06 Agosto 2026
"O espetáculo que transcende o direito, a campanha eleitoral encenada como um dos círculos do Inferno dantesco. No entanto, nem todos caem nessa subliminar demonstração de vingança. Foi uma petição do grupo 'Let the Animals Live' que travou o processo, forçando os juízes a considerar os crocodilos como uma espécie protegida, inadequada para povoar os insalubres tanques da prisão."
O artigo é de Luca Foschi, jornalista, publicado por Avvenire. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Todos a salvo, por enquanto, os ferozes prisioneiros fugitivos e os indefesos crocodilos. Glória à democracia. No domingo, o Tribunal Distrital de Jerusalém emitiu uma liminar bloqueando a transferência de um contingente considerável de predadores de presas afiadas para os fossos já escavados ao redor da Prisão de Ketziot, prestigiosa instalação de detenção construída entre as miragens desérticas do Negev.
O objetivo da iniciativa, lançada pelo Ministro da Segurança de Israel, Itamar Ben-Gvir, príncipe do sionismo religioso e armado, era confiar a segurança de uma ala prisional ocupada pelos milicianos palestinos ao infalível esquadrão reptiliano. Se o branco lençol amarrado às grades tivesse escapado dos guardas, dos holofotes das torres de vigilância e da alta tecnologia prisional, pares de opalescentes olhos rentes à superfície da água teriam, sem dúvida, detectado a presença dos anômalos objetos nadantes; os longos focinhos teriam captado o cheiro denso do terror, as mandíbulas jurássicas teriam posto fim à fuga. Felizmente, a tão difamada Idade Média sempre consegue remediar as falhas da pós-modernidade.
No desafortunado caso em que, como sugerem as estatísticas, os palestinos segregados tivessem sucumbido ao azar, o aquário teria se acrescentado aos golpes de cena persecutórios de Ben-Gvir, várias vezes retratado no último ano durante suas incursões midiáticas ao "inferno", orgulhosamente Cérbero, Minos e Caronte ao mesmo tempo: as ameaças a um emaciado, irreconhecível Marwan Barghouti, o "Mandela palestino"; as imagens de Gaza destruída penduradas nos lúgubres corredores da prisão; os vídeos produzidos durante as inspeções-surpresa nas celas dos milicianos do Hamas, algemados, vendados e ajoelhados, exatamente como as tripulações internacionais da Flotilha com destino a Gaza.
O espetáculo que transcende o direito, a campanha eleitoral encenada como um dos círculos do Inferno dantesco. No entanto, nem todos caem nessa subliminar demonstração de vingança. Foi uma petição do grupo "Let the Animals Live” que travou o processo, forçando os juízes a considerar os crocodilos como uma espécie protegida, inadequada para povoar os insalubres tanques da prisão.
Há um mês, a ministra do Meio Ambiente, Idit Silman, ignorando a recomendação da Autoridade de Natureza e dos Parques preocupada com o destino dos animais, do meio ambiente, dos trabalhadores e dos prisioneiros, havia reclassificado os répteis como" animais silvestres mantidos sob cuidados por humanos", portanto perfeitamente adaptados a pântanos artificiais.
"As denúncias sobre possíveis danos aos crocodilos exigem maior aprofundamento e justificam uma ordem para bloquear a transferência, bem como qualquer atividade destinada a identificar ou preparar os animais para o deslocamento", escreveu o juiz Avraham Rubin na decisão. Ben-Gvir e Silman foram intimados a responder até quarta-feira, após o que será proferida uma sentença definitiva.
Contudo, tudo estava pronto, segundo o Ministério da Segurança — desde os procedimentos de cuidados com os répteis até as celas destinadas ao seu merecido descanso. O custo total, apenas 7 milhões de dólares.
Tempos difíceis, se até mesmo a “South Florida detention facility”, mais conhecida como "Alligator Alcatraz", a prisão para migrantes estadunidenses foi fechada em 25 de junho, após menos de um ano de operação. Tratava-se de uma estrutura temporária, considerada custosa demais e expostas às recriminações humanitárias e ambientalistas. Rendições amargas, incompreensíveis.
No entanto, no site "Let the Animals Live" não aparecem crocodilos felizes e orgulhosos, muito menos palestinos; em vez disso, eles são curiosamente substituídos por Bronson, um pastor-alemão que “merece a felicidade”, e o adorável gatinho Rashrash.
Os melhores votos que possam encontrar logo um lar caloroso e acolhedor, um refúgio protegido do fragor espalhado pelos tambores da guerra. Homens e crocodilos, como todo mundo sabe, que se contentem com as lágrimas.
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