As Escrituras: uma chave para compreender o presente. "Levemos a Bíblia às universidades". Entrevista com Gabriele Pelizzari

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24 Julho 2026

Um projeto, ou melhor, uma tentativa de responder a "uma instância cultural que já não pode mais ser ignorada, decorrente da exclusão substancial e forçada dos estudos bíblicos do patrimônio de conhecimentos transmitido ao humanista em formação nas universidades italianas". Essas são as razões que convenceram Gabriele Pelizzari, professor associado de Literatura cristã antiga e de Filologia e exegese do Novo Testamento na Universidade dos Estudos de Milão, a propor o que ele descreve, na atual conjuntura, como uma tentativa de reforçar a posição curricular dos estudos bíblicos, estruturando mais organicamente sua presença na formação universitária.

A entrevista é de Annamaria Braccini, publicada por Avvenire, 22-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

De onde se origina essa instância?

Hoje, no mundo, a 'Palavra' — para usar uma categoria pré-testamentária — ainda fala aos corações de bilhões de fiéis, e isso determina o perfil religioso dessa literatura. O que eu gostaria que a formação universitária adotasse é uma perspectiva diferente sobre esses documentos: visto que esse repertório de escrituras representa a ‘pedra angular’ das edificações históricas das ideias (filosóficas, acima de tudo, mas também artísticas, literárias, políticas e folclóricas) que definem (embora muitas vezes de forma contraditória) o perfil de nossa complexa contemporaneidade, seu conhecimento crítico se torna decisivo para a compreensão da realidade.

Tanto pelos efeitos que esses livros tiveram na história das civilizações quanto pela vitalidade que continuam a demonstrar no debate cultural, inclusive atual. No entanto, todo esse campo de conhecimento permanece estranho, ou fortemente sub-representado, na formação universitária.

O que é preciso propor, então, diante dessa situação?

Primeiramente, deve-se notar que promover esses ensinamentos em nível acadêmico, reforçando a sua didática, atende a uma multiplicidade de objetivos. O primeiro é, obviamente, de ordem cultural: conhecer o conteúdo desses escritos e seu peculiar ‘funcionamento literário’ fornece ferramentas importantes para uma compreensão crítica da condição humana, ferramentas que poderíamos chamar de ‘lentes’ através das quais o humanista pode olhar a realidade para desempenhar seu ofício nela. Um ofício de conhecimento, mas também de consciência de valor e de elaboração do futuro.

Já houve alguma reação positiva a essa proposta?

“No que diz respeito ao que é uma natural troca de ideias sobre temáticas de tamanha importância do ponto de vista cultural e nodais na vida da Igreja, já houve contatos importantes que, eu diria, produziram excelentes resultados. A CEI [Conferência Episcopal Italiana] vê esse incremento dos estudos de forma totalmente positiva. No entanto, é preciso um esclarecimento, que também fundamentou os diálogos já realizados.

Como professor universitário, sou chamado a salvaguardar a natureza e a identidade laica dos ensinamentos universitários na Itália; mas, é precisamente nesse ponto, em minha opinião, que poderia ser ativada - com o devido respeito por todas as partes envolvidas – aquela que é a possibilidade de uma sinergia profunda.”

Em que sentido?

Gosto de pensar que as Escrituras podem servir como um espaço ideal de encontro e diálogo. Embora a Palavra certamente possua uma função religiosa e existencial decisiva para aqueles que a ouvem professando a sua fé em ‘Jesus, o Cristo’, o impacto e o efeito cultural desses textos e documentos são igualmente importantes e incisivos para a vida daqueles que não professam a fé cristã.

É precisamente nesse ponto que desponta a utilidade de um ensinamento universitário que não visa induzir a crença nessa Palavra — ninguém aqui busca converter ninguém —, mas a conhecer o seu funcionamento crítico, literário, seus legados históricos e artísticos. E tudo isso deixando que cada parte cumpra seu específico ofício.

Já foram considerados possíveis temas para a integração didáticas desses conhecimentos, ou âmbitos específicos de aprofundamento?

Certamente. Se pensarmos no episcopado ambrosiano, e também em seu empenho como acadêmico, docente, biblista e eminente conhecedor das Escrituras, Carlo Maria Martini testemunha como o conhecimento pode ser difundido e disseminado muito além da dimensão eclesial; gosto de dizer que essa foi uma das grandes intuições de Carlo Maria Martini: aproximar a cátedra voltada para o ambão das cátedras voltadas para o ensino.

Existe um perfil simplesmente nocional, mas também existe a exigência de conhecer o funcionamento crítico desses escritos; pois eventualmente se espera que essa extraordinária ‘poética do divino’, redigida e compilada entre o século XIII a.C. e o século I d.C., sirva como uma espécie de crônica ou tratadística teorética, engendrando, assim, confusões, facilitando manipulações e permitindo mal-entendidos dessa rica herança. Repito: trata-se de conhecer o conteúdo das Escrituras para poder compreender seu funcionamento crítico.

O senhor foi aluno do eminente estudioso da História do Cristianismo, o Professor Remo Cacitti, ligado ao Cardeal. Seria também uma maneira de continuar uma virtuosa história de mestres e discípulos?

Sim. Quando se fazem estudos no âmbito humanista, se sabe que o objeto possui um conteúdo intrínseco, mas também determina uma história de seus efeitos. É nessas duas frentes que nossa formação sobre os textos bíblicos deve ser reforçada. Foi exatamente isso que o Cardeal Martini sempre fez.

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