Mais de 80% dos municípios brasileiros são vulneráveis a desastres climáticos

Foto: Lauro Álves | Secom RS

Mais Lidos

  • Em nome de Deus: quando a política se apropria do Evangelho. Artigo de Martin Scheuch

    LER MAIS
  • “Os eleitores têm que pressionar os candidatos a se comprometerem a transformar a política de adaptação climática numa política de longo prazo, numa política de Estado com medidas emergenciais, que são, às vezes, necessárias, mas também com medidas de longo prazo”, insiste o cientista

    Plano de adaptação às mudanças climáticas: Brasil já fez lição de casa; é preciso implementá-la com urgência. Entrevista especial com Paulo Artaxo

    LER MAIS
  • O futuro em disputa: algoritmos, extrema-direita e autoritarismo. Destaques da Semana no IHUCast

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

18 Agosto 2026

Levantamento feito pelo Observatório do Clima na plataforma AdaptaBrasil revela suscetibilidade e riscos de alagamentos, enxurradas e deslizamentos de terra.

A reportagem é de Aldem Bourscheit, publicada por Observatório do Clima, 17-08-2026.

O Brasil tem cerca de 4.500 municípios com vulnerabilidade média, alta ou muito alta a desastres geo-hidrológicos. Isso significa que mais de 80% das cidades brasileiras estão mais suscetíveis a impactos gerados por inundações, enxurradas, alagamentos e deslizamentos de terra.

O levantamento, inédito, foi feito pelo Observatório do Clima a partir dos dados do Sistema de Informações e Análises sobre Impactos das Mudanças Climáticas (AdaptaBrasil), do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCTI). Para calcular a vulnerabilidade, a plataforma combina a sensibilidade que uma cidade tem a eventos climáticos extremos com sua capacidade adaptativa.

Índice de Vulnerabilidade dos municípios brasileiros a riscos geo-hidrológicos (Fonte: AdaptaBrasil/MCTI).

Quando se olha para o risco desses eventos causarem danos, a situação é ainda mais preocupante. A análise do OC mostra que 68% das cidades brasileiras, ou 3.769 municípios, têm risco médio, alto ou muito alto de inundações, enxurradas e alagamentos. Em 1.513 cidades, ou 27% do total do país, o risco é alto ou muito alto.

Para os deslizamentos de terra, 53% das cidades brasileiras, ou 2.930 municípios, têm risco médio, alto ou muito alto. Em 1.041 cidades, cerca de 19% do total do país, o risco é alto ou muito alto.

Entre as capitais, Salvador (BA) tem a maior soma dos riscos de inundações e deslizamentos, seguida de Belém (PA), Manaus (AM) e Macapá (AP). O Nordeste concentra cinco das dez capitais com os maiores riscos somados, incluindo Recife (PE), Maceió (AL), João Pessoa (PB) e Aracaju (SE).

Mas os números nacionais escondem grandes desigualdades, pois a exposição a riscos varia muito entre regiões, cidades e até bairros, dependendo de onde e como as pessoas vivem. Ou seja, renda, infraestrutura e acesso a serviços públicos também pesam na capacidade de enfrentar e de se recuperar dos impactos.

Índice de Riscos para inundações, enxurradas e alagamentos (esquerda) e a deslizamento de terra (direita) (Fonte: AdaptaBrasil).

Ameaças regionalizadas

O Adapta Brasil mostra riscos distintos em todo o país. As inundações são mais intensas na Amazônia, nas grandes bacias hidrográficas e em áreas urbanas. Já os deslizamentos ameaçam mais as serras do Sudeste e do Sul e partes do litoral nordestino.

As projeções da base indicam que os riscos aumentarão nas próximas décadas, mesmo nos cenários climáticos mais favoráveis. Em muitas capitais, a diferença entre os cenários otimista e pessimista é pequena, reforçando que o país precisa se adaptar rapidamente.

Para Henrique Frota, diretor-executivo do Instituto Pólis, a ameaça natural é apenas parte do problema, pois a exposição e a vulnerabilidade estão diretamente ligadas às condições socioeconômicas. “Famílias de menor renda tendem a ocupar áreas mais expostas e dispõem de menos recursos para enfrentar eventos extremos”, lembrou.

Tais diferenças podem ficar mais claras após os desastres. Frota lembra que as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul atingiram várias classes sociais, mas as de maior renda tiveram melhores condições de se abrigar e retomar a vida. “No pós-desastre, as questões socioeconômicas voltam a ser centrais”, afirmou.

Diante disso, os governos precisam se preparar para cenários em que soluções individuais não bastam. É necessário, por exemplo, evitar reconstruir cidades exatamente como eram. “Uma adaptação séria é preventiva e não deve reproduzir desigualdades nem infraestruturas que já eram vulneráveis”, detalhou.

Diosmar Santana Filho, geógrafo e pesquisador na Associação de Pesquisa Iyaleta, chega a um diagnóstico similar a partir de estudos no Norte e Nordeste. “É um erro analisar as mudanças climáticas no Brasil sem considerar as diferenças socioeconômicas, pois as cidades são estruturalmente desiguais”, destacou.

“Ocupações mais recentes, periféricas e interiorizadas tendem a ter menos saneamento, drenagem, transporte, regularização fundiária e monitoramento, tornando-se mais vulneráveis a diversos riscos, inclusive os climáticos”, afirmou o especialista.

Reforçar a prevenção

Tornar esse cenário menos ameaçador exige investimento público pesado, planejamento e capacidade de execução. Frota reconhece avanços recentes, como os da Secretaria Nacional de Periferias e do programa Periferia Viva.

Na primeira etapa do Novo PAC, foram alocados R$ 5,3 bilhões para o Periferia Viva, além de R$ 4,8 bilhões para drenagem urbana e R$ 1,67 bilhão para contenção de encostas, levantou o OC. Ainda assim, Frota considera os recursos insuficientes diante da demanda.

“Obras de drenagem e de prevenção de deslizamentos são muito caras. Grande parte dos municípios depende de repasses federais para executá-las”, afirmou.

Mas o problema não é só financeiro, já que as prefeituras precisam de equipes capazes de planejar e executar projetos que integrem temas como habitação, urbanismo, assistência social, meio ambiente e Defesa Civil.

Além disso, boa parte da infraestrutura brasileira foi planejada para problemas conhecidos, e não para a nova escala de extremos climáticos. “Como programas como o Minha Casa, Minha Vida incorporam drenagem e segurança diante de chuvas extremas?”, questionou.

“Nenhum estado ou município brasileiro possui infraestrutura adequada para enfrentar a crise climática”, afirmou Diosmar Filho. “Estamos diante de uma realidade nunca vivida”, resumiu.

Adaptação nos municípios

Conforme o especialista da Iyaleta, iniciativas como a Adapta Brasil são estratégicas para ampliar as capacidades de gestão pública. “O desafio é colocar os dados a serviço da vida da população, transformá-los em melhores políticas e investimentos”, agregou.

Os planos diretores municipais também são peças importantes da adaptação. Podem frear a ocupação de áreas naturais e de risco, melhorar transporte, saneamento e drenagem, recuperar bacias hidrográficas e ampliar a oferta de moradias seguras. “Pessoas vivendo em áreas de risco também revelam a falta de terra acessível e segura dentro das cidades”, lembrou Filho.

A adaptação também precisa ganhar mais peso na política climática brasileira. Filho defende revisões na NDC robusta que ampliem a capacidade de adaptação do país já na próxima década. Isso envolve de infraestrutura tradicional a soluções verdes, mudanças nos modelos de transporte, uso do solo e planejamento das cidades.

“Municípios, estados e União precisam fazer a estrutura pública funcionar a serviço da população e equilibrar os investimentos em mitigação com a urgência da adaptação à crise do clima”, ressaltou.

Filho defende, ainda, que a adaptação não seja mais tratada apenas como resposta a desastres. “Num país cada vez mais exposto aos extremos, ela também passa a ser uma condição para manter as cidades funcionando e proteger a vida de quem mora nelas”, disse. “Adaptação é uma nova forma de desenvolvimento”, avaliou.

Frota reforçou que os esforços de mitigação e de adaptação precisam avançar juntos e rapidamente. “Temos que trabalhar agora em todas as frentes possíveis”, afirmou. “Não dá para escolher. Tudo passa a ser fundamental do ponto de vista de uma agenda de ação climática realmente responsável”.

Leia mais