02 Junho 2026
O advogado de extrema-direita defendeu políticos e empresários acusados de fraude. Segundo revelações jornalísticas, essa é a razão de seu considerável enriquecimento financeiro e de seu estilo de vida luxuoso.
A informação é de Mercedes López San Miguel, publicada por Página|12, 02-06-2026.
Abelardo de la Espriella, um midiático advogado criminalista de 47 anos, sem trajetória política, enfrentará no segundo turno de 21 de junho o líder de esquerda Iván Cepeda. Por trás da encenação do “outsider” que promete salvar a Colômbia do “abismo petrista”, o histórico do excêntrico De la Espriella inclui suspeitas de vínculos com paramilitares e negócios obscuros com seus clientes.
Com 10,3 milhões de votos (43,7%), o candidato de ultradireita superou o senador do Pacto Histórico, que obteve 9,6 milhões (40,9%), resultado que não foi previsto pelos institutos de pesquisa, que apontavam Cepeda como favorito. De la Espriella, do movimento Defensores de la Patria, é um homem que gosta tanto de armas quanto de luxo; viaja em avião particular, circula em seu Rolls-Royce Phantom e alterna estadias entre os Estados Unidos e a Itália.
O vínculo com a “parapolítica”
É preciso voltar ao início dos anos 2000, quando o jovem advogado fundou a De La Espriella Lawyers Enterprise e, pouco depois, recebeu sua primeira grande oportunidade com o processo de desmobilização das Autodefensas Unidas de Colombia (AUC) durante o governo de Álvaro Uribe, entre 2003 e 2006.
O jornalista Daniel Coronell, que o investigou para a revista Semana, afirma ao jornal Página|12 que o salto econômico de De la Espriella foi notável.
“Ele começou por meio da Fundação Iniciativas para a Paz (Fipaz). Participava de fóruns organizados por paramilitares, nos quais o principal orador era um chefe paramilitar conhecido pelo codinome Ernesto Báez, cujo nome verdadeiro era Iván Roberto Duque. Antes, De la Espriella tinha um pequeno escritório em uma área modesta de Bogotá e, de repente, após assumir a defesa do que na Colômbia se chamou de parapolíticos — políticos financiados por paramilitares —, tornou-se muito rico.”
Segundo Coronell, o escritório de De la Espriella passou de um faturamento de 11 milhões de pesos colombianos para 2 bilhões de pesos, quase um milhão de dólares da época, em 2006.
“Naquele ano, o jovem advogado apareceu ligado a uma licitação para a construção do terminal do aeroporto El Dorado, em Bogotá, representando uma sociedade formada por pessoas muito questionadas por corrupção e que posteriormente acabaram presas. A Lawyers Enterprise cobrava 800 mil dólares por assessorias jurídicas, enquanto escritórios muito mais prestigiados cobravam metade desse valor. Os documentos contábeis da empresa mostravam que, no ano anterior, ela havia registrado algo como 400 dólares de lucro. Portanto, passar de 400 dólares de lucro para um contrato de 800 mil dólares parecia um salto considerável”, escreveu Coronell em uma coluna intitulada “El apoderado”.
De la Espriella defendeu políticos acusados de ligações com paramilitares, como a ex-congressista Eleonora Pineda. “Ela era amiga da minha mãe”, contou sobre a política que foi condenada por parapolítica em 2008. O mesmo ocorreu com Dieb Maloof e Rocío Arias, também seus clientes.
Aviões e fraudes
Enquanto acumulava fortuna, De la Espriella exibia sua riqueza viajando em avião particular, algo incomum entre advogados colombianos.
Por um artigo intitulado “Avión”, Coronell foi processado por ele. “O advogado que me processou nos Estados Unidos em nome dele — já que ele não pode exercer a advocacia lá — foi Bruce Rogow, que também foi advogado de Donald Trump. Eles insistiam que se tratava de difamação e queriam me arruinar financeiramente.”
A advogada de Coronell, especialista na Primeira Emenda da Constituição dos EUA, solicitou no processo civil que De la Espriella explicasse a origem de sua fortuna e identificasse seus clientes sem revelar informações confidenciais.
“Esse pedido de descoberta de provas (discovery), apresentado em um tribunal civil de Miami, foi suficiente para que ele retirasse imediatamente a ação, após quatro anos.”
David Murcia Guzmán, líder do enorme esquema financeiro fraudulento DMG, que deixou mais de 200 mil vítimas de baixa renda arruinadas e que foi defendido por De la Espriella quando o governo Uribe ordenou o fechamento da empresa em 2008, declarou recentemente sobre seu antigo advogado:
“É um ladrão, um traidor, me abandonou.”
Murcia também o acusou de ter pedido 760 milhões de pesos para influenciar congressistas e afirmou ter pago 5 bilhões de pesos em honorários antes de ser abandonado quando pretendia se entregar à Promotoria. Posteriormente, Murcia foi extraditado para os Estados Unidos por lavagem de dinheiro.
“Abelardo é um bandido”, afirmou em 2010 o narcoparamilitar Juan Carlos Tuso Sierra, que alegou que De la Espriella lhe pediu um milhão de dólares para garantir sua permanência no sistema de justiça transicional criado para julgar paramilitares desmobilizados. De la Espriella negou as acusações e apresentou posteriormente um vídeo no qual Tuso Sierra se retratava.
De la Espriella também atuou como estrategista jurídico de Alex Saab, controverso empresário colombiano e ex-ministro da Indústria da Venezuela, detido em Nova York por lavagem de dinheiro.
Coronell relata que publicou recentemente uma coluna sobre um litígio em um tribunal civil de Miami. “Trata-se de uma disputa comercial em que uma pessoa devia dinheiro a De la Espriella. Para justificar a origem dos recursos emprestados e demonstrar que a dívida permanecia em aberto, o próprio De la Espriella apresentou uma carta como prova. O documento é revelador porque confirma que ele mesmo ordenou transferências provenientes de empresas de Alex Saab. Especificamente, são as mesmas empresas utilizadas para os CLAP — os programas de distribuição de alimentos do governo de Nicolás Maduro —, esquema pelo qual Saab recebeu 350 milhões de dólares”, afirma o jornalista.
Segundo a carta de De la Espriella, “duas dessas empresas fizeram transferências para uma conta de garantia de um advogado em Miami sob suas ordens diretas. O arquivo também inclui um e-mail de Alex Saab para De la Espriella com o código SWIFT, detalhando o trajeto bancário da transferência: a origem do dinheiro, as etapas, o banco correspondente nos Estados Unidos e o destino final. Nos Estados Unidos, uma pessoa já foi condenada por receber dinheiro de Saab usando esse mesmo método e ficar com uma comissão, e outra está sendo julgada pelos mesmos motivos. No entanto, nada aconteceu com De la Espriella até agora.”
Admirador declarado de Donald Trump e de Javier Milei, De la Espriella afirma que seu escritório rompeu relações com Alex Saab em 2019, buscando se desvincular de toda a controvérsia.
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