24 Junho 2026
Roma fecha mais uma vez as portas para a pregação de leigos na Eucaristia, mesmo em casos excepcionais, reabrindo um debate fundamental sobre a sinodalidade e o modelo da Igreja.
O artigo é de José Carlos Enríquez Díaz, teólogo, publicado por Religión Digital, 23-06-2026.
Eis o artigo.
Com o esvaziamento das comunidades e a escassez de sacerdotes, a questão deixa de ser meramente normativa: passa a ser se a Igreja realmente confia no seu próprio Povo de Deus.
Roma fechou mais uma vez as portas para que leigos qualificados profiram homilias na celebração eucarística, mesmo em casos excepcionais, reabrindo um debate fundamental sobre a sinodalidade e o modelo da Igreja. Enquanto as comunidades se esvaziam e os sacerdotes se tornam escassos, os espaços de participação, que muitos consideram cada vez mais difíceis de compreender, continuam a ser silenciosamente fechados.
Esta não é uma questão menor de disciplina litúrgica. É um sinal de uma Igreja que continua a restringir o acesso à palavra durante o momento central da Eucaristia, como se a pregação fosse um privilégio reservado e não um serviço ao Evangelho. O argumento oficial é bem conhecido: a homilia pertence ao ministério ordenado em virtude de sua ligação com o sacramento da Ordem. Mas a questão já não é meramente teológica, mas pastoral: pode essa exclusividade ser sustentada quando tantas comunidades carecem de sacerdotes suficientes, a participação está diminuindo e as igrejas estão se esvaziando?
O Evangelho introduz uma tensão difícil de ignorar: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8) . Esta afirmação desafia qualquer estrutura que conduza a uma separação rígida no seio do Povo de Deus, especialmente quando se torna um obstáculo à participação genuína na vida da Igreja.
Embora o direito exclusivo de proferir homilias ainda seja atribuído a padres e diáconos, em muitas comunidades não há ninguém para pregar regularmente, ninguém para acompanhar os processos espirituais e ninguém para manter uma presença litúrgica estável. Contudo, persiste uma barreira que impede leigos e leigas capacitados, com experiência pastoral e maturidade espiritual, de assumirem esse papel.
O próprio Jesus adverte: “Quem quiser tornar-se grande entre vocês deverá ser servo de todos” (Marcos 10:43) . No entanto, a percepção crescente em muitos setores eclesiais é de que a palavra pública na liturgia continua a funcionar como um espaço reservado, difícil de compartilhar, mesmo quando a necessidade pastoral é evidente.
Falamos de sinodalidade, de caminhar juntos, de ouvir o Povo de Deus. Mas quando esse mesmo povo propõe assumir uma participação real maior, a resposta torna-se novamente uma limitação. Uma sinodalidade que não afeta a pregação corre o risco de permanecer mera retórica, sem consequências concretas na vida da Igreja.
A contradição torna-se mais evidente quando se observa a realidade: inúmeros leigos e leigas são formados em teologia, possuem experiência pastoral e a capacidade de comunicar a fé, mas são relegados a papéis secundários. Enquanto isso, muitas comunidades dependem de celebrações sem homilias ou de intervenções ocasionais que nem sempre se conectam com a vida real das pessoas.
Paulo nos lembra que, na comunidade cristã primitiva, os dons espirituais eram compartilhados para o bem comum: “cada um pode profetizar” (cf. 1 Cor 14,31) . Essa lógica de participação contrasta com a percepção atual de acesso muito restrito à palavra proclamada na liturgia.
Não se trata de substituir sacerdotes ou diluir o ministério ordenado. Trata-se de reconhecer que a Igreja no século XXI vivencia uma nova situação, com menos clérigos, maior dispersão territorial e comunidades que não conseguem se sustentar com o modelo tradicional sem aumentar as tensões. Nesse contexto, impedir qualquer forma de pregação leiga qualificada na Eucaristia pode ser percebido como uma rigidez difícil de manter pastoralmente.
O próprio mandato missionário de Jesus aponta para uma Igreja que vai ao encontro do mundo: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho” (Mc 16,15) . A proclamação não aparece como monopólio de uma elite fechada, mas como uma missão confiada a todos os discípulos.
Entretanto, a realidade caminha em outra direção. Unidades pastorais estão se agrupando por necessidade, sacerdotes estão assumindo responsabilidades cada vez maiores e muitas comunidades se veem com uma vida litúrgica frágil. Nesse contexto, a exclusividade absoluta da homilia surge para muitos como uma oportunidade perdida para a revitalização da Igreja.
O próprio Jesus enfatiza que o Espírito não está limitado por estruturas: “o Espírito sopra onde quer” (João 3:8) . Esta afirmação desafia qualquer tentativa de confinar a ação de Deus a limites excessivamente rígidos.
O efeito pastoral desta situação é visível: distanciamento, desconexão e, em muitos casos, abandono silencioso. Não porque o Evangelho seja rejeitado, mas porque muitos não conseguem encontrar espaços onde a sua experiência de fé tenha voz no coração da celebração.
Quando a mensagem se concentra em um único grupo e o restante permanece como ouvinte passivo, a comunidade se empobrece. E quando a comunidade se empobrece, a pregação perde sua vitalidade porque se desconecta da vida real dos fiéis.
Jesus também adverte sobre a discrepância entre palavras e ações: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Marcos 7:6) . Essa tensão permanece relevante quando a pregação falha em integrar a experiência concreta do povo de Deus.
Não se trata de romper com a tradição, mas de nos perguntarmos se a fidelidade ao Evangelho não exige hoje novas formas de corresponsabilidade. A Igreja não é uma estrutura fechada de transmissão vertical, mas uma comunidade de batizados onde o dom do Espírito se distribui de diversas maneiras.
A questão fundamental não é apenas quem pode pregar, mas que tipo de Igreja está sendo construída: uma Igreja onde a palavra é compartilhada ou uma Igreja onde a palavra é retida.
Talvez o verdadeiro desafio não seja de disciplina, mas de credibilidade. Uma Igreja que não confia em seu próprio povo para proclamar a Palavra acaba enfraquecendo sua própria missão. E uma Igreja que restringe a pregação a um círculo cada vez menor corre o risco de falar muito, mas ser ouvida cada vez menos.
O futuro dependerá não apenas de reformas estruturais, mas também da capacidade de reconhecer que o Espírito não pode ser confinado. Ou a Igreja caminha rumo a uma genuína corresponsabilidade na pregação, ou continuará a perder não só fiéis, mas também a sua capacidade de ser relevante no mundo contemporâneo.
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