Uma benção católica para os casais homossexuais. Seis teses teológicas e pastorais

Foto: PxHere

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

05 Janeiro 2020

A página Gionata.org, 19-12-2019, publicou um trecho traduzido do texto de Georg Trettin contido no livro “Mit dem Segen der Kirche? Gleichgeschlechtliche Partnerschaft im Fokus der Pastoral” [Com a bênção da Igreja? As uniões homossexuais na ótica da pastoral], organizado por Stephan Loos, Michael Reitemeyer e o próprio Trettin (Ed. Herder, 2019, pp. 140-157).

Trettin, nascido em 1956, é um teólogo católico e revisor alemão casado.

(Foto: Divulgação)

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quando duas pessoas estreitam um vínculo vitalício, ele nasce de uma decisão recíproca, livre e manifesta. Quando se trata de um homem e de uma mulher, a Igreja Católica reconhece na sua união a implementação do plano de Deus para a sua criação e um sinal que produz salvação, um sacramento. Mas, quando se trata de duas pessoas do mesmo sexo, a Igreja Católica não vê um sacramento na sua união: ela não está prevista pela ordem da criação. O que é, então?

Uma relação de ordem inferior, uma expressão do mal? Ou algo que não é possível, que não existe? Certamente, ela é interpretada como uma persistente violação da moral sexual.

Seja o que for, o vínculo é válido diante de Deus, porque tudo o que é sofrido ou realizado pelas pessoas tem valor diante de Deus. Portanto, isso também vale para o que acontece quando dois seres humanos se entregam um ao outro para se ajudar mutuamente. Nesse caso, Deus se alegra e espera com eles, porque Deus é amor e nos liberta para o amor. Portanto:

Tese 1: O vínculo vitalício, mesmo entre duas pessoas do mesmo sexo, vale diante de Deus mesmo sem a bênção da Igreja.

No matrimônio tradicional, os ministros são os próprios esposos, que, mediante o seu consentimento, dão-se mutuamente o sacramento. No caso das uniões homossexuais, a promessa não pode ocorrer como sacramento; mas ocorre na consciência dos parceiros e, portanto, deve ser respeitada. Se uma bênção da Igreja não é possível, ela não é sequer necessária. Do que se precisa mais, então? Se o casal percebe, em consciência, a própria união como um casamento, a Igreja não tem o poder de cancelar essa fé.

Com efeito, para muitos casais, essa bênção seria importante: para celebrar a sua união, para compartilhar alegria com familiares e amigos, para agradecer a Deus e para receber o seu consentimento. Certamente, os parceiros podem pedir a sua bênção diretamente a Deus. Mas um gesto evidente e público tornaria a bênção ainda mais concreta. Seria um gesto de autoridade, alinhado com o espírito do Ritual de Bênçãos.

No caso de uma recusa, porém, a validade do vínculo não é posta em discussão, pois ela tem significado diante de Deus, e não diante dos homens. A presença de Deus não desaparece. Todavia, uma bênção seria um sinal relevante: de reconhecimento, consentimento, força, empatia e apoio. A transmissão visível do amor e da atenção de Deus.

Chega um casal e pede que a Igreja o abençoe; mais exatamente: pede que um assistente espiritual reze a Deus para que Ele sustente o casal, fortaleça o bem dessa relação, a fidelidade, o respeito, a atenção um pelo outro no seu caminho futuro. É um caminho de aliança, e a bênção traria força e consolação.

Negar a bênção seria humanamente gentil e espiritualmente sábio?

Tese 2: As objeções a uma bênção para os casais homossexuais são fracas demais para que a Igreja as leve em consideração.

O Magistério, em busca de uma pureza fora do tempo, não consegue escutar as mulheres e os homens reais, que deveriam ser o lugar do encontro com Deus. A evolução das relações humanas produziu novas formas de vida social. Podemos imaginar uma criação divina que vê o ser humano como necessitado de uma ajuda (Gn 2,18) e, ao mesmo tempo, que nega perpétua e irrevogavelmente essa ajuda às pessoas concretas, na sua realidade pessoal e histórica?

Não seria coerente com o amor de Deus não acolher dois seres humanos que cuidam um do outro, que entendem a sua vida como um exercício de amor em crescimento. E o amor significa não apenas desejo, mas também amizade; não exploração egoísta, mas respeito e assistência; não instrumentalização, mas dedicação. A sexualidade aqui se torna expressão de acolhida recíproca.

Pedir a bênção de Deus é um sinal de fidelidade à criação e à relação com Deus, pois a bênção deveria reforçar o afeto e a capacidade de carregar os pesos uns dos outros; a bênção expressa nostalgia por uma reconciliação, até mesmo com a Igreja que sempre impediu as relações homossexuais, e louvor a Deus que ama e sustenta a nossa liberdade (p. 144).

Que Deus seria, se a Igreja não fosse livre de rezar a Ele para que abençoe duas pessoas, para que fortaleça o seu amor e a intenção de ser uma ajuda uma à outra? Negar a bênção de Deus equivale a negar a misericórdia do Deus-conosco, do Deus de Jesus (pp. 145-146). A Igreja Católica realmente precisa disso?

Tese 3: Nós abençoamos os casais homossexuais quando e porque eles nos pedem para fazê-lo.

Uma Igreja pronta para rezar a Deus para ajudar um casal homossexual e fortalecer o bem que vive nessa relação já carrega no seu coração a bênção esperada. Só poderia e deveria dar-lhe expressão. É surpreendente que um casal homossexual peça a benção no seio da Igreja Católica Romana. Ao longo da história, ela sempre desvalorizou, marginalizou, negou e perseguiu o amor homossexual. Essa história ainda não foi totalmente transcorrida, não foi superada nem contada a fundo. As feridas são numerosas, profundas e atuais.

Por isso, muitas pessoas LGBT abandonaram a Igreja Católica Romana. Portanto, se algumas pessoas homossexuais ainda a consideram digna e capaz de rezar a Deus por uma bênção, a Igreja Católica deveria ser apenas sinceramente grata e buscar uma reconciliação, consciente da própria culpa e da misericórdia de Deus.

Oferecer aos casais homossexuais a possibilidade de uma bênção seria um grande sinal de conversão por parte da Igreja Católica devido à injustiça cometida. E ajudaria a restaurar tanto a Igreja Católica quanto as pessoas homossexuais.

Tese 4: A Igreja mostra – por meio da bênção – arrependimento e conversão.

Essa nova atitude pastoral deveria valer para todos os marginalizados e os excluídos. A busca da ovelha perdida e o caminho em direção às outras mudam tudo: mudam as outras ovelhas, mudam também o pastor, dão-lhe outra perspectiva e outra sensibilidade. Assim:

Tese 5: Uma Igreja aberta também a lésbicas, homossexuais, transexuais e intersexuais é uma Igreja mais próxima do Evangelho.

Ou seja, torna-se uma Igreja capaz de encontrar e de levar ao encontro com o Ressuscitado: a criação e o feliz anúncio crescem na ajuda mútua, na solidariedade, na identificação com as minorias. Nesse sentido, a bênção para os casais homossexuais se converte em uma bênção para a Igreja.

O medo ainda existente do contato com o tema LGBT pode diminuir por meio do contato e do diálogo com essas pessoas e com as suas experiências reais. De fato, o pastor deve “ir em busca” da ovelha perdida e carregá-la sobre seus ombros.

Tese 6: A bênção dos casais homossexuais será acompanhada, ainda por algum tempo, pela marginalização.

Está viva na Igreja a preocupação de que o ritual da bênção não seja confundido com o do sacramento do matrimônio. Essa preocupação, na realidade, esconde o medo de perder poder e é a resposta para perguntas que não são mais feitas pela sociedade. Para o ser humano de hoje, são importantes os valores da vida e da relação. Se a Igreja Católica Romana, devido às pressões dos grupos conservadores, resistir à misericórdia e à acolhida, permanecerá em uma posição de marginalização e de incoerência.

“Qual é a importância para a Igreja da posição – precária em muitos países – de lésbicas e homossexuais? Quando as preocupações e as demandas das pessoas LGBT vão se tornar as preocupações e as demandas da nossa Igreja?” (p. 150).

Certamente, para a Igreja Católica, as uniões homossexuais não podem ser equiparadas ao matrimônio. Mas a Amoris laetitia 123-125 estabelece que a essência do vínculo conjugal é de natureza ética e diz respeito à disponibilidade de fazer um projeto de vida juntos. O dom recíproco, também das pessoas homossexuais, concorda com os valores do Evangelho e, portanto, deve ser considerado um reflexo da presença de Deus na vida humana e um sinal de desenvolvimento e renovação da criação.

Em virtude disso, seria plausível pensar na bênção: sem impô-la a ninguém, sem excluir ninguém. Uma ocasião de alegria, reconhecimento e esperança. Um modo de restituir dignidade aos casais. Uma experiência de fé. A Igreja poderia abençoar uma união que já ocorreu em âmbito civil, sem que o matrimônio seja celebrado sacramentalmente (pp. 152-153).

A bênção comunica a companhia de Deus; ao mesmo tempo, o casal expressa o seu desejo de ser reconhecido e confirmado na Igreja, casa da fé própria e comum. Por parte da Igreja, a bênção seria um gesto de respeito, acolhida e fraternidade pelo vínculo de amor e de vida entre duas pessoas.

* * *

Texto original: “Segen für gleichgeschlechtliche Paare. Sechs Thesen und ein Ausblick”.

Leia mais