09 Julho 2026
Estados e DF devem ainda aprovar planos de manejo integrado do fogo, enquanto setores econômicos já avaliam potenciais impactos do fenômeno.
A informação é publicada por ClimaInfo, 08-07-2026.
O governo federal demandou a estados e municípios a apresentação em até 30 dias de suas prioridades e planos para o enfrentamento dos efeitos do El Niño, especialmente na prevenção e combate a incêndios florestais. Segundo o Valor, a medida segue recomendação do Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo, foi assinada pelo ministro do Meio Ambiente João Paulo Capobianco e publicada na 4a feira (8/7) no Diário Oficial da União.
Estados e o Distrito Federal deverão ainda aprovar planos de manejo integrado do fogo e a regulamentação de medidas de prevenção e preparo em imóveis rurais que atendam a peculiaridades regionais. Os municípios também deverão apresentar seus planos, no que couber em suas competências legais. Com isso, a União pretende evitar a repetição do cenário de 2024, quando houve recorde histórico de incêndios no país no período em que um El Niño estava em vigor.
A expectativa é de que o fenômeno deste ano ganhe intensidade neste semestre, exatamente no período em que a maior parte do Brasil está sob condições mais secas. Além de aumentar o risco de incêndios florestais, o El Niño pode afetar diretamente a produção agrícola nacional, com efeitos potenciais sobre os preços dos alimentos.
De acordo com o Valor, a Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) está monitorando os efeitos do clima sobre os custos do setor. Segundo o vice-presidente da entidade, Márcio Milan, as condições climáticas potencialmente adversas, juntamente com as oscilações no preço do petróleo causadas pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, podem afetar a cadeia de abastecimento e os preços dos alimentos no país. Algumas culturas já registraram alta nos preços nos últimos meses, como batata, tomate e cebola.
O risco de novos eventos extremos no sul do Brasil é uma das preocupações do setor. Cerca de 70% da produção brasileira de arroz, um dos cereais mais consumidos do país, estão concentrados no Rio Grande do Sul. Para piorar, o risco de eventos extremos em outras regiões produtoras mundo afora, como o leste e o sudeste asiáticos, também indica a possibilidade de perturbações nos preços internacionais do arroz, assinala o Olhar Digital.
O quadro é preocupante para as principais commodities agrícolas do Brasil, informa o Investalk. Especialistas da FGV sinalizaram que, com um El Niño mais forte nos próximos meses, culturas como soja, milho, café e laranja devem ser as mais afetadas, com possível queda de produção de 7% a 10%.
O alerta foi reforçado pela consultoria StoneX, que indicou a possibilidade de redução na produção de commodities já a partir deste mês. “O terceiro trimestre será marcado pela consolidação do El Niño e por um aumento expressivo do risco climático em diversas regiões produtoras. O fenômeno tende a modificar padrões de chuva e temperatura em escala global, exigindo atenção redobrada de produtores e agentes do mercado”, afirmou Carolina Giraldo, analista da StoneX, ao Globo Rural.
Os impactos potenciais do El Niño sobre os preços não se limitam aos produtos agrícolas. A CNN Brasil ressalta o risco de alta no preço da energia elétrica em virtude das ondas de calor, que deverão ser mais frequentes em boa parte do país com o fenômeno. Com os reservatórios das hidrelétricas mais secos em decorrência da seca e a maior demanda por energia para refrigeração, o acionamento de termelétricas a combustíveis fósseis deve aumentar nos próximos meses, encarecendo a conta de luz dos brasileiros.
Em tempo 1
Dois anos depois do desastre climático no Rio Grande do Sul de maio de 2024, um levantamento da Matinal indicou que, apesar da implementação de várias medidas de prevenção nos últimos meses em Porto Alegre, como o fechamento definitivo de comportas e obras em diques, áreas como a zona sul da capital gaúcha e a região das ilhas seguem vulneráveis a novos episódios de enchente. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) chamou a atenção para o risco de novas chuvas volumosas nos próximos meses, como consequência do novo El Niño. Ainda que não seja possível afirmar que a cidade enfrentará novas enchentes, o alerta não deixa dúvidas sobre a necessidade de ações preventivas.
Em tempo 2
O noticiário sobre os riscos do El Niño tem focado bastante nos impactos potenciais na agricultura, especialmente nos grandes produtores de commodities. Curiosamente, mas não surpreendentemente, comunidades mais pobres e vulneráveis ao clima extremo são esquecidas pelos analistas e pelo poder público. Essa “invisibilização” é estratégica para determinados setores que precisam da exploração das pessoas e da Natureza para se manterem de pé, observam Celso Sanchéz e Alberto Calil Elias Jr., professores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), em artigo n’((o)) eco. “Por que Estado e sociedade civil selecionam as pessoas, os grupos, os setores que merecem ajuda e proteção, em detrimento da maioria da população?”, questionam.
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