“No oceano de más notícias que inunda o mundo, vivemos de pequenos milagres”. Entrevista com Nancy Fraser

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11 Junho 2026

O economista Gonzalo Martner reproduziu a entrevista dada por Nancy Fraser ao Le Monde, publicada em 29 de maio e realizada por Pascal Riché, na qual ela analisa o colapso dos partidos de centro e a ascensão da extrema-direita como “a consequência das políticas econômicas aplicadas há décadas”.

A entrevista é de Pascal Riché, publicada originalmente por Le Monde e reproduzida por El Clarín de Chile, 06-06-2026.

Ela sustenta a ideia de uma interação entre o que chama de “populismo progressista” e o socialismo democrático: “Eu não sou uma ‘populista’, mas uma ‘socialista democrática’. No entanto, penso que o populismo progressista pode ser a porta de entrada para que as classes populares e médias retomem o controle de seu destino”, considera.

“Retomando o controle do excedente, o socialismo democrático poderá investir no que é indispensável para a sociedade: a ecologia, a saúde, a redução do tempo de trabalho, a diminuição da idade de aposentadoria…”, avalia.

Figura maior da teoria crítica, Nancy Fraser (1947) é professora de filosofia e ciência política na New School for Social Research, em Nova York. Para ela, a justiça social não pode ser reduzida à igualdade econômica, nem ao reconhecimento cultural, mas deve articular as duas dimensões: “a justiça hoje requer tanto redistribuição quanto reconhecimento”.

Fraser critica o que chama de “neoliberalismo progressista”, ou seja, a aliança entre políticas econômicas neoliberais e discursos de diversidade, mérito e inclusão que não alteram as estruturas de classe e de poder.

Eis a entrevista.

A progressão dos “ecopopulistas” do Green Party no Reino Unido, nas eleições locais de 7 de maio, e a conquista da prefeitura de Nova York pelo socialista Zohran Mamdani, em 4 de novembro de 2025, validam a estratégia do “populismo progressista” que você defende?

Essas eleições confirmam, antes de tudo, o colapso dos partidos que ocuparam o poder por muito tempo. Nos Estados Unidos, os partidos Republicano e Democrata estão ambos em crise.

Do lado republicano, Donald Trump conseguiu tomar o controle do movimento, impondo orientações muito distantes das posições tradicionais. Mas sua base MAGA (Make America Great Again) se encontra atualmente dividida no tocante à questão da guerra. Embora controle todos os mecanismos do governo, seu partido atravessa uma crise profunda.

Do lado democrata, assistimos a uma série de desastres eleitorais. A responsabilidade recai sobre a ala centrista do partido, na linha de Bill Clinton e Barack Obama. Em cada eleição, tentam desesperadamente marginalizar a ala esquerda encarnada pelo senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. E, no entanto, essa corrente segue crescendo. A ala centrista, ao contrário, atravessa uma crise de identidade. Seus dirigentes são incapazes de fazer a autópsia de seus fracassos, o de 2024, mas também os anteriores.

Não estamos observando a mesma evolução na Europa?

Sim, observam-se transformações muito semelhantes na paisagem política. Os partidos de centro afundam, a extrema-direita ascende, a esquerda radical avança. É o caso do Reino Unido, da Alemanha e da França. No Reino Unido, assistimos à queda do Partido Trabalhista, no contexto da disputa entre uma ala esquerda do partido, por muito tempo encarnada por Jeremy Corbyn, e um campo blairista conduzido pelo enfraquecido primeiro-ministro Keir Starmer. E o Green Party ocupa esse vazio. O Partido Conservador, por sua vez, recua em benefício do partido de extrema-direita de Nigel Farage, Reform UK.

Na França, um fenômeno semelhante está em curso há anos, com a diluição do Partido Socialista, disputado à esquerda por La France Insoumise e, à direita, pelo enraizamento do Rassemblement National. Na Alemanha, o mesmo ocorre: o Partido Social-Democrata (SPD) está em crise e, à direita, avança o partido radical Alternativa para a Alemanha (AfD). Trata-se, portanto, de uma história muito semelhante que se desenvolve em todas as partes. O centro já não se sustenta.

Quer dizer que os êxitos de Zohran Mamdani, em Nova York, e de Zack Polanski, no Reino Unido, se devem menos ao seu posicionamento e estratégia do que ao colapso da esquerda centrista?

Sim, embora suas estratégias tenham méritos. No caso de Nova York, uma cidade profundamente democrata, Mamdani tinha à sua frente dois candidatos democratas comprometidos: o ex-prefeito Eric Adams, envolvido em um caso de corrupção, e o ex-governador Andrew Cuomo, acusado de agressões sexuais. Ainda assim, Mamdani, oriundo de uma família indiana e crítico severo de Israel, conduziu com sucesso uma campanha particularmente dinâmica, mobilizando até 100 mil jovens voluntários vindos da esquerda nova-iorquina e dos movimentos anti-ICE. Ele soube combinar um discurso favorável às classes populares, insistindo no poder de compra, com uma valorização dos migrantes.

Essa combinação mostrou-se muito poderosa. Uma estratégia eleitoral desse tipo, promissora, poderia ser replicada nos Estados Unidos e em outros lugares. Mamdani também conseguiu atrair o voto dos judeus, muito importante em Nova York, o que não era nada fácil, pois condenou com muita clareza os massacres em Gaza.

Nos Estados Unidos - como no Reino Unido - assistimos a uma estigmatização da solidariedade pró-palestina. A acusação de antissemitismo foi utilizada como uma arma poderosa contra a esquerda; quando, se há um setor da sociedade estadunidense em que o antissemitismo realmente está crescendo, é precisamente na extrema-direita. Mas essa tática não funcionou em Nova York.

Como você explica que, em muitos países, o colapso dos partidos de governo beneficie sobretudo a extrema-direita?

O que esses partidos propõem é uma narrativa simplificada da realidade, acompanhada da designação de bodes expiatórios: às vezes os migrantes, às vezes os muçulmanos, às vezes as pessoas trans… Na história política da Europa e dos Estados Unidos, esse procedimento reaparece regularmente, sobretudo em períodos de crise. Mas os sucessos da extrema-direita são, antes de tudo, consequência das políticas econômicas aplicadas há décadas.

De fato, elas afetaram as condições de vida de dois terços da população. Os partidos de governo frequentemente se apresentavam como “progressistas” porque defendiam os homossexuais, as mulheres, a sociedade multicultural… Mas seu programa econômico era neoliberal: financeirização, desindustrialização, deslocalizações, enfraquecimento dos sindicatos, questionamento da idade de aposentadoria… É o que chamei de “neoliberalismo progressista”.

As causas societais estavam ali como ornamentação. Muitos movimentos de defesa das mulheres ou das minorias caíram nessa armadilha e acompanharam esse movimento. Ao agirem assim, abandonaram a maioria das mulheres, das pessoas negras, dos migrantes, ou seja, as classes trabalhadoras. Os cidadãos afetados pelas políticas neoliberais fizeram, então, naturalmente, a associação entre essas políticas econômicas e os direitos das mulheres, dos gays, das pessoas trans ou racializadas. E a extrema-direita explorou esse filão: “A culpa é dessas pessoas!”.

A rejeição legítima da política neoliberal não se voltou contra as grandes empresas ou os bancos, mas contra as posições progressistas em questões da sociedade. Mas, na realidade, a ala clintoniana do Partido Democrata nunca foi feminista para todas as mulheres. Era um feminismo para os 10% mais privilegiados. O mesmo com o antirracismo: não melhorou a situação de todas as pessoas negras.

O que teria sido um feminismo para 100% das mulheres?

Teria assumido a forma de um generoso programa de cuidado da primeira infância, de aumento do salário mínimo, de medidas que permitissem criar filhos sozinha com um único emprego, e não com três. É isso que Mamdani tenta fazer em Nova York, congelando os aluguéis, reduzindo o custo do transporte público e oferecendo serviços de saúde reprodutiva.

Isso é o que você chamou de “populismo progressista”…

Sim. Mas minha visão do populismo progressista não é exatamente a mesma que a da minha amiga Chantal Mouffe, cujo trabalho admiro. Eu não sou uma “populista”, mas uma “socialista democrática”. No entanto, penso que o populismo progressista pode ser a porta de entrada para que as classes populares e médias retomem o controle de seu destino.

Minha esperança é que as pessoas que estão irritadas com as elites se sintam atraídas para esse ponto de entrada, em vez de pelo populismo de direita, e que, depois, adiram ao projeto do socialismo democrático. Porque este último representa a verdadeira transformação do capitalismo: a tomada de controle democrático do excedente social atualmente capturado por pessoas como Elon Musk, Jeff Bezos e outros bilionários.

Como controlam esse excedente - criado pelo trabalho das pessoas -, controlam também o futuro da sociedade. É isso que é preciso mudar. Retomando o controle do excedente, o socialismo democrático poderá investir no que é indispensável para a sociedade: a ecologia, a saúde, a redução do tempo de trabalho, a diminuição da idade de aposentadoria…

O populismo pode ser uma alavanca, você diz. Mas não teme que ao criar uma simetria com os partidos populistas de direita, caia em uma armadilha? A de terminar se parecendo com o adversário, com um discurso simplista, um culto ao líder e uma lógica de ódio.

O risco existe. Mas também há um risco para a extrema-direita. O eleitorado enfurecido de Donald Trump pode perfeitamente perceber que uma vitória de Bernie Sanders seria, na verdade, melhor para ele. E, além disso, não pode haver uma verdadeira simetria: há uma grande diferença entre o populismo de direita e o populismo de esquerda. O primeiro divide a sociedade em três estratos. No topo, as elites que capturam a riqueza; abaixo, uma subclasse composta por migrantes, muçulmanos; e o “povo”: pessoas virtuosas presas entre esses dois grupos de “aproveitadores”.

O mapa social do populismo de esquerda é muito mais simples: há apenas dois grupos, o “1%” da elite e os “99%”. Não há uma subclasse desprezada, o povo é mais amplo. Falar do 1% e dos 99%, reconheço, não corresponde a uma sociologia muito sofisticada. Mas é muito mais saudável do que a outra visão, que acusa os imigrantes de todos os males.

O populismo de esquerda coloca a culpa onde ela deve estar: em Wall Street, no Vale do Silício e nos grandes bancos. E enquanto o populismo de direita dá uma definição identitária do inimigo (o banqueiro judeu, o muçulmano…), o populismo de esquerda, ao contrário, aponta para funções: as finanças, por exemplo.

É verdade que podem ocorrer desvios, e os ataques contra banqueiros podem adquirir um viés antissemita. Por isso, é preciso estar muito vigilantes, e o papel dos intelectuais e ativistas é zelar para que tais excessos não ocorram, para que se visem apenas funções, e não pessoas, sua identidade, cor ou gênero.

O que deve ser combatido são as forças capitalistas que permitem que poucas pessoas capturem a riqueza de todas as demais. Isso soa um pouco a marxismo de café, mas não deixa de ser verdade. Nosso trabalho, como intelectuais, é oferecer uma análise mais sofisticada, explicar com mais fineza como o sistema funciona.

Como conciliar uma análise sofisticada com um discurso político muito simplificado?

Não é simples, mas tampouco impossível. Nos Estados Unidos, assim como no Reino Unido, constata-se um interesse crescente pelo pensamento radical sério. Milhares de jovens se unem a movimentos como Democratic Socialists of America, leem Karl Marx, W.E.B. Du Bois, Simone de Beauvoir, e se formam intensamente. Há uma sede de compreensão do mundo.

Em busca de uma visão global, esses jovens conectam os problemas entre si, o que se traduz no surgimento de conceitos como ecossocialismo, ecomarxismo, ecofeminismo… Em termos de reflexão intelectual, tenho a impressão de estar vivendo o período mais criativo, desde os anos 1960 e 1970. Isso me rejuvenesce!

E isso a torna otimista?

No oceano de más notícias que inunda o mundo inteiro - a ameaça de uma grande guerra, o retorno do ebola, o planeta que arde -, vivemos de pequenos milagres. A vitória de Mamdani. A revolta de Minneapolis contra o ICE. Para onde essas pequenas luzes nos levarão? Não sei.

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