Europa silencia sobre suas petroleiras em meio à crise do fogo

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28 Julho 2026

Líderes prometem medidas de adaptação para o continente, mas omitem que quatro das 20 maiores causadoras do aquecimento global são empresas europeias

A informação é de Claudio Angelo, publicada por Observatório do Clima, 27-07-2026. 

Aqui se faz, aqui se paga, diz o ditado. A Europa em tempos de aquecimento descontrolado parece ter uma adaptação da frase: aqui se faz aqui se apaga. Berço da Revolução Industrial, o continente sofre desde maio com uma sequência de ondas de calor, a última delas causadora dos incêndios que ora arrasam regiões de França, Espanha e Itália. Seus líderes prometem medidas de adaptação, mas vêm sistematicamente omitindo a necessidade óbvia de intervir sobre a causa do problema: a produção e o consumo de combustíveis fósseis.

Quatro empresas europeias figuram entre as 20 maiores causadoras atuais e históricas do aquecimento global, segundo o ranking das “Carbon Majors”, as 178 empresas que respondem por 70% do CO2 despejado na atmosfera desde que o britânico James Watt inventou a máquina a vapor. Duas são britânicas: a BP (6o lugar) e a extinta British Coal Corporation (13º). Uma é anglo-holandesa, a Shell (7º lugar) e uma francesa, a Total Energies (15º).

Se consideradas todas as 178 “carbon majors”, há 33 empresas europeias na lista: uma da Áustria, cinco da República Tcheca, uma da França, três da Alemanha, uma da Irlanda, uma da Itália, duas de Luxemburgo, duas da Noruega, sete da Polônia, uma da Espanha, duas da Suíça e sete do Reino Unido. Algumas carvoeiras poluíram tanto que seguem no ranking mesmo anos após terem encerrado suas atividades.

Nenhuma liderança europeia ocupada com o combate ao fogo fez qualquer menção ao papel dessas companhias (ou quaisquer outras produtoras de petróleo e carvão) na crise. Ao contrário, como sugerem os planos franceses de adaptar o país a um aquecimento de 4ºC, a adaptação parece despontar como substituta à mitigação das emissões de carbono.

O geógrafo belga Wim Carton nota, em seu recém-publicado livro The Long Heat – Climate Politics When It’s Too Late (O longo calor: política climática quando é tarde demais) que lidar com os impactos e ignorar as causas do problema, como se elas viessem de outro planeta, é um hábito de líderes europeus (e de líderes políticos em geral).

Em 2022, no último grande incêndio florestal na França, o presidente Emmanuel Macron prometeu vitória na forma do aumento da frota de aviões contra incêndio, sem dizer uma palavra sobre a Total, cujo lucro dobrou por conta da invasão da Ucrânia; em 2024, a ministra alemã Steffi Lemke visitou as regiões afetadas pelas enchentes e declarou a necessidade de melhor proteção, mas “ela não pediu o fechamento imediato das minas de carvão da Alemanha”, escreveram Carton e seu coautor, o sueco Andreas Malm. Nem o premiê espanhol Pedro Sánchez falou da Repsol após as enchentes mortíferas de Valencia no mesmo ano de 2024.

Segundo os autores, existe uma tendência crescente entre governos e empresas, em especial nos países ocidentais (ao menos os que ainda dizem acreditar nos fatos da ciência), ao que eles chamam de “adaptacionismo muscular”: o planejamento é deslocado para soluções de alta tecnologia (e alto custo) para adaptar os países que podem pagar por elas, enquanto a única solução real para o problema, o fim imediato dos combustíveis fósseis, é deixada para lá ou confiada a alguma tecnologia milagrosa ainda por ser inventada.

Para usar uma metáfora conhecida da ciência climática, o sistema terrestre pode ser comparado a uma banheira com um ralo muito pequeno: a velocidade com que a torneira (a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento) enche a banheira é muito maior do que a velocidade de escoamento do ralo (a absorção do carbono em excesso pelo oceano e pelos ecossistemas terrestres). Para impedir que a banheira transborde (no nosso caso, que o aquecimento ultrapasse permanentemente 1,5ºC em relação à era pré-industrial), as medidas óbvias são fechar a torneira e aumentar o buraco do ralo. O adaptacionismo muscular está mais interessado em comprar um robô com rodo acoplado para secar o chão. Desnecessário dizer, a hora que a água alagar toda a casa, não vai ter robô que dê jeito.

Nos próximos meses, à medida que os impactos de um El Niño que se insinua um dos mais fortes da história ceifarem vidas e patrimônio e encarecerem ainda mais a comida que já começa a subir por conta da guerra no Irã, o mundo terá seu segundo encontro com um aquecimento de 1,5ºC em três anos. Até o final da década, espera-se que os termômetros ultrapassem definitivamente o limite de aquecimento do Acordo de Paris, para quem sabe retornarem para baixo disso no fim do século – embora ninguém saiba na real se o sistema climático se comportará linearmente uma vez ultrapassada essa marca e aceitará uma volta ao “normal” se muito carbono for removido da atmosfera.

Se os países europeus, que ora padecem da crise que eles mesmos contrataram, não mostram nenhuma disposição em mexer nos lucros fabulosos das próprias empresas fósseis, é irreal esperar que recém-chegados à farra do petróleo como Brasil, Suriname e Nigéria façam alguma coisa. A manchete do jornal O Globo desta segunda-feira (27) comprova isso, ao reproduzir a alegação dos oleocratas da Petrobras de que a produção do pré-sal é “declinante” (ignorando, por exemplo, que a BP fez no pré-sal sua maior descoberta em 25 anos) e que a Margem Equatorial é a região mais promissora, já que o petróleo ainda será necessário “por décadas”. Não há mapa do caminho que dê jeito nessa mentalidade. E não haverá bombeiro que apague os incêndios que vêm por aí – e por aqui.

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