18 Agosto 2026
"Assim, a sinodalidade pode ser apresentada como experiência concreta de comunhão, participação e missão, capaz de formar comunidades mais abertas, corresponsáveis e missionárias", escreve Miguel Elias.
Miguel Elias é diácono e teólogo, com especialização em Filosofia Geral e em Teologia Espiritual da Igreja. É docente de Doutrina Social da Igreja na Escola de Formação Diaconal Santo Efrem, da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro — ArqRio.
Eis o artigo.
A propósito do artigo "Para lá da palavra sinodalidade", do padre Miguel Pedro Melo, publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos — IHU em 14 de agosto corrente, esta nota propõe uma aproximação teológico-pastoral voltada à recepção sinodal. O objetivo não é resumir novamente a argumentação do autor, mas destacar sua atualidade e sugerir mediações de linguagem que favoreçam sua incidência pastoral.
A reflexão de Melo é teologicamente consistente e fecunda. O artigo situa a sinodalidade para além do plano administrativo ou funcional, compreendendo-a como experiência humana de escuta, abertura e discernimento. Seu mérito está em recordar que a sinodalidade não se reduz a uma técnica de consulta ou a um modelo organizativo. Ela pede uma compreensão da pessoa como alguém capaz de acolher o outro e de se deixar interpelar pelo encontro.
Essa intuição encontra clara ressonância no Magistério recente da Igreja. O Papa Francisco recordou que o Sínodo não é um parlamento nem uma sondagem de opiniões, mas um acontecimento eclesial conduzido pelo Espírito Santo. Na Nota de acompanhamento ao Documento Final, afirma-se: “Nos diversos momentos do caminho do Sínodo, que iniciei em outubro de 2021, estivemos à escuta do que o Espírito Santo está a dizer às Igrejas neste momento”. O mesmo texto acrescenta que o Documento Final “recolhe os frutos de um caminho marcado pela escuta do Povo de Deus e pelo discernimento dos Pastores”, indicando os passos para “viver a comunhão, realizar a participação e promover a missão que Jesus Cristo lhe confiou”.
Ao mesmo tempo, a densidade conceitual do Artigo convida a uma mediação pastoral. Expressões como “visitação”, “hospitalidade ontológica”, “abertura transcendental” e “humanização e divinização” são ricas e adequadas ao campo teológico-filosófico. Contudo, para uma recepção mais ampla, a meu juízo, podem ser acompanhadas por uma linguagem mais próxima da experiência cotidiana das comunidades. Trata-se menos de simplificar o pensamento do autor e mais de favorecer sua comunicação.
Nesse horizonte, a gramática do Documento Final do Sínodo oferece uma ponte importante: escuta recíproca, conversação no Espírito, corresponsabilidade, discernimento comunitário, transparência, participação dos batizados e missão. Essas expressões não diminuem a profundidade da reflexão. Antes, tornam mais visível sua incidência pastoral. A categoria de “visitação”, por exemplo, pode ser apresentada como a experiência pela qual a escuta real do outro modifica a maneira de julgar, decidir e agir em comunidade.
A contribuição do artigo pode ganhar ainda maior alcance se for explicitamente relacionada à etapa de recepção e implementação do Sínodo. O Documento Final orienta práticas concretas de conversão pastoral. Por isso, a antropologia da escuta desenvolvida por Melo pode ser traduzida em atitudes verificáveis: escutar antes de decidir; reconhecer vozes pouco ouvidas; favorecer processos de discernimento participativo; acolher tensões sem reduzi-las a polarizações; e exercer a autoridade como serviço à comunhão e à missão. A Saudação final do Papa Francisco confirma essa direção ao falar de uma Igreja “à escuta do Povo de Deus” e ao pedir que se possa “amplificar a voz desse sussurro, sem obstruí-la; abrir portas, sem erguer muros”.
Também o Magistério do Papa Leão XIV ajuda a formular essa recepção em linguagem pastoral contemporânea. Na homilia do Jubileu das equipes sinodais e dos órgãos de participação, ele afirmou que tais instâncias expressam uma Igreja na qual “as relações não respondem à lógica do poder, mas à do amor”. E acrescentou: “A regra suprema na Igreja é o amor: ninguém é chamado a comandar, todos são chamados a servir; ninguém deve impor as próprias ideias, todos devemos ouvir-nos reciprocamente; ninguém é excluído, todos somos chamados a participar; ninguém possui toda a verdade, todos devemos procurá-la juntos e humildemente”. Essa formulação traduz, de modo simples e exigente, a dimensão antropológica da sinodalidade como estilo de relação, escuta e serviço.
Em síntese, a leitura proposta por Melo oferece uma contribuição relevante ao preservar a sinodalidade de compreensões apenas procedimentais. Sua força está em mostrar que a escuta é mais do que método: é disposição interior e caminho de conversão. Para a recepção eclesial mais ampla, parece oportuno aproximar essa profundidade teológica da linguagem do Documento Final do Sínodo e do Magistério recente. Assim, a sinodalidade pode ser apresentada como experiência concreta de comunhão, participação e missão, capaz de formar comunidades mais abertas, corresponsáveis e missionárias.
Referências
MELO, Miguel Pedro. Para lá da palavra sinodalidade. Instituto Humanitas Unisinos – IHU, São Leopoldo (RS), 14 ago. 2026.
FRANCISCO. Nota de acompanhamento ao Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Vaticano: Santa Sé, 2024.
SÍNODO DOS BISPOS. Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Vaticano: Santa Sé, 2024.
FRANCISCO. Saudação final na conclusão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Vaticano: Santa Sé, 2024.
LEÃO XIV. Homilia no Jubileu das equipes sinodais e dos órgãos de participação. Vaticano: Santa Sé, 2025.
Leia mais
- Para lá da palavra sinodalidade. Artigo de Miguel Pedro Melo
- Para uma sinodalidade verdadeiramente codecisional. Artigo de Jesús Martínez Gordo
- Sinodalidade: quem decide? Artigo de Flávio Lazzarin
- Teólogo: sinodalidade e democracia não são mutuamente exclusivas
- Sinodalidade e o novo paganismo na política. Artigo de Massimo Faggioli
- Sinodalidade católica pode ser resposta à crise da democracia. Artigo de Massimo Faggioli
- Papa aos bispos dos EUA: “Sinodalidade não significa democracia”
- Bispos alemães aprovam os estatutos da futura Conferência Sinodal
- Sinodalidade e a polarização evidente nas famílias, sociedades, política e na Igreja
- O Papa blinda o Sínodo: "A sinodalidade é um estilo, uma atitude que nos ajuda a ser Igreja"
- Papa Leão XIV dá a primeira indicação de como ele pode mudar a "Sinodalidade". Artigo de Charles Collins
- Após a eleição de Leão XIV: O que vem a seguir para o Sínodo Mundial?
- Leão XIV, dom da sinodalidade dos últimos anos. Artigo de Claudio Giuliodori
- Quem tem medo do senso crítico? Tensões em uma Igreja pensante. Artigo de Gabriel Vilardi