"A Odisseia", de Nolan, lidera um novo retorno dos clássicos, que não são mais apenas livros enfadonhos do passado

Foto: divulgação

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29 Julho 2026

Traduções atualizadas, novas introduções, capas com design diferenciado… Um renovado interesse cultural está impulsionando o retorno de Homero, Virgílio e até mesmo dos Evangelhos.

O artigo é de Juanjo Villalba, publicado por El Diario, 27-07-2026. 

Eis o artigo.

As livrarias espanholas vivem um momento singular. Os clássicos nunca desapareceram por completo, mas a forma como chegam aos leitores mudou profundamente. Editoras consagradas estão atualizando traduções, revisando introduções e renovando seus catálogos, enquanto editoras mais jovens se dedicam a apresentar esses textos com uma linguagem, um design e uma atenção formal aos detalhes bem diferentes do tom solene que, durante décadas, fez deles, para muitos leitores, um território reservado a especialistas.

Marco Aurélio e Sêneca figuram ao lado de Lucia Solla e Delphine de Vigan nas listas de novos lançamentos. Esse fenômeno coincide com um contexto particularmente favorável. A estreia de A Odisseia, a tão aguardada adaptação cinematográfica de Christopher Nolan, multiplicou o interesse por Homero, assim como Gladiador despertou, em outrora, uma renovada curiosidade pelo mundo clássico.

Nos Estados Unidos, universidades, museus e clubes de leitura vêm preparando atividades em torno do poema épico há meses, convencidos de que o filme atrairá novos leitores e alunos, um efeito que muitos professores já experimentaram após o lançamento do filme de Ridley Scott em 2000. No entanto, reduzir esse ressurgimento a um simples efeito cinematográfico seria ficar na superfície.

Quando um livro nunca para de vender

“Na verdade, os clássicos não estão voltando porque nunca saíram de moda”, diz Jordi Martí, chefe da coleção Liberated Classics da Blackie Books. Para ele, a sensação de vivenciar uma espécie de boom tem muito a ver com o fato de tendermos a focar nos lançamentos recentes e dar pouca atenção aos livros que vendem com surpreendente regularidade há décadas.

Martí lembra-se do livro de Philip H. Young, "The Printed Homer: A 3,000 Year Publishing and Translation History of the Iliad and the Odyssey", dedicado a reconstruir toda a história da publicação da Ilíada e da Odisseia, desde as primeiras edições impressas do século XV até o ano 2000. O resultado compilou cerca de 6 mil edições diferentes. “Os clássicos estão sempre presentes. O que acontece é que tendemos a falar sobre best-sellers e modismos passageiros, mas quase nunca sobre aqueles livros que vendem por séculos”, diz ele.

Os dados do mercado espanhol corroboram parcialmente essa ideia. Segundo a editora, a Odisseia manteve vendas anuais em torno de 8 mil a 10 mil exemplares durante anos. O verdadeiro salto ocorreu em 2020, coincidindo com o lançamento da edição da Blackie Books, quando as vendas praticamente dobraram. Em 2025, as vendas atingiram aproximadamente 27 mil exemplares e, no primeiro semestre deste ano, já giravam em torno de 25 mil.

Martí atribui grande parte desse crescimento ao surgimento de novas formas de edição de textos. "O filme dará um impulso, mas o grande salto já havia acontecido", afirma. "Há editoras agora aproveitando o lançamento, mas o fenômeno já estava em curso."

Os responsáveis ​​pela Editorial Gredos, provavelmente a editora mais associada a edições acadêmicas de clássicos na Espanha, também percebem uma tendência positiva, embora com um ritmo de leitura mais lento. “Nossos livros mantêm uma leve tendência de alta nas vendas, o que reflete a fidelidade de nossos leitores”, explicam os responsáveis ​​pela Biblioteca Clássica de Gredos. “Não competimos com os grandes best-sellers, mas alguns autores têm um desempenho excepcional, como Platão, Sêneca, Marco Aurélio ou, agora, a Odisseia, impulsionada pelo filme de Christopher Nolan.”

Portanto, decidiram basear seu trabalho nas versões em inglês da Ilíada e da Odisseia, do romancista escocês Samuel Butler, renomadas por sua fluidez narrativa, e traduzi-las para o espanhol. O objetivo era recapturar o ritmo de um romance de aventura, em vez da solenidade de um monumento literário.

A filosofia da Gredos é diferente. Lá, a prioridade continua sendo oferecer traduções filologicamente sólidas, preparadas e revisadas por especialistas em cada área. Isso também é essencial. A renovação do catálogo focou principalmente na atualização das introduções e notas para incorporar décadas de pesquisa e torná-las mais úteis para o leitor contemporâneo, sem alterar a natureza dos textos.

“Nossa contribuição consiste em esclarecer quaisquer passagens obscuras por meio das notas. Observamos que outras editoras optam por simplificar os clássicos e respeitamos essa decisão, mas preferimos manter os textos como estão”, explica a editora.

Leia o Evangelho como se fosse um romance

Poucas publicações ilustram melhor essa mudança de perspectiva do que um dos títulos mais inesperados da série Clássicos Liberados: o Evangelho de Mateus. O projeto surgiu de uma ideia aparentemente simples, mas incomum: deixar de lado a abordagem religiosa e abordar o texto pelo que ele também é: uma das grandes obras narrativas da história ocidental. “Percebemos que não havia uma tradução secular para o espanhol”, recorda Martí. A nova versão, da filóloga Ruth de Umar, evitou grande parte do vocabulário herdado de séculos de tradição eclesiástica, retornando, sempre que possível, ao significado original em grego.

O resultado surpreendeu até mesmo os próprios editores. “Havia trechos que pensávamos conhecer perfeitamente, e de repente descobrimos que o original dizia algo diferente, ou pelo menos permitia outra leitura”, explica Martí. Para testar até que ponto a tradição influenciou a recepção do texto, eles realizaram um experimento tão simples quanto revelador. Substituíram o nome Jesus por Manuel usando um processador de texto. “De repente, estávamos lendo a história de forma diferente. Percebemos o enorme peso cultural que até mesmo aqueles de nós que não praticam religião carregam.”

Martí insiste que o objetivo nunca foi questionar as crenças de ninguém, mas sim recuperar o frescor literário de uma obra que nasceu muito antes de se tornar um texto canônico do cristianismo. “Quando o Evangelho foi escrito, a religião cristã ainda não existia como a entendemos hoje. Para seus primeiros leitores, era, entre outras coisas, uma história”, explica.

Essa abordagem nos permite descobrir personagens repletos de contradições, cenas narradas com uma surpreendente economia de meios e episódios cuja interpretação se transformou ao longo dos séculos. O editor fala do Evangelho com o entusiasmo de quem recomenda um grande romance contemporâneo e resume o espírito da coleção em uma única frase: “Os clássicos foram escritos a partir de um lugar de admiração”.

Livros que não param de fazer perguntas

Existe uma certa tentação de explicar o sucesso atual dos clássicos recorrendo apenas a fatores externos: a fadiga das telas, o desejo por leituras mais profundas ou a busca por referências estáveis ​​em uma era marcada pela velocidade.

Provavelmente há alguma verdade nisso tudo. Gredos admite que esses livros podem servir como "um refúgio onde se pode sentir seguro". Mas talvez a principal razão seja muito mais fundamental. Grandes histórias perduram porque continuam a oferecer respostas para perguntas que nunca desaparecem completamente. O retorno de Odisseu para casa, a ambição de Júlio César, as dúvidas de Hamlet, a ira de Aquiles ou as meditações de Marco Aurélio ainda abordam temas que qualquer leitor reconhece imediatamente.

A tecnologia muda, os costumes evoluem e as sociedades se transformam, mas os medos, as contradições e os desejos humanos mantêm uma surpreendente continuidade, e um clássico deixa de parecer antigo no momento em que alguém abre suas primeiras páginas e esquece quantos séculos tem aquele tesouro que acabou de encontrar.

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