Casamento homossexual: nem crime, nem pecado. Artigo de Juan Masiá

(Foto: Stanley Dai | Unsplash)

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09 Fevereiro 2023

"Se perguntarmos ao Francisco se ele abençoaria aquele casamento, certamente ele nos responderá: canonicamente não poderia, mas... Quem sou eu para negar uma bênção evangélica, pastoral e misericordiosa àquele casal que atesta com o seu amor o amor de Deus?", escreve Juan Masiá, teólogo jesuíta espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 08-02-2023.

Eis o artigo.

Quando o Papa Francisco se opõe às leis que criminalizam a homossexualidade e não se opõe às leis que permitem o casamento gay, alguns bispos homofóbicos protestam, em nome de sua crença na suposta pecaminosidade de todas as relações homossexuais.

Não é à toa que Francisco se vê obrigado a fazer vários esclarecimentos:

1) Deve-se esclarecer: a orientação homossexual como tal não é um crime ou mal moral ou injustiça, mas uma condição da pessoa.

2) Mas os homofóbicos insistem em argumentar contra Francisco (com citações doutrinárias do Catecismo ou Congregação para a Doutrina da Fé), dizendo: “esta relação é um pecado”. E Francisco é obrigado a esclarecer: é preciso distinguir, antes de tudo, entre crime e pecado.

3) Bem, não, senhor, os bispos homofóbicos ainda não concordam e continuam argumentando contra Francisco, apoiados na suposta "doutrina tradicional da Igreja". E Francisco tem que fazer o terceiro e mais decisivo esclarecimento e precisão: Sim, de fato, esses textos que você cita são doutrina tradicional (que eu não modifico por decreto, mas caminhando para a mudança através da sinodalidade...), mas naquela tradição da Igreja e na da Bíblia houve, há e sempre haverá necessidade de evolução, revisão e reinterpretação..., atualmente a prática pastoral de acolher na Igreja pessoas que até agora eram discriminadas. É uma forma de preparar a evolução e revisão da doutrina (faltou e há uma falta grave de caridade para com esta gente, os homofóbicos devem ser chamados à conversão...).

Aliás, essas questões estão sendo debatidas antes do Sínodo, até o Bispo Emérito Ratzinger (RIP) já teve que reconhecer o erro da Igreja em confundir os problemas da condição homossexual com os de agressão sexual ou pedofilia e, por isso, cuidou que no catecismo essa confusão foi evitada.

A teologia moral revisionista desde o Vaticano II já vem esclarecendo essa confusão há mais de meio século, rejeitando toda agressão sexual e estabelecendo os critérios para avaliar a moralidade de uma relação sexual, não em heterossexualidade ou homossexualidade, nem em extraconjugal ou intraconjugal, ou casamento, mas nos critérios do amor e da justiça, do livre consentimento e do respeito pela dignidade e pelos direitos da pessoa.

O maior passo de mudança na doutrina foi a afirmação enfática de se opor a qualquer discriminação baseada na condição homossexual. Isso é o que diz respeito ao catecismo. Comparado com antes, um grande passo. Mas, dada a situação atual, o passo minúsculo do catecismo na evolução da doutrina (em comparação com a tradição discriminatória durante séculos) ainda é muito insuficiente. Terá que ser modificado, tanto o que diz o catecismo como as declarações mais recentes da Congregação para a Doutrina da Fé sobre este assunto (como é difícil para o meu amigo e irmão cardeal Ladaria! Oremus ad invicem).

Aceitar na prática pastoral a aceitação desses casamentos civis e a bênção desses casamentos na Igreja é o caminho para preparar o caminho para que a evolução da doutrina chegue (como sempre com atraso) ao nível de suas expressões magisteriais e canônicas.

Se perguntarmos ao Francisco se ele abençoaria aquele casamento, certamente ele nos responderá: canonicamente não poderia, mas... Quem sou eu para negar uma bênção evangélica, pastoral e misericordiosa àquele casal que atesta com o seu amor o amor de Deus?

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