15 Julho 2026
Economistas alertam para risco de choque severo nos preços; alta pode superar 100% em culturas vulneráveis, como arroz, açúcar e café.
A informação é publicada por ClimaInfo, 15-07-2026.
Prepare o bolso: o El Niño está chegando com força e deve bagunçar os preços de vários itens alimentícios em todo o mundo nos próximos meses e, possivelmente, nos próximos anos. O The Guardian destaca o alerta de economistas e consultorias sobre os impactos potenciais do fenômeno na produção de alimentos, com risco de altas históricas nos preços das culturas mais vulneráveis.
Analistas do Goldman Sachs indicam que um “Super El Niño” poderá provocar um aumento de 15,8% nos preços globais das commodities alimentares. O impacto não seria imediato, devido à forma como os custos de disrupções climáticas se propagam pela cadeia alimentar global. Assim, as consequências podem levar até o 2º semestre de 2028 para serem “totalmente percebidas”, ou melhor, sentidas no bolso.
O quadro se agrava quando são considerados efeitos colaterais do El Niño que podem afetar o comércio de alimentos, especialmente na parte logística. Condições mais secas podem dificultar o escoamento da produção em áreas que dependem do transporte hidroviário. A escassez de água nas regiões secas também pode dificultar a irrigação das lavouras.
“O El Niño já começou a afetar colheitas, provocando uma estação de monções mais seca na Índia, com algumas regiões registrando apenas 25% da precipitação normal e partes da Índia central recebendo apenas 50%, o que pode afetar o abastecimento de trigo, arroz e cana-de-açúcar”, avalia o Goldman Sachs.
Outra análise, esta do banco italiano UniCredit, reforça o risco de uma nova escalada global da inflação impulsionada pelo clima. “O El Niño recoloca a ‘climaflação’ na agenda. As recentes ondas de calor na Europa são um lembrete de que a linha de base climática já está mudando. O El Niño pode adicionar uma nova camada de pressão ainda neste ano, à medida que amplifica os efeitos do aquecimento global”, destacou.
Segundo o UniCredit, um cenário extremo de El Niño pode resultar em queda de 14,3% na produção agrícola global, com prejuízo de US$ 343 bilhões (R$ 1,7 trilhão). Os choques nos preços podem ser de 10% a 50% nas principais commodities. Nas culturas mais expostas – incluindo arroz, óleo de palma, açúcar e café –, a alta pode ser ainda mais expressiva, de 50% a 100% ou mais.
“O arroz é o alimento básico para bilhões de pessoas na Ásia, e sua produção depende muito das chuvas sazonais das monções. Se o El Niño interromper essas chuvas, a maior preocupação não será a disponibilidade global de alimentos, mas sim a segurança alimentar e a acessibilidade nos países onde as famílias dependem do arroz produzido localmente”, afirmou Joseph Balagtas, da Universidade Purdue (EUA), à Newsweek.
Para piorar, como destaca a Bloomberg, os efeitos da guerra no Oriente Médio seguem assombrando o mercado global de alimentos. Isso porque o Estreito de Ormuz, bloqueado por Irã e Estados Unidos, é estratégico para o comércio de ureia.
Os preços internacionais dos fertilizantes acompanharam em grande parte a trajetória dos preços do petróleo bruto nos últimos meses. A alta acumulada é de mais de 30% desde o início do conflito, em 28 de fevereiro.
“Se um evento forte de El Niño ocorrer junto com as interrupções no fornecimento de fertilizantes, os investidores podem enfrentar uma combinação particularmente desafiadora: inflação de preços de alimentos sobreposta à inflação de energia, criando uma pressão dupla sobre as classes de ativos tradicionais”, pontuou David Waugh, gestor da Neuberger Berman, citado pela AgFeed.
Em tempo
Dados de temperatura da superfície do mar indicam que as condições no Pacífico já são de um “Super El Niño”. Segundo as medições da Administração Atmosférica e Oceânica Nacional dos EUA (NOAA), a anomalia de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial Centro-Leste, chegou à marca de +2,0ºC. A MetSul Meteorologia lembra que esse é o valor mínimo usado para classificar um El Niño como muito forte. O registro surpreende não apenas pela força, mas por ocorrer muito antes do que seria esperado: da última vez que esse patamar foi atingido, em 2023, isso ocorreu em novembro. Mesmo entre o “Super El Niño”, o evento atual é precoce: no episódio de 1997-1998, um dos mais fortes já registrados, a primeira semana com intensidade muito forte só ocorreu em 3 de setembro. “Com os dados de julho já disponíveis, (…) tudo indica que o El Niño deste ano não só tem grande chances de ser o evento mais forte desde o início dos registros confiáveis, como também pode acabar sendo o mais forte por uma margem verdadeiramente impressionante”, avaliou o climatologista Zeke Hausfather, citado pela Yale Climate Connections.
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