A sustentável leveza de matar. Como os drones estão revolucionando as guerras

Foto: Rawpixel

Mais Lidos

  • Ser Papa em tempos de “anticristos”. Artigo de Leonardo Boff

    LER MAIS
  • EUA, uma equipe inter-racial e mestiça, entram em campo em um estádio que teme as batidas de imigração de Trump

    LER MAIS
  • Trump suspende ataques ao Irã e anuncia um acordo que Teerã nega

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

13 Junho 2026

"Assim, a violência encontrou uma maneira de se tornar sustentável para quem a pratica e insustentável para quem a sofre, alimentando a ilusão do confronto breve, cirúrgico, com zero mortes. Entre o próprio grupo, é claro. Uma arma digna de nossa época tão civilizada."

O artigo é de Gabriele Segre, publicado por La Stampa, 10-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Gabriele Segre é especialista em questões de identidade e coexistência. Trabalhou durante anos para as Nações Unidas, lidando com questões de liderança e reforma da ONU. Tem doutorado em políticas públicas e liderança pela Universidade de Cingapura, mestrado pela Universidade de Columbia e bacharelado pela Universidade Católica de Milão.

Eis o artigo. 

Nova rodada, o mesmo "chapéu mexicano" enlouquecido. Escalada entre o Hezbollah e Israel. De novo. Beirute e Galileia bombardeadas. De novo. O Irã ataca Israel e Israel responde, enquanto Trump já não sabe para onde se virar para não ser engolido pelas areias movediças do Oriente Médio. De novo. Todos empenhados em não perder uma única rodada, na desesperada tentativa de provar que ainda estão vivos e no comando. Para entender alguma coisa, precisamos inverter a perspectiva. Parar de seguir declarações oficiais, cúpulas diplomáticas e mapas estratégicos animados na TV e começar a prestar atenção aos ruídos de fundo.

Melhor dizendo, aos zumbidos — aqueles metálicos, sutis e aparentemente insignificantes —, que na verdade são uma das chaves de leitura mais poderosas para entender o mundo que explode ao nosso redor. É o som da guerra contemporânea: aquela dos drones, travada a milhares de quilômetros de distância em salas de operações climatizadas que lembram mais um open space em Cupertino do que o front oriental de 1944.

Uma guerra confortável, ordenada, quase natural. Leve.

E pensar que, por milênios, matar o inimigo havia sido uma tarefa tremendamente árdua. Fisicamente, antes de tudo. Exigia estar perto o suficiente para sentir o cheiro de seu sangue, do suor e do medo. Era preciso olhar em seus olhos enquanto morria. Não por acaso toda civilização teve que inventar um arsenal psicológico para tornar isso suportável: rituais, drogas, liturgias marciais, códigos de honra, epopeias heroicas, paraísos no além e narrativas coletivas gigantescas.

Qualquer coisa a fim de convencer os seres humanos a fazer a coisa menos natural que existe: massacrar outros seres humanos. O problema atávico da guerra sempre foi a irritante tendência da nossa espécie de sofrer diante do sofrimento alheio. Um defeito de fábrica, evidentemente ainda não totalmente corrigido.

Felizmente, a tecnologia trabalhou incansavelmente para resolver o inconveniente. Primeiro o fuzil, que permitia matar sem ter que se cobrir com o sangue do inimigo. Depois, a artilharia, incrivelmente cômoda para despedaçar o outro sem sequer ver seu rosto. Melhor ainda: os bombardeiros, perfeitos para arrasar cidades inteiras do alto sem nem ouvir seus gritos. O drone, no entanto, realiza o salto definitivo: não é mais apenas o corpo que se distancia da guerra, mas toda a sua percepção. Transforma-a em uma interface, em modalidade multiplayer.

Eis, então, os novos guerreiros: dezessete anos, moletom, energéticos à mão e playlists do Spotify nos fones de ouvido. Olhos fixos numa tela. Movem um joystick. Pilotam drones FPV que disparam como vespas enlouquecidas. Procuram o alvo, o encontram. Fim de jogo. Acabaram de travar a guerra de seus próprios quartos, como em um videogame, com a única diferença de que aqui os alvos não reaparecem na próxima partida. Os exércitos ucraniano e russo estão recrutando abertamente jogadores e adolescentes que cresceram em meio a simuladores e jogos arcade competitivos. "Se eles têm experiência com o PlayStation, é uma grande vantagem." Treinados por anos nos mundos virtuais sem nem perceber. É assim também que a guerra deixa de parecer um evento excepcional e monstruoso, e se torna administrável, familiar, cotidiana. Nada de sangue espirrando na cara. Nada de lama nas botas. O guerreiro 4.0 volta para casa à noite, pede sushi pelo iFood e liga a Netflix.

É uma estratégia que não apenas muda a natureza do combate: muda a sua percepção. Afinal, o que pode fazer um pequeno drone? É leve demais, falta-lhe majestade para mudar o curso da história. E é exatamente assim que a escalada cresce, enxame após enxame, microataque após microataque, até que a leveza se torne irreversível. Alguns argumentam — com razão — que não é tão simples assim, que até mesmo os pilotos de drones sofrem de estresse pós-traumático. É verdade, mas a tecnologia já está resolvendo isso: estão chegando os primeiros drones autônomos, guiados por inteligência artificial, capazes de selecionar seus alvos e atacar por conta própria. Desaparece o carnífice traumatizado, fica apenas a carnificina.

Essa é a característica fundamental da leveza das guerras modernas: funciona numa única direção. Se quem ataca vive o conflito como uma experiência — pelo menos idealmente — cada vez mais mediada, distante e esterilizada, quem o sofre continua a vivê-lo na carne viva, como sempre.

Basta ouvir as histórias de civis ucranianos, russos, de Gaza, israelenses ou libaneses. Aquele zumbido invade os sonhos, transforma o céu em uma ameaça permanente.

De baixo custo, imediato e facilmente replicável: o drone é o reflexo perfeito da nossa era. E como toda arma antes dele, mais cedo ou mais tarde vai sair do campo de batalha e chegar às ruas. Aconteceu com a espada, com o fuzil, com a pistola, com o explosivo. Acontecerá também com os drones. Os cartéis mexicanos já estão estudando as técnicas ucranianas. Organizações criminosas os estão integrando em seus ecossistemas operacionais. As forças policiais europeias e estadunidenses discutem abertamente o risco de ataques urbanos, sabotagens, tumultos de rua ou acertos de contas entre grupos extremistas realizados do alto. Adeus coquetéis Molotov e cartas-bomba: até mesmo os tumultos corriqueiros exigem um upgrade tecnológico.

Assim, a violência encontrou uma maneira de se tornar sustentável para quem a pratica e insustentável para quem a sofre, alimentando a ilusão do confronto breve, cirúrgico, com zero mortes. Entre o próprio grupo, é claro. Uma arma digna de nossa época tão civilizada.

Leia mais