“A seleção natural não premiou o mais forte, mas aquele que melhor aprendeu a cooperar”. Entrevista com Ignacio Martínez Mendizábal

Foto: Canva Pro | Getty Images

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29 Julho 2026

Ignacio Martínez Mendizábal é professor titular de Antropologia da Universidade de Alcalá e codiretor dos sítios arqueológicos de Atapuerca. Como corresponsável pelas pesquisas na província de Burgos [Espanha], conseguiu lançar luzes sobre aquilo que pensávamos serem as nossas origens como espécie, consciente de que ao interpretar os achados arqueológicos precisamos nos libertar dos preconceitos.

A entrevista é de Pedro Silverio, publicada por Ethic, 21-07-2026.

Eis a entrevista.

Costuma-se dizer que, em Atapuerca, não foram encontrados apenas ossos, mas também “amor fossilizado”. Como a nossa percepção da pré-história muda ao descobrir que a compaixão já estava presente há meio milhão de anos?

Esse é, sem dúvida, um dos achados de maior impacto em nível popular, para além da academia. O sítio arqueológico da Sima de los Huesos nos permitiu ver que as pessoas que viviam há meio milhão de anos eram muito mais humanas do que imaginávamos.

Tradicionalmente, o imaginário coletivo associava o primitivo ou o antigo ao selvagem e ao bárbaro. No entanto, o que estamos vendo é justamente o contrário: cuidados com pessoas vulneráveis que nos devolvem uma imagem de humanidade irrefutável.

Isso nos diz muito sobre nós mesmos, pois revela que a compaixão não é uma invenção recente, mas algo profundamente antigo em nossa evolução e em nossa linhagem. Ao analisar o passado, não vemos essas coisas diretamente nos fósseis; nós as interpretamos à luz do que sabemos sobre a espécie humana atual.

Sabemos que hoje somos uma espécie extremamente cooperativa, com uma capacidade de cooperação única na biosfera, que transcende os laços de consanguinidade. Em outras espécies sociais, como chimpanzés ou golfinhos, a sociabilidade é principalmente familiar. Nós, ao contrário, cooperamos com pessoas com as quais não temos qualquer vínculo de sangue em torno de um propósito comum.

Ao rastrear isso, casos de cuidado com indivíduos vulneráveis são dados “fortes” que nos falam de grupos muito coesos, nos quais existia empatia: essa capacidade emocional de sentir o que o outro sente. É isso que faz com que hoje você se comova ao ver notícias sobre o terremoto na Venezuela; você sente a angústia deles sem conhecê-los. É o que chamamos de “amor fossilizado”: a prova de que todo o grupo ajudava aqueles que não podiam cuidar de si mesmos.

O caso de “Benjamina”, a menina com craniossinostose, é emblemático. O que a sua existência nos diz sobre a suposta “lei do mais forte” na evolução humana?

Benjamina é o paradigma: uma menina que sofria de uma doença muito complicada e que conseguiu sobreviver até os 12 anos em um ambiente sem cuidados médicos modernos. Contudo, agora temos um caso ainda mais impactante: o de “Tina”, uma menina neandertal com síndrome de Down que sobreviveu de 6 a 11 anos.

O caso de Tina é fundamental porque reforça o de Benjamina. Quando se tem apenas um caso, sempre existe a suspeita de que seja algo isolado ou mal interpretado, mas agora temos dois indivíduos em linhagens que remontam a quase um milhão de anos. Se isso existia entre os neandertais e existe entre nós, é razoável pensar que surgiu em paralelo, o que é biologicamente fascinante, ou foi herdado de um ancestral comum muito distante.

Isso rompe completamente com a ideia subjetiva da “lei do mais forte”. Darwin já havia percebido que embora haja competição dentro do grupo para ser o “mais legal” ou o que marca mais gols, a sobrevivência dos indivíduos depende de que o grupo siga bem. Se você submete dois grupos a uma grande crise, um formado por pessoas empáticas que cooperam e outro no qual predomina o egoísmo do mais forte, o grupo que colabora tem muito mais chances de sobreviver.

Nossa sobrevivência está ligada à do grupo, razão pela qual a evolução selecionou as populações mais cooperativas. Usando uma metáfora futebolística: um time de estrelas que não cooperam perde para outro formado por gente mais modesta que se ajuda tanto na defesa quanto no ataque. Cuidar de um indivíduo vulnerável não é “adaptativo” em termos individuais, mas é o sintoma de algo que, de fato, é: a solidariedade que faz com que o grupo seja excelente.

A atenção à diversidade é, então, uma característica definidora da nossa linhagem?

Absolutamente. Somos tão empáticos que projetamos amor até mesmo sobre animais de estimação ou objetos. O problema é que só ativamos essa empatia com aqueles que reconhecemos como parte do nosso grupo, como “humanos”.

Quando não reconhecemos essa humanidade no outro, somos capazes de coisificá-lo, e essa é a origem do racismo, da xenofobia e das guerras. Por isso, a integração consiste em conhecer-se: quando você vê que o “outro” tem filhos que passam pelas mesmas coisas que os seus, a empatia entra em ação automaticamente.

Você pesquisou o caso de “Elvis”, um indivíduo idoso. A proteção aos mais velhos foi a primeira rede de seguridade social da história?

Em nossas sociedades ocidentais atuais, os idosos às vezes são vistos como um peso, mas em uma sociedade natural eram o “conselho dos sábios”. Os mais velhos possuem ascendência sobre os demais e são fundamentais para moderar conflitos, cuidar dos pequenos e transmitir conhecimentos vitais: quais plantas servem para curar, por onde passam os caminhos ou quando vai chover. São a cola que dá coesão ao grupo.

Com “Elvis”, o idoso da Sima de los Huesos que sofria de problemas na coluna, sempre tivemos a dúvida se recebia cuidados por empatia ou porque era útil devido à sua sabedoria. No entanto, os casos das meninas Benjamina e Tina dissipam essa dúvida: elas não tiveram tempo de conquistar o afeto do grupo, nem possuíam conhecimentos a contribuir; seu cuidado foi um ato de amor gratuito, que não trazia nenhum benefício material.

Darwin sustentava que o amor foi um dos motores da evolução. À luz de Atapuerca, a seleção natural também premiou a solidariedade?

Sim, mas sempre em nível grupal. Em nível individual, ser solidário é quase um “tiro no pé”, pois você sacrifica seus interesses e reduz suas chances de reprodução para beneficiar outra pessoa. Se a seleção fosse apenas individual, o altruísmo só ocorreria entre parentes que compartilham os seus genes.

A única forma da solidariedade se expandir para além da consanguinidade está em que a nossa vida depende da sobrevivência do coletivo. Os grupos com mais pessoas solidárias são os que, a longo prazo, prevaleceram na história evolutiva.

Atapuerca também mostra que, há 500 mil anos, já se cuidava dos mortos. É a consciência da dor alheia que nos torna humanos?

Na Sima de los Huesos temos a primeira evidência de grupos que se ocuparam de seus mortos, levando-os para um local protegido. Além disso, existe aquele objeto misterioso: o biface de pedra vermelha, chamado “Excalibur”, que apareceu junto a 30 cadáveres. É difícil não o associar a algum tipo de ritual ou simbolismo, embora o simbolismo seja impossível de demonstrar cientificamente.

O fascinante é que essa consciência da morte e da dor alheia não é exclusiva da nossa espécie, pois os neandertais também a possuíam. Isso nos indica que se trata de uma adaptação biológica muito antiga e extremamente lógica: se algo funciona para dar coesão ao grupo, a evolução tende a preservá-lo.

Você sustenta que a linguagem pode ter surgido da necessidade de compartilhar valores. Isso significa que a linguagem é mais emotiva do que racional?

Esse é um debate complexo entre linguistas e psicólogos. Nós, na paleontologia, desenvolvemos uma linha para rastrear o “hardware” da linguagem: a capacidade anatômica de perceber sons. Nosso ouvido não é imparcial; está sintonizado para ouvir muito bem as frequências da linguagem, inclusive em ambientes com muito barulho.

Isso se mede por meio da “largura de banda”: quanto maior o intervalo de sons que você consegue ouvir bem, mais eficiente é a sua comunicação, porque você pode criar muitas palavras curtas. São as melhores porque são produzidas e percebidas rapidamente, com poucos erros. Por isso, em quase todas as línguas, a maioria das palavras tem três sílabas ou menos.

Ao aplicar isso aos fósseis, vemos que os australopitecos possuíam uma largura de banda semelhante à de um chimpanzé. Mas, na Sima de los Huesos, há meio milhão de anos, já tinham um comportamento muito complexo: caçavam bisões, cuidavam de indivíduos vulneráveis e se ocupavam dos mortos. Sua largura de banda já era muito próxima da nossa.

Acredito que as primeiras fases da linguagem serviram para coisas úteis e instrumentais, como ensinar a talhar pedra ou coordenar a caça. Mas, uma vez que você possui essa ferramenta - a linguagem - e seu cérebro se torna mais complexo, começa a usá-la para expressar o que tem na cabeça: de sentimentos a perguntas sobre quem nos criou.

Olhando para o presente, você considera que o futuro será determinado pela ética e não pela tecnologia. Estamos perdendo a bússola da compaixão?

Não acredito que estejamos perdendo a compaixão. No Ocidente, temos um problema porque o sistema econômico tentou substituir a ética pelo lucro material. Parece que a única coisa que conta é o preço das coisas e a margem de lucro, mas acredito que é algo passageiro.

Quando ocorrem catástrofes como a DANA ou crises como a da Venezuela, vemos que a ética continua presente, modulando tudo. A tecnologia é apenas uma ferramenta; as bombas atômicas não são lançadas sozinhas, dependem de uma decisão ética.

A única coisa que realmente coloca nossa humanidade em risco é a ditadura do lucro a qualquer custo, com esses fundos de investimento impiedosos capazes de sacrificar tudo por mais 3%. No entanto, ao conversar com diretores de grandes empresas, descubro com surpresa que compartilhamos os mesmos valores humanos. A compaixão está em nossa “placa-mãe” genética e não acredito que a tecnologia irá nos desumanizar.

O risco de desumanização estaria, então, na deriva rumo ao transumanismo ou aos ciborgues?

Eu já sou um pouco ciborgue: tenho um ligamento artificial no joelho e lentes nos olhos por causa da catarata, mas são apenas periféricos. Podemos robotizar o corpo, mas o núcleo duro - a consciência e as memórias - é o que nos faz ser quem somos.

Renunciar ao cérebro para colocar uma máquina seria, literalmente, morrer. Muita gente gostaria de ter um chip implantado para possuir as capacidades de um celular, mas ninguém gostaria de trocar o próprio “eu” por um robô.

Que lições de Atapuerca podemos aplicar a problemas como a desigualdade ou a superpopulação?

Sendo honestos, Atapuerca não nos oferece chaves para esses problemas porque são novos. No passado, não havia superpopulação, nem esses níveis brutais de desigualdade. Não havia propriedade privada dos meios de produção; a riqueza de uma pessoa era aquilo que ela conseguia carregar consigo enquanto caminhava. Não era possível acumular riqueza em grande escala tomando-a de outras pessoas. Estamos em uma situação que não tem paralelo em nossa história evolutiva.

Subestimamos a capacidade moral das espécies que nos precederam?

Muitas vezes, projetamos nossos preconceitos do presente sobre o passado. No século XIX, o racismo e o machismo eram projetados sobre os fósseis, pintando os neandertais como brutos, com as mulheres sempre no fundo da caverna cuidando das crianças, enquanto os homens caçavam. Contudo, os dados nos dizem outra coisa: encontramos túmulos de mulheres com instrumentos de caça de grande porte.

O passado é reconstruído com os olhos do presente, e isso é perigoso porque quando esses preconceitos são materializados em quadros ou museus, retornam para nós com o selo de “conhecimento científico” e reforçam nossas ideias preconcebidas. O mais honesto que podemos dizer é que, há 500 mil anos, a empatia e a coesão de grupo já existiam. Isso é o que realmente sabemos.

Qual foi o grande êxito de Atapuerca, não apenas no plano científico, mas também como projeto social?

Atapuerca é um sucesso porque representa um triângulo único: sítios arqueológicos extraordinários, uma equipe científica que trabalha unida há 40 anos e, sobretudo, um projeto social no qual a sociedade civil e os políticos se comprometem. É um exemplo de que quando estamos juntos em torno de uma ideia comum, sem importar as ideologias, somos capazes de alcançar coisas incríveis.

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