29 Mai 2026
Em 21 de maio, Dom Gherardo Gambelli, arcebispo de Florença, ofereceu esta reflexão na Vigília Diocesana de Oração para o Combate à Homotransfobia, na Paróquia de Maria Auxiliadora, em Florença, organizada pelo Ministério da Inclusão da Pastoral Familiar Diocesana em colaboração com o grupo Kairós — cristãos LGBTQ+ e seus pais em Florença. Esta foi uma das muitas vigílias semelhantes realizadas em toda a Itália e no mundo naquele dia.
O texto é de Gherardo Gambelli, Arcebispo de Florença, Itália, publicado por Outreach, 27-05-2026.
Eis o texto.
Assim diz o Senhor que te criou, ó Jacó, que te formou, ó Israel: “Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome; tu és meu. Se tiveres de atravessar as águas, eu serei contigo; os rios não te submergirão; se tiveres de andar pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti, porque eu sou o Senhor, teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador. Dou o Egito como preço da tua redenção, a Etiópia e Sabá em teu lugar. Porque tu és precioso aos meus olhos, e digno de honra, e eu te amo; por isso darei povos em teu lugar, e nações em troca da tua alma” (Isaías 43,1-4).
As palavras que acabamos de ouvir são belíssimas; elas foram extraídas da segunda parte do Livro de Isaías, conhecido como o “Livro da Consolação”. São palavras dirigidas por Deus ao seu povo durante um período dramático e sombrio. Israel está no exílio, quebrantado e abatido não apenas por ter sido deportado para uma terra estrangeira, mas sobretudo porque, nessa situação, sente-se rejeitado e abandonado por Deus.
Na escuridão desta crise, as palavras do profeta — dirigidas ao povo e a cada um de nós esta noite — lançam um raio de luz: “Não tenham medo, pois eu estou com vocês” (Isaías 43,5).
“Eu sou”, ou mais precisamente “Eu estou aqui”, é o próprio nome de Deus desde o livro de Êxodo. Um nome que fala de proximidade, cuidado e uma presença fiel e inabalável ao nosso lado.
O Deus que nos criou a todos não pode abandonar ninguém: aquele Deus que um dia, ao nos chamar à existência, disse: “Quero que você exista: sim, você, com seus dons e suas limitações, com sua identidade que é ao mesmo tempo maravilhosa e frágil, com a singularidade contida nesse nome que só Eu conheço plenamente”. Ninguém pode ser abandonado pelo Deus da aliança, que abençoa toda existência, que deseja a plenitude da vida para todos; Ele que, por todos, sem exceção, deu a Sua vida e que hoje continua a repetir: “Você é precioso aos meus olhos, você é digno de estima, e Eu te amo”.
Se estamos aqui esta noite, também a convite do Sínodo das Igrejas Italianas, recentemente concluído, é para permitir que esta palavra de amor não só nos console, mas continue a moldar e transformar as nossas vidas e as vidas das nossas comunidades, tornando-nos cada vez mais à sua imagem e semelhança.
Estamos aqui para pedir a Deus o dom de olhos como os Seus, capazes de reconhecer a dignidade e a beleza de cada rosto; ouvidos atentos, capazes de escutar profundamente a experiência de cada pessoa; uma boca da qual não saiam julgamentos severos, mas sim palavras gentis que abençoem e encorajem em vez de ferir; um coração pronto para se alegrar com os que se alegram e para chorar com os que choram.
Neste espírito de profunda comunhão, desejamos recordar em oração os nomes e rostos de pessoas — especialmente aquelas que são homossexuais e transgênero — que, na sociedade, mas também no seio das nossas famílias e comunidades cristãs, sofreram e, infelizmente, por vezes ainda sofrem devido ao preconceito, à ignorância e a padrões de marginalização, quando não à exclusão e violência explícitas: atitudes que são irreconciliáveis com a perspetiva do Evangelho.
Este último ponto, porém, é bem evocado pela conclusão da passagem de Isaías que lemos: “Direi ao norte: ‘Devolvam-nos’, e ao sul: ‘Não os detenham; tragam de volta meus filhos de longe e minhas filhas dos confins da terra’”.
Palavras capazes de comunicar o profundo anseio do coração de Deus, que, como o pai misericordioso da parábola de Lucas 15, anseia por cada filho distante e não pode começar a celebrar até que todos tenham redescoberto a alegria de se sentirem em casa.
Este é o anseio que nós, como igreja, também carregamos em nossos corações: ser verdadeiramente um lar para todos.
Invoquemos, então, o Espírito Santo, que celebraremos neste domingo, na festa de Pentecostes. Um Espírito capaz de transformar toda morte em vida, toda tristeza em alegria, todo exílio em uma jornada de volta para casa. Um Espírito que desce sobre os apóstolos como fogo que não destrói, mas inflama os corações, concedendo a coragem de olhar além de si mesmo e do próprio círculo, de transpor muros e abrir portas, para que a comunhão da família de Deus finalmente não conheça fronteiras.
Certo dia, um rabino perguntou aos seus alunos: “Como se sabe que a noite terminou e o dia está voltando?” Um aluno sugeriu: “Quando se consegue ver claramente que o animal à distância é um leão e não um leopardo.” “Não”, disse o rabino. Outro disse: “Quando se consegue dizer que uma árvore dá figos e não pêssegos?”
“Não”, disse o rabino. “É quando você consegue olhar no rosto de outra pessoa e ver que aquela mulher, aquele homem, é sua irmã ou seu irmão. Porque até que você seja capaz de fazer isso, não importa a hora do dia, ainda é noite”.
Que a vigília desta noite também contribua, Senhor, para pôr fim à noite e apressar o alvorecer de um novo mundo!
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