Falta de projetos trava recursos para prevenção de desastres climáticos no RS

Foto: Gustavo Mansur | Palácio Piratini

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18 Agosto 2026

Não é por falta de dinheiro que a recuperação das áreas afetadas pelas chuvas históricas de maio de 2024 no Rio Grande do Sul ainda está travada. O Valor destaca que, a despeito do governo federal ter disponibilizado R$ 6,5 bilhões para os municípios atingidos pelo desastre climático no RS, nenhum valor foi desembolsado até agora. O motivo? Faltam projetos.

A informação é publicada por ClimaInfo, 18-08-2026.

Tem recurso no Orçamento, tem recurso financeiro. Eu preciso que os atores [estado e municípios] façam essas obras acontecerem, para que a gente esteja mais preparado para os eventos extremos, que estão cada vez mais impactantes”, afirmou o ministro das Cidades, Vladimir Lima.

A falta de projetos não se limita ao caso gaúcho. O Orçamento da União de 2025 destinou R$ 532 milhões a obras de drenagem urbana e de contenção de encostas em todo o país. Desse total, míseros R$ 1,36 milhão foram pagos por entrega de serviço, conclusão de obras ou de etapas delas.

Os obstáculos não são novos. Muitos municípios não têm condições técnicas para elaborar um projeto conforme os requisitos da Caixa, gestora dos recursos. O processo é complexo e demorado e, por isso, não é incomum que os projetos sejam questionados na Justiça. No caso do RS, a amplitude do desastre de 2024 também é um problema para o planejamento das obras.

“São obras de grande porte e alta complexidade de engenharia, em áreas extremamente urbanizadas que tiveram de ser redimensionadas após o que aconteceu em 2024”, explicou Pedro Capeluppi, secretário da Reconstrução Gaúcha. “O fato de ter o recurso lá é muito positivo, mas temos que lidar com essas expectativas das pessoas, de achar que, tendo dinheiro, basta apertar um botão e a obra é executada.”

A ansiedade com a lentidão das obras no RS é justificada pelo momento atual, em que o estado enfrenta os efeitos de um El Niño já forte, com a possibilidade de novos desastres climáticos à medida que o fenômeno tende a ganhar ainda mais força. Muitos gaúchos ainda não reconstruíram suas vidas depois da devastação de dois anos atrás e temem que novas chuvas possam intensificar ainda mais esse sofrimento.

“A maioria das pessoas ainda sofre as consequências da enchente para a saúde mental. Eles perderam absolutamente tudo. Incapazes de reconstruir suas casas, a maioria entrou em depressão profunda ”, afirmou ao Guardian Luís Rogério Machado, o “Jamaika”, líder comunitário do Sarandi, em Porto Alegre.

“Nossa casa ficou completamente submersa. Perdemos tudo”, disse Suelen Telles, professora e moradora do Sarandi. “Já voltamos para casa, mas estamos apavorados com a possibilidade de perder tudo de novo. Todos na nossa rua estão com medo. Mais uma vez, o que será de nós?”

O Valor destacou as medidas do governo do RS para prevenir novos desastres climáticos. O estado planeja investir R$ 15 bilhões em resiliência, com a ampliação dos sistemas de monitoramento e a realocação de famílias em áreas de risco. Outra preocupação, especialmente com o El Niño atual, é a produção rural, que deve sofrer um choque devido às chuvas intensas entre setembro e dezembro, justamente em uma janela importante para o plantio.

Uma iniciativa importante para ampliar a resiliência é o projeto RioS – Resiliência, Inovação e Obras para o Futuro do RS, concebido pelo governo gaúcho em parceria com o BNDES e com a participação de empresas como Deloitte e Climatempo. Segundo o Valor, o projeto pretende realizar um diagnóstico de vulnerabilidades, com o objetivo de desenhar soluções para aumentar sua resiliência climática.

Em tempo

Para o arquiteto e engenheiro italiano Carlo Ratti, o desafio das cidades em um contexto de crise climática não está em tentar dominar a natureza com engenharia pesada, mas em criar sistemas adaptativos que a levem em consideração. Em entrevista à Folha, Ratti, que também é diretor do MIT Senseable City Lab, usou o caso de Porto Alegre como um exemplo do fracasso dos modelos de intervenção de grande porte e da necessidade de se buscar um sistema vivo e responsivo aos desafios do clima. “Com tecnologias de sensoriamento e dados de solo em tempo real alimentando comportas, podemos criar infraestruturas que funcionam como um sistema nervoso, e não como uma parede”, pontuou. 

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