26 Agosto 2026
Em meio a um cessar-fogo, o exército israelense continua bombardeando o Líbano, ameaçando os ecossistemas com um colapso irreversível. Bombeiros e especialistas denunciam o ecocídio cometido pelo Estado judeu, que provoca deliberadamente esses incêndios.
A reportagem é de Philippe Pernot, publicada por Reporterre, 25-08-2026. A tradução é do Cepat.
Nabatieh está em chamas. Nos arredores desta cidade situada no sul do Líbano, o exército israelense está criando um “cinturão de fogo”, bombardeando as colinas e florestas. Bosques, olivais e campos estão queimando há semanas, enquanto Israel intensifica seus ataques com fósforo branco, fogo de artilharia e granadas incendiárias, matando civis diariamente, apesar de um cessar-fogo em vigor desde abril.
“Estamos combatendo incêndios todos os dias! Noventa por cento deles são causados por Israel”, estima Hussein Fakih, diretor do centro regional de Nabatieh, da Direção Geral da Defesa Civil Libanesa, o equivalente ao Corpo de Bombeiros na França. “Este ano está sendo realmente difícil: como moradores e agricultores fugiram, as plantações estão em pousio e pegam fogo muito rapidamente”, suspira durante uma entrevista por telefone para Reporterre.
O exército israelense parece determinado a conquistar a colina Ali Taher, um local estratégico com vista para a cidade. A escalada militar representa uma ameaça ainda maior para o Líbano, enquanto seus bombeiros precisam combater as chamas correndo o risco de serem alvejados.
135 mortes em serviços de saúde só em 2026
“É extremamente perigoso e difícil para nós nos aproximarmos dos incêndios iniciados na ‘zona de contato’, porque o inimigo israelense pode nos bombardear a qualquer momento. Somos forçados a coordenar com o exército libanês e a força interina da ONU no Líbano para obter acesso e, às vezes, pagamos um preço alto”, denuncia Hussein Fakih.
Segundo ele, dez quartéis da Defesa Civil foram completamente destruídos por Israel este ano no sul do país, resultando na morte de seis bombeiros e 23 feridos. O governo libanês relata pelo menos 400 mortes entre profissionais da saúde – bombeiros, médicos e paramédicos – desde o início da guerra em 7 de outubro de 2023, incluindo 135 só em 2026.
Nos dias que se seguiram ao ataque do Hamas e ao início da guerra genocida em Gaza, o Hezbollah e Israel trocaram tiros, levando a várias fases de ofensivas e cessar-fogos que deixaram mais de 8.000 mortos e 20.000 feridos no Líbano. Reporterre pôde observar incêndios provocados deliberadamente pelo exército israelense em áreas de fronteira, usando sinalizadores, fósforo branco e fogo de artilharia, bem como disparos israelenses contra bombeiros que tentavam apagar as chamas.
“Nós documentamos como soldados israelenses atearam fogo deliberadamente à vegetação espalhando gasolina, usando drones ou sinalizadores em plena luz do dia, ou até mesmo utilizando um trabuco medieval para lançar materiais incendiários através da fronteira”, enumera Hicham Younes, presidente da organização ambientalista Green Southerners.
“A queima da vegetação foi, portanto, intencional e não uma consequência acidental de operações militares”, acrescenta o ativista, “preocupado” com a recorrência desses incidentes. Nas terras altas de Kfar Chouba, ele documentou incêndios repetidos em um período de apenas três a quatro dias, assim como na área arborizada de Jabal al-Rihane, na região de Jezzine, e na colina Ali Taher, em Nabatieh.
“Quando incidentes semelhantes ocorrem em um curto período e em diferentes áreas florestais, eles devem ser examinados como parte de uma tendência mais ampla, em vez de serem considerados incêndios isolados: trata-se de um ecocídio, que é parte integrante do conflito e não uma consequência secundária”, afirma.
Mais de 16.000 hectares foram queimados no Líbano desde outubro de 2023, segundo as autoridades libanesas. Este ano, os incêndios são “dramáticos”, afirma George Mitri, professor de ciências ambientais da Universidade de Balamand e especialista em políticas de gestão de incêndios florestais no Líbano, em entrevista via WhatsApp à Reporterre.
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Destruição dos ecossistemas
“Nós já documentamos 5.000 hectares queimados desde o início do ano, a grande maioria causada por bombardeios israelenses. Apenas 10 a 15% são devido à seca”, denuncia. Segundo Mitri, os israelenses estão usando deliberadamente glifosato para tornar a vegetação mais inflamável, além de fósforo branco para criar múltiplos focos de incêndio extremamente difíceis de conter, já que são autossustentáveis e só se extinguem quando cobertos com terra.
“Esta é a receita perfeita para desencadear grandes incêndios. O que observamos ao mapear essas áreas queimadas é que os ataques se repetem ao longo de vários anos em diversos ‘pontos críticos’, principalmente ao longo da fronteira: Israel está tentando destruir a cobertura vegetal nessas áreas”, explica. Ao sul da “linha amarela” que declarou, o exército israelense destruiu cerca de 50 assentamentos para criar uma “zona de amortecimento”.
No entanto, o Líbano – assim como toda a região do Mediterrâneo – está se tornando cada vez mais vulnerável às mudanças climáticas, que exacerbam as secas e as doenças. Os cedros, pinheiros e carvalhos da vegetação rasteira libanesa estão particularmente ameaçados, assim como as espécies de plantas e animais que ali vivem, algumas das quais são raras e endêmicas.
“Se continuarmos nesse caminho, estamos caminhando para a degradação do solo, o declínio da biodiversidade e até mesmo o colapso dos ecossistemas florestais do sul do Líbano, que perderiam, assim, sua capacidade de regeneração”, alerta George Mitri. “Esses olivais, pomares e florestas também são extremamente importantes cultural e economicamente para o povo libanês”.
Para Hicham Younes, os resíduos de munições, especialmente os metais pesados e outros contaminantes, “podem exercer uma pressão adicional, menos visível”, sobre o solo e a restauração ecológica. Isso exigiria uma avaliação adequada para determinar a extensão dos danos, algo que o governo libanês, arruinado, dificilmente fará.
“A resiliência ecológica é limitada. Os ecossistemas podem absorver perturbações e se recuperar, mas não indefinidamente quando submetidos a pressões continuadas e cumulativas”, afirma Hicham Younes, que denuncia isso como um verdadeiro “crime de guerra”.
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