, justamente, a igreja (católica) popular.

Com os EUA vendo em cada anseio de mudança – daquele da Nicarágua a El Salvador, passando por Granada e Panamá – uma réplica perigosa e temível do regime cubano de Castro e com o campo progressista, especialmente europeu, que pensava entrever uma espécie de terceira via entre o império do capital norte-americano e as ditaduras comunistas. Isso mesmo, uma terceira via em alguns aspectos análoga à defendida justamente por Berlinguer.

De forma restrita, eu era um exemplo de tais atitudes. Por ocasião das eleições nicaraguenses de 1990, eu esperava a confirmação de Ortega e dos sandinistas, mas fiquei feliz com a vitória do cartel das oposições liderado por Violeta de Chamorro, que permaneceria presidente até 1997.

Um cartel composto principalmente por forças de centro-direita, mas que incluía também um partido socialdemocratas, um socialista e outro até comunista (prova da provisoriedade e fragilidade de determinados esquemas). Fiquei feliz pois me parecia a contraprova de que a revolução sandinista não havia se transformado em regime, mesmo continuando (a Frente Sandinista, no entanto, continuava sendo a principal força política, e isso me parecia que precisava ser lido e interpretado sob a categoria gramsciana de hegemonia).

Por outros longos anos, afinal, conservadores e moderados governariam em Manágua. E isso nos leva a uma outra consideração, repleta de analogias com os acontecimentos europeus e, sobretudo, italianos. Analogias, portanto, com todas as profundas diferenças.

De fato, durante a agonia da primeira República, no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, depositamos muita fé nas virtudes taumatúrgicas da chamada democracia da alternância: no fato, portanto, de que a mudança, a cada 5-10-15 anos, no comando do governo e a alternância entre dois grandes alinhamentos teriam por si só sido prenúncios de mais eficiência e mais justiça.

Em outras palavras: águas em movimento, em comparação com aquelas pútridas e estagnadas. Isso não aconteceu na Nicarágua, não aconteceu aqui entre nós. Esse sonho, além disso, às vezes fracassa porque os dois alinhamentos são muito parecidos e as diferenças parecem irrelevantes, outras vezes (ou talvez ao mesmo tempo) porque são muito distantes e diferentes.

O fato é que hoje Ortega, de tiranicida, se transformou em déspota e sufoca justamente aquela pluralidade de vozes e de presenças na base do fascínio da revolução sandinista.

Além disso, agora como então (mas é um além disso opaco e inquietante), os dados da economia me preocupam: a Nicarágua estava e ainda está entre os países mais pobres do mundo. E se o velho Marx tivesse um pouco de razão, não tanto em identificar na economia “a estrutura” quanto em ver nela um índice importante, não desprezível?

Leia mais