O monopólio da homilia e o problema da formação teológica. Artigo de Jung Mo Sung

Foto: RDNE Stock project | Pexels

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25 Junho 2026

"Padres incapazes de entender o que está acontecendo no mundo e oferecer palavras de coragem e esperança correm o risco de cair em um cristianismo idolátrico só para manter o seu lugar e sua importância nas comunidades", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.

Eis o artigo.

Recentemente saiu a resposta do Dicastério para o Culto Divino a um pedido da Conferência dos Bispos de Alemanha para a permissão de leigos pregar na missa. A resposta foi que a homilia é parte integrante da liturgia e inseparavelmente ligada à proclamação do Evangelho e à presidência da celebração. Isto é, reservada, monopólio, a sacerdotes e diáconos.

Eu não quero refletir aqui o fundamento pastoral e teológico do pedido dos bispos da Alemanha, nem a base teológica da resposta, mas sim o papel e o lugar do padre e do diácono (homens ordenados, vistos como pessoas “sagradas”) na comunidade e na sociedade. Para a tradição católica, como sabemos, o sacramento ou ritual mais importante na comunidade e para pessoas que a frequentam é a missa. Na compreensão da maioria dos católicos, a parte principal da missa é a consagração e a comunhão. Até mesmo para muitos dos padres celebrantes, a homilia não é algo central da missa, por isso não muito preparado. No tempo em que estudei e posteriormente tive contato com seminaristas nas faculdades de teologia católica, não havia disciplina ou curso sobre a homilética.

Enquanto que nas igrejas protestantes e evangélicas, a parte principal do culto é a pregação, por isso a grande maioria dos pastores e pastoras a preparam com cuidado e é marcada pela argumentação bíblico-teológica. Por outro lado, nas igrejas pentecostais e neopentecostais, a característica mais importante da pregação, que é também a parte central do culto, é gerar a experiência afetivo-espiritual-corporal dos participantes.

Na medida em que, no mundo em que vivemos, os ritos católicos da missa (que não podem mudar muito para se adaptar às mudanças culturais) não geram tanta experiência e/ou chaves de interpretação do que está acontecendo na vida dos membros da comunidade e na sociedade, a homilia passou a ser um elemento fundamental. A formação teológica tradicional dos seminaristas e dos padres é centrada no estudo dos conceitos, teorias e argumentações bíblico-teológicas que são considerados quase imutáveis. Isto é, essa formação é focada, como era de se esperar, naquilo que é mais considerado “permanente”. Não importa muito se a teologia que o padre estudou foi a escolástica ou a moderna, a perspectiva era do “eterno” ou “permanente”, seja na sua perspectiva filosófica ou teológica.

O problema é que a homilia dos celebrantes da missa feita ou preparada com o esse tipo de conhecimento bíblico-teológico não conecta com os problemas concretos da vida pessoal, da comunidade e da sociedade. Para isso, esses celebrantes deveriam ter sido formados ou estudado buscando também conhecimentos de ciências humanas e sociais. Na tradição católica, a filosofia sempre foi vista como um instrumento necessário para estudar e/ou produzir teologia, dois conhecimentos que interpretam a realidade na perspectiva da “eternidade”. Com a passagem do mundo pré-moderno para o moderno e o surgimento das ciências naturais e das humanas e sociais, uma formação de padres ou de teólogos/as sem estudo dessas ciências se tornou insuficiente ou incapaz de responder às perguntas e problemas reais.

Temos aqui um problema estrutural. Segundo o Vaticano, o padre tem o monopólio de algo que se tornou socialmente importante na missa: a pregação ou uma palavra teológica que ilumine e fortaleça a fé dos católicos em mundo confuso e inseguro. Só que a sua formação não é ou não foi adequada ou insuficiente. A não ser que a sua comunidade seja marcada pelo desejo de “fugir do mundo” e se refugiar em uma “bolha”. Para isso, repetir discursos sem sentido, justificados com ritos religiosos que não são de origem cristãs. Padres incapazes de entender o que está acontecendo no mundo e oferecer palavras de coragem e esperança correm o risco de cair em um cristianismo idolátrico só para manter o seu lugar e sua importância nas comunidades.

A encíclica Magnifica Humanitas é um exemplo do desafio teológico-formativo que devemos enfrentar. Ela é brilhante, enfrenta grandes desafios conceituais e sócio tecnológicos do nosso tempo e oferece conceitos e teorias, que vem da teologia e dos conhecimentos filosófico científicos, para iluminar o mundo. Nesse sentido, esse documento é mais do que tradicionalmente se entendia de Doutrina Social da Igreja, é um “ensinamento da Igreja ao mundo”, que dialoga com o mundo.

O desafio então é como ajudar lideranças das comunidades/igrejas particulares concretas (padres, freiras...), que estudaram teologia nos últimos 25, a dialogar com a comunidade e a sociedade sobre temas teológico fundamentais do nosso tempo que o Papa Francisco e o Leão XIV apontam: a idolatria do dinheiro, a crise ambiental e a Inteligência Artificial.

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