29 Julho 2026
"Se Weber descreve a tensão entre ética da convicção e ética da responsabilidade, Jesus representa algo radicalmente inovador e alternativo."
O artigo é de Flávio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Segundo ele, "é inegável que houve mudanças radicais e expressivas na doutrina católica sobre o estado, mas o que resiste em mudar continua sendo o fundamento teológico agostiniano-tomista que não contesta a natureza do estado e, pelo contrário, continua admitindo e sustentando acriticamente a necessidade da sua existência".
"Se passamos da dimensão fortemente racional da doutrina para o terreno da sensibilidade profética, - afirma Lazzarin - que pode alimentar uma racionalidade alternativa, talvez, somente João XXIII e Francisco, em nível institucional, foram profetas neste nosso tempo, cada vez mais difícil e desafiador".
Eis o artigo.
Ao refletir a existência do estado como padrão naturalizado e insubstituível, e a urgência de confrontar e superar, politicamente, os estados atuais e seus efeitos tragicamente ameaçadores ao planeta e à humanidade, defenderei a hipótese da inevitabilidade de se descolar da histórica influência da teologia da história de Agostinho e Tomás.
Desde o decreto de Teodósio de 476, assistimos a uma infindável sucessão de relações ora pacíficas e identificadas, ora conturbadas e conflitivas, das Igrejas com os estados. Em determinadas épocas podia ser o Império, em outras os estados nacionais, ou principados, ou monarquias, ou ditaduras e repúblicas, mas sempre se considerou a relação com os estados como algo constitutivo, inseparável, ontológico.
Ponto de partida é o pensamento de Max Weber que, numa palestra de 1919[1], fez considerações provocantes sobre a ética de quem faz política institucional. Elas me interpelam profundamente porque iluminam tensões da atualidade em que a gestão liberal-democrática é cada vez mais ameaçada por ajustes tirânicos, e que, contemporaneamente, me incomodam, pelos limites postos às possibilidades críticas.
Observando os padrões de comportamento dos que administram o poder político no estado moderno, Weber chega a distinguir dois tipos de ética: ética da convicção e ética da responsabilidade.
As suas duas éticas jogam uma luz sobre uma tensão que ele julga fundamental: o político deve obedecer aos princípios ou, antes de tudo, priorizar a atenção às consequências das suas decisões?
Trata-se do sistema dos princípios e dos deveres, em tensão permanente com a teleologia, a preocupação com a finalidade.
Ética da convicção: o certo é fazer o que se considera moralmente justo.
Ética da responsabilidade: quem decide deve levar em conta os efeitos das suas ações e assume a responsabilidade das consequências previsíveis.
Para o político estas duas posturas éticas não estariam em oposição, mas podem e devem ser conciliadas na sua ação política.
Aponto de imediato a questão central do meu incômodo. O que me escandaliza na tese de Weber é o fato de que reflete sobre desafios éticos em relação à gestão do estado, sem antes discutir eticamente o próprio estado. Parece naturalizar a presença do estado, colocando-o no rol das realidades preexistentes, inquestionáveis, quando, a meu ver, é um imperativo enfrentar, prática e teoricamente, esta humaníssima invenção que, paradoxalmente, se torna onipresente com características históricas próprias, inclusive na nossa civilização ocidental.
Além disto, após Hiroshima e Nagasaki, a Shoah e Gaza, o otimismo equilibrado e reformista de Weber poderia até servir como álibi hipócrita aos políticos que hoje em dia não apresentam sensibilidade e responsabilidade alguma com os efeitos mortais, ecocidas e genocidas das suas decisões.
Em busca de tipos ideais, Weber já tinha escrito sobre as características diferentes da ética protestante e da ética católica [2]. São duas abordagens diferentes, mas que possuem um denominador comum: a palavra Beruf. Com esta palavra, em 1919, o pensador alemão está conscientemente evocando dimensões teológicas, especialmente a teologia protestante, mas também a católica. O termo Beruf (profissão) e Berufung (vocação, chamado) emergem diretamente da tradução da Bíblia realizada por Lutero, o qual transformou-elevou o simples trabalho cotidiano em missão espiritual. Quando Weber fala de "política como vocação", ele está dizendo que a política não é apenas uma atividade técnica, mas um chamado, uma missão que exige entrega, disciplina e responsabilidade. Parece evidente que Weber usa a linguagem religiosa para elevar a política ao nível de missão ética.
Também a assunção da naturalização do estado por Weber é herança de Lutero. Com efeito, seguindo a concepção clássica agostiniana, o religioso da reforma protestante define o estado como "governo da mão esquerda de Deus", enquanto a Igreja é o "governo da mão direita de Deus". Essa distinção expressa duas formas pelas quais Deus age no mundo: com o estado é mediante a lei e a força; com a Igreja, Deus opera pela Graça e pela fé.
Santo Agostinho, em De civitate Dei, afirma que o estado é uma realidade necessária por causa da condição de pecado em que se encontram os humanos. Sua função é conter o mal, manter a ordem e evitar a violência; um remédio necessário para acabar com a desordem humana. Em suma, Deus age no mundo tanto pela Graça quanto pela ordem coercitiva.
Para Agostinho e Lutero, o estado, portanto, é instrumento de Deus, mas não como expressão da sua Graça, e sim, como uma necessidade histórica.
Weber atesta que conhecia profundamente essa tradição quando ele fala de ética da responsabilidade, vocação política e uso monopólico e legítimo da violência.
A religião pertence ao "reino da mão direita": é o campo próprio das convicções, da fé e dos princípios absolutos.
O catolicismo também reconhece a distinção entre ordem temporal e espiritual. Afirma, com Agostinho, que o estado é necessário por causa da condição humana e que a política deve ser moral. A Doutrina Social da Igreja retoma essa tradição, mas sem o dualismo luterano.
Parece evidente que, neste contexto, não podemos ignorar o autor fundamental da teoria sobre o estado moderno e seus príncipes: Nicolau Maquiavel. A autonomia da política é uma das ideias centrais do pensamento de Maquiavel. Segundo ele, a política deve ser analisada como uma esfera própria e autônoma da vida social, com regras e objetivos específicos, sem estar subordinada à moral religiosa ou à teologia, seja ela qual for. Para ele, o governante precisa preocupar-se, acima de tudo, com a manutenção do Estado, a estabilidade política, a segurança da população, e a preservação do poder necessário para governar.
Maquiavel estuda como conquistar e conservar, concretamente, o poder.
Weber estuda como o poder se legitima e é exercido nas sociedades modernas.
Contudo, fica claro que os dois convergem quanto à plena autonomia do estatuto ético da política.
O choque de realidade que Maquiavel nos proporciona é, certamente, um precioso serviço à verdade. Planta no nosso olhar e na nossa sensibilidade política uma semente de radicalidade profundamente pessimista: o estado pode virar um inferno de divisão, de violência, de guerra e morte. Não há como negar o que aparece de forma trágica sob o nosso olhar, hoje em dia: quando identidades nacionais e religiosas se deixam remodelar pelas instituições estatais da guerra, elas perdem todo sentido e legitimidade.
Maquiavel descreve como funcionam as coisas na política institucional, em que moral privada e ação política são separadas. Não está preocupado com a ética, mas mostra que na política existe um ethos diferente do da moral religiosa. Para ele, os governantes que têm sucesso agem de acordo com as necessidades do estado, mesmo que isso entre em conflito com valores morais tradicionais. Sempre pensei que, em última análise, Maquiavel, uns séculos antes de Marx e Bakunin, desmascara definitivamente o estado, nos ajudando a entender que, mudando as circunstâncias, o poder do príncipe é, com certeza, o imenso poder da economia política e das poucas empresas que controlam a política, a tecnologia e o mercado, a fome e a guerra.
Weber, ao contrário, preserva estado e política, afirmando que o político maduro combina convicção e responsabilidade, mas admite que, às vezes, é preciso agir contra os princípios e os valores pessoais para preservar o estado.
A nossa Igreja, ao longo dos séculos, tem protagonizado este confronto e este debate, inspirada pelas teologias de Agostinho e Tomás de Aquino, mas não tem se demonstrado suficientemente atenta à profecia de Maquiavel.
Antes do surgimento da Doutrina Social da Igreja (DSI), que foi inaugurada pela encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII (1891), as teologias de Agostinho e Tomás foram e, por certos aspectos, continuam hegemônicas.
Para Agostinho, o estado não é um mal em si, mas também não constitui o fim último do ser humano, cuja verdadeira pátria é a "Cidade de Deus".
Para Tomás, a autoridade existe para promover o bem comum. O político deve governar conforme a lei moral e a justiça. A tirania é vista como uma corrupção da autoridade legítima.
Na prática, desde o fim do IV século, Igreja e estado viviam em estreita colaboração, embora, na Idade Média, frequentemente entrassem em conflito sobre quem possuía autoridade superior em determinadas matérias: disputa das investiduras (1075-1122) sobre a nomeação de bispo e abades e disputa pela supremacia entre Igreja e monarquia entre Bonifácio VIII e Filipe IV (1296-1303).
Em seguida, crises internas da Igreja, o papa exilado em Avignon, perda gradual de autoridade política.
E, enfim, a Reforma Protestante, com consolidação do poder dos estados sobre assuntos religiosos em vários países.
Por muito tempo (séc. XVI-XVIII), a Igreja defendeu geralmente uma sociedade cristã, na qual religião e política estavam intimamente ligadas. Isto é o tempo das monarquias católicas e da colonização da Abya Yala. Processo violento que Igrejas e estados, inclusive protestantes, também protagonizaram.
O clima muda radicalmente a partir da Revolução Francesa. O liberalismo, o secularismo e depois o socialismo provocaram fortes reações da Igreja. Muitos documentos papais concentravam-se na defesa da religião, da família, da propriedade e da autoridade política legítima contra movimentos e ideologias que ameaçavam o status quo.
Com relação a esta tradição secular, a Rerum Novarum apresenta uma mudança significativa. Pode ser considerado o primeiro documento que desmente e supera a lógica condenatória do Syllabus de Pio IX (1864). Obviamente, o estado como instituição continua a sua vigência teológica e pastoral, mas Leão XIII, em vez de tratar apenas da legitimidade do poder político e da defesa da identidade e do poder da Igreja, se ocupa das vítimas da modernidade: a questão operária, as condições de trabalho, a pobreza urbana, a relação entre capital e trabalho e as responsabilidades do estado na justiça social.
As desigualdades surgidas com a Revolução Industrial orientam o processo da elaboração da Doutrina Social. Um caminho marcado por vários documentos e sobretudo pelo Concílio Ecumênico Vaticano II: a política deve ser guiada por valores não negociáveis, como dignidade humana, justiça, solidariedade, defesa da vida, bem comum.[3] Não é legítimo abandonar princípios éticos para obter resultados políticos.
É inegável que houve mudanças radicais e expressivas na doutrina católica sobre o estado, mas o que resiste em mudar continua sendo o fundamento teológico agostiniano-tomista que não contesta a natureza do estado e, pelo contrário, continua admitindo e sustentando acriticamente a necessidade da sua existência.
Se passamos, porém, da dimensão fortemente racional da doutrina para o terreno da sensibilidade profética, que pode alimentar uma racionalidade alternativa, talvez, somente João XXIII e Francisco, em nível institucional, foram profetas neste nosso tempo, cada vez mais difícil e desafiador. Ambos se manifestaram contra as guerras perpetradas pelos estados, mas não conseguiram mudar-subverter o fundamento agostiniano que defende a possibilidade da guerra justa. Com efeito, o Compêndio da DSI ainda acolhe a tradição da legítima defesa armada sob condições muito rigorosas, tese contradita pelo magistério recente, especialmente o de Papa Francisco, que proclama que a guerra dificilmente pode ser moralmente justificada nas condições contemporâneas.
Estamos, porém, ainda longe do testemunho radical de Tolstói, Gandhi, Simone Weil, Martin Luther King, Lanza del Vasto, Dorothy Day, para os quais qualquer escolha pela guerra é antiética. E anti-evangélica.
E estamos, sobretudo, longe de Jesus de Nazaré. Jesus como ruptura ética radical. No seu tempo, Jesus enfrentou os poderes de todos os tempos: o templo e o estado. Templo de Jerusalém, que representa todos os poderes religiosos que se subseguiram na história até hoje. O Império, que representa todos os estados de que a história pode contar as guerras e todos os crimes hediondos e brutais.
Se Weber descreve a tensão entre ética da convicção e ética da responsabilidade, Jesus representa algo radicalmente inovador e alternativo.
Se Agostinho apoia as sanções legais, repressão estatal e coerção exercidas pelo Império Romano contra o movimento donatista, Jesus lembra que estado e guerra não são condição ontológica: "Quem fere com a espada, morrerá pela espada"; "Amai os vossos inimigos"; "Bem-aventurados os pacificadores". Ele não veio para nos ensinar a administrar o mundo; ele nos convida a confrontar o poder do estado e da guerra, na maioria dos casos um binômio inseparável.
Jesus não é um legislador moral; nos convida à sequela, ao discipulado, à profecia, à adesão ao Reinado de Deus, presente, aqui e agora, pequena semeadura, um trigo sempre misturado com o joio. Convite a conviver com os malvados que o inimigo semeou na história e com a maldade, sombra inseparável da nossa identidade. E o mandamento a viver com alegria o tempo nosso, que quase nunca é de colheita, mas sempre de semeadura. E não ceder à tentação de administrar a inimizade com a coerção, a violência e a guerra.
Citamos as grandes e conhecidas testemunhas da Paz, mas na conclusão quero fazer memória da profecia crucificada do mártir Franz Jägerstätter. Ele era um camponês austríaco que se recusou a lutar pelo exército da Alemanha Nazista por razões de consciência e de fé. Quando foi convocado, recusou-se a prestar lealdade a Hitler e a participar da guerra. Por causa disso, foi condenado à morte e executado em 1943. Mais tarde, a Igreja Católica o reconheceu como mártir e o beatificou em 2007. Sua história inspirou o filme "Uma Vida Oculta" (A Hidden Life) de Terrence Malick. Queira Deus que ele inspire a nossa igreja a jamais se aliar e a servir estados que "pela sua natureza" continuam a tiranizar, matar e a subjugar povos inteiros (Mt 20,25).
Notas
[1] WEBER, Max. Política como vocação e ofício. Petrópolis: Vozes, 2021.
[2] WEBER, Max. A ética protestante e o "espírito" do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
[3] Centesimus Annus (1991); Compêndio da Doutrina Social da Igreja (2004); Gaudium et Spes (1965); Caritas in Veritate (2009); Laudato Si' (2015); Fratelli Tutti (2020); Magnifica Humanitas (2026).
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