29 Junho 2026
Na última década, a região testemunhou uma proliferação de governos conservadores com viés ultraliberal e estética MAGA, alimentados pela crise econômica, polarização política e declínio dos partidos de esquerda.
A informação é de Alberto Mesas, publicada por El Salto, 27-06-2026.
Primeiro veio Nayib Bukele e sua autocracia de terror semelhante a uma prisão em El Salvador; depois Javier Milei e sua abordagem implacável para restringir direitos e desmantelar serviços públicos na Argentina; algumas semanas depois, Daniel Noboa chegou ao poder no Equador com a ideia de militarizar o país sob o pretexto de combater o crime; Rodrigo Paz fez dos cortes e reduções de impostos para os ricos e corporações sua marca registrada na Bolívia; no Chile, José Antonio Kast se vangloria de ser filho de um oficial nazista que ocultou sua identidade para escapar da justiça e, como apoiador de Pinochet, pretende completar a transformação neoliberal da economia do país; e Nasry Asfura, além de ser presidente de Honduras, é um dos nomes nos Papéis de Pandora e enfrenta acusações de corrupção e desvio de verbas públicas.
Desde 2019, a América Latina tem se inclinado progressivamente para opções políticas de extrema-direita, levando governos conservadores ao poder e alterando o equilíbrio político da região, que havia sido dominado por líderes de esquerda na década anterior. Os exemplos mais recentes que confirmam essa tendência são o Peru e a Colômbia, onde Keiko Fujimori acaba de vencer as eleições peruanas por uma margem de apenas 43 mil votos, e Abelardo de la Espriella venceu o segundo turno das eleições presidenciais colombianas.
Crise econômica, populismo e o declínio da esquerda
Embora cada país tenha sua própria lógica interna e circunstâncias que explicam a mudança nas tendências, existem fatores comuns em todos os casos. Entre eles, destacam-se o descontentamento social com a situação econômica, a insatisfação política, o declínio de governos de esquerda que anteriormente detinham o poder em vários desses países, a mudança no discurso político para questões como segurança, crime organizado e inflação, e a ascensão de líderes populistas que prometem soluções rápidas para todos esses problemas. Outro elemento comum é a inspiração extraída da ideologia MAGA de Donald Trump e sua implementação nos EUA, com promessas focadas em cortes de impostos e na restauração da ordem.
Há alguns anos, a revista Electoral Studies publicou um estudo que estabeleceu uma clara ligação entre as taxas de criminalidade e o comportamento eleitoral em países latino-americanos como El Salvador e Honduras, demonstrando como líderes de extrema-direita exploram a insegurança pública para atrair votos.
Enquanto isso, o relatório mais recente sobre a região, publicado em maio pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), afirma que a América Latina e o Caribe se tornaram a região mais polarizada do mundo, com uma dinâmica em que a política deixou de ser uma disputa de ideias e se transformou em um choque entre blocos irreconciliáveis. A organização também alerta que essa tensão ocorre em um clima de crescente violência política e desconfiança institucional, além de uma crescente insatisfação pública com a democracia como modelo de convivência.
No entanto, em sua análise das eleições latino-americanas de 2026, os pesquisadores Carlos Malamud e Rogelio Núñez, do Instituto Real Elcano, afirmam que é insuficiente falar de uma única “onda de direita”, pois o fenômeno envolve uma combinação de fatores regionais e dinâmicas nacionais distintas. Além disso, apontam que os votos de protesto e a busca por alternativas que promovam a ordem e a estabilidade estão favorecendo partidos de direita em diversos países, embora isso não implique um padrão único ou uma fórmula política uniforme em toda a região.
O cientista político argentino Andrés Malamud argumenta há anos que a característica dominante na América Latina não é mais tanto a polarização ideológica, mas sim uma crise de representação. Malamud acredita que esse fenômeno decorre do colapso dos sistemas partidários tradicionais e da tendência de votar contra os governos no poder, e não de uma consolidação de ideologias de esquerda ou de direita: “Em oito das dez eleições recentes, forças que nem sequer existiam uma década antes triunfaram”, explica, acrescentando que “mais da metade dos partidos latino-americanos criados no século XXI que chegaram à presidência já desapareceram”.
Malamud também fala sobre como “a América Latina está vivenciando a armadilha das democracias medíocres” e insiste que a democracia está funcionando apenas como uma substituta para as elites e não como um sistema que aprimora a governança, algo que contribui para essa crise de representatividade e acelera os ciclos de desgaste dos governos eleitos. “Somos governados por pessoas que não estavam preparadas para isso”, enfatiza, e afirma que “o que está acontecendo conosco na América Latina também está acontecendo no Ocidente. Não está acontecendo apenas conosco”.
El Salvador: o modelo absolutista que seus vizinhos estão tentando replicar
El Salvador é o caso mais extremo de concentração de poder dentro dessa guinada à direita na região. Nayib Bukele chegou ao poder em 2019 e, desde então, acumulou poder político e institucional em torno de si, a ponto de eliminar os limites de mandato. Sua política emblemática é a guerra total contra as gangues criminosas, mesmo que isso signifique violar os direitos humanos e as liberdades fundamentais.
Desde 2022, o governo salvadorenho mantém um estado de emergência que suspende certas garantias constitucionais como parte de sua luta contra as gangues, uma medida que o parlamento prorrogou em diversas ocasiões. Essas políticas reduziram significativamente a taxa de homicídios no país, mas diversas organizações internacionais e de direitos humanos, como a Human Rights Watch e a própria ONU, denunciaram prisões em massa, a falta de devido processo legal e a imensa concentração de poder no executivo.
Ainda assim, o modelo salvadorenho tornou-se um exemplo para vários líderes latino-americanos que defendem o mesmo discurso de fortalecimento da segurança e da ordem em contextos de crise, e outros governos da região, como o do Equador, tentaram tomar medidas na mesma direção.
Argentina: o ponto de virada
Javier Milei assumiu a presidência da Argentina no fim de 2023, em meio a uma profunda crise econômica marcada por alta inflação. Durante sua campanha, Milei adotou um discurso linha-dura, criticando duramente a intervenção estatal e lançando propostas baseadas na redução dos gastos públicos, na dolarização da economia e na implementação de uma ampla gama de privatizações de empresas e serviços públicos. Ao mesmo tempo, ele atacou as elites e o establishment argentinos. Três anos depois, o desemprego na Argentina subiu de 5,7% para quase 8%, e a inflação que ele prometeu reduzir permanece acima de 3%.
A vitória de Milei também foi influenciada pelo declínio do peronismo, personificado pelo ex-presidente Alberto Fernández, e pela fragmentação interna das tradicionais coligações de centro-esquerda. Desde então, mudanças de poder semelhantes ocorreram na região, onde as forças de direita ampliaram significativamente sua base eleitoral.
Equador: Continuação de uma abordagem intransigente
No Equador, a permanência de Daniel Noboa no poder confirma a guinada conservadora na América Latina. Noboa foi reeleito em 2025, em um contexto marcado por episódios de violência ligados ao crime organizado e ao narcotráfico. Assim como em El Salvador, esse fator foi crucial. Durante a campanha eleitoral, Noboa prometeu mão de ferro e estabilidade e, uma vez no poder, conseguiu direcionar o debate público para a segurança e o controle territorial.
Além disso, os recentes ciclos eleitorais equatorianos também se desenrolaram em um contexto de intensa polarização política e clara fragmentação do sistema partidário, contribuindo para a instabilidade institucional do país. O socialista Correa e sua "Revolução Cidadã" deram lugar primeiro a Lenín Moreno, com uma agenda nitidamente neoliberal, e depois ao banqueiro Guillermo Lasso, que deu continuidade à tendência até a ascensão de Noboa ao poder.
Bolívia: instabilidade após 20 anos de Evo Morales
A Bolívia representa um dos casos mais complexos dentro dessa transição na América Latina. Nas eleições gerais de agosto de 2015, o país entrou em um novo ciclo político após quase duas décadas de hegemonia do Movimento para o Socialismo (MAS) de Evo Morales e Jorge Quiroga. Em 2019, ocorreu um golpe de Estado contra Morales, que foi acusado de fraude eleitoral, e durante um ano o governo esteve nas mãos da liberal conservadora Jeanine Áñez.
Um ano depois, em 2020, as eleições deram a vitória a Luis Arce (MAS), mas, embora seu partido tivesse mantido o controle do Poder Executivo e de uma parcela significativa do Legislativo, as tensões internas entre Arce e Evo Morales gradualmente dividiram a coalizão governista. Nas eleições mais recentes, em 2025, a campanha foi marcada pela recessão econômica do país devido à escassez de moeda estrangeira e pelos protestos de uma parcela significativa da população indígena contra a cassação do mandato de Evo Morales pela Corte Constitucional da Bolívia.
Peru e Colômbia: vitórias por menos de 1% dos votos
Os resultados das eleições presidenciais no Peru e na Colômbia, realizadas nas últimas semanas, deram continuidade à tendência de guinada conservadora observada em outros países da região. Contudo, em ambos os países, a margem de vitória foi inferior a 1%.
No Peru, a candidata de direita Keiko Fujimori — concorrendo pela quarta vez consecutiva a uma eleição geral — obteve 50,11% dos votos no segundo turno, contra 49,88% de seu rival, o esquerdista Roberto Sánchez. Há alguns dias, Sánchez tentou, sem sucesso, anular os votos de peruanos residentes no exterior, alegando fraude, pois os consulados não são obrigados a transmitir digitalmente os resultados da votação no exterior e enviar as atas de apuração físicas para Lima. De qualquer forma, o líder do partido Juntos pelo Peru já anunciou que não reconhecerá o governo de Fujimori.
Na Colômbia, o segundo turno das eleições resultou na vitória de Abelardo de la Espriella, com 49,6% dos votos, contra 48,7% de Iván Cepeda. Assim como no Equador e em El Salvador, a campanha de De la Espriella focou em propostas para fortalecer as políticas de combate ao crime organizado e ao narcotráfico, além de promessas econômicas relacionadas à redução do tamanho do Estado e ao corte de gastos públicos.
Após o anúncio dos resultados, milhares de pessoas organizaram manifestações em cidades como Bogotá e Cali contra a vitória de De la Espriella. O ex-presidente Gustavo Petro, por sua vez, pediu calma, embora não tenha chegado a reconhecer imediatamente os resultados.
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