Somos feitos da essência do trauma porque não vivemos mais em sonhos. Artigo de Massimo Recalcati

Foto: Savannah Bolton/Unplash

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12 Junho 2026

Interpretar o inconsciente não basta para analisar o sofrimento contemporâneo. Essa reflexão é apresentada em um novo ensaio do psicoterapeuta Nicolò Terminio.

O artigo é de Massimo Recalcati, psicanalista italiano, publicado por La Repubblica, 12-06-2026.

Eis o artigo.

Trauma e Desejo, de Nicolò Terminio, um brilhante psicanalista com formação em literatura lacaniana, é um livro oportuno: nosso tempo não é mais o tempo dos sonhos, mas o do trauma. O tecido que governa a ordem simbólica não apenas dos indivíduos, mas de toda a nossa civilização, parece estar sendo desmembrado, abalado pela erupção de uma realidade que se apresenta totalmente incontrolável.

Por mais de um século, a psicanálise tem sido identificada com o trabalho de interpretar o inconsciente, que encontrou seu "caminho real" na leitura dos sonhos. Praticar a psicanálise significava decifrar a linguagem dos sonhos, desvendar os enigmas dos sintomas, traduzir o que parece opaco e incompreensível em uma narrativa significativa. Essa tem sido a vocação epistemológica mais aberta da psicanálise: conhecer, elaborar e interpretar.

Uma vocação que encontrou sua formulação mais rigorosa na tradição freudiana e continua a representar um elemento essencial da experiência analítica. Terminio nos lembra, no entanto, que essa aplicação clássica da psicanálise não pode ser praticada no tratamento de pacientes com transtorno de personalidade borderline. Baseando-se em temas já desenvolvidos em sua notável obra The Borderline Swarm, ele nos lembra que, no sujeito borderline, o evento traumático se revela antes de tudo como uma ruptura na narrativa, que é o que permite à experiência adquirir significado. Não é coincidência que o sujeito borderline tenda a agir impulsivamente em vez de pensar reflexivamente.

Trauma e desejo, livro de Nicolò Terminio. (Foto: Reprodução)

Seguindo uma distinção proposta por Thomas Ogden, ele mostra como a "perspectiva epistemológica" da psicanálise é insuficiente para dar conta das formas mais severas de sofrimento contemporâneo. Paralelamente a uma psicanálise epistemológica, existe uma psicanálise "ontológica". Se a primeira gira em torno do ato de conhecer, a segunda coloca o problema do ser em seu centro. Enquanto a primeira enfatiza a interpretação e a elaboração, a segunda concentra-se na própria possibilidade de estabelecer uma relação humana que não seja continuamente ameaçada pelo caos, pela fragmentação e pela aniquilação. Esta é uma diferença crucial que permeia todo o raciocínio clínico de Terminio.

Nas chamadas organizações de personalidade borderline, o sujeito sofre não primariamente de um conflito reprimido à espera de interpretação, mas de uma precariedade radical ligada à sua própria inconsistência psíquica. É o que o autor define como a "turbulência do enxame significante" que se choca com a estrutura estável e codificada da linguagem. No sujeito borderline, a experiência da "continuidade do ser" (Winnicott) é traumaticamente interrompida por um Outro que, em vez de aliviar a ansiedade, a difunde além da medida.

Esse Outro não transmite nem o sentimento de vida nem a possibilidade geradora do desejo, mas um transtorno emocional e cognitivo que parece não conhecer limites. A dissociação permanece a resposta mais típica do sujeito borderline a um Outro que invadiu abusivamente sua existência. Esta é uma variante particular do mecanismo de segurança que hoje parece permear não só a clínica, mas também a nossa civilização: a relação com o Outro é vivenciada como uma ameaça desestabilizadora que exige um fortalecimento patológico das defesas.

Isso impede o sujeito de construir sua própria narrativa histórica. Nesses casos, a tarefa do analista não é a semântica de um arqueólogo desenterrando artefatos, mas sim a de alguém que, caminhando ao lado do paciente, tenta construir uma representação mais confiável e menos ameaçadora do Outro. Há situações clínicas em que a função terapêutica fundamental não coincide com a aquisição de novos conhecimentos, mas com a construção de uma relação terapêutica capaz de sobreviver à destrutividade, ao medo e à desorganização. Se as neuroses clássicas questionavam o desejo e suas vicissitudes, muitas formas de sofrimento contemporâneo questionam, em vez disso, a resistência narcisista do sujeito.

Não se trata mais de libertar uma palavra aprisionada pela repressão, mas de criar as condições para que a palavra em si venha à luz. Nesse sentido, Trauma e Desejo é também um livro sutilmente político. A fragmentação vivenciada por pacientes com transtorno de personalidade borderline não pode ser dissociada do clima cultural em que estamos imersos: a erosão dos laços e sua introversão, a crise das afiliações ideológicas e seu retorno desastroso, a precariedade das identidades e seu ressurgimento fundamentalista produzem sujeitos cada vez mais expostos à experiência da dispersão e da fragmentação. Não é coincidência que Terminio identifique uma profunda homologia entre a condição subjetiva borderline e o discurso de Lacan sobre o capitalista. O circuito do desejo é substituído pelo imperativo do gozo, tão imediato quanto cada vez mais compulsivo e dissociado. Este livro não é apenas uma contribuição original para a teoria dos transtornos de personalidade borderline, mas também uma reflexão sobre o nosso tempo.

A tarefa que Terminio atribui ao psicanalista que trabalha com pacientes borderline — a de agregar seus fragmentos traumáticos em uma estrutura simbólica — não difere em nada daquela que afeta drasticamente a ação política.

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