O que revelam as 42 páginas redescobertas do Novo Testamento? Entrevista com Garrick Allen

Foto: Tim Wildsmith/Unsplash

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13 Mai 2026

Uma equipe internacional de pesquisadores liderada pela Universidade de Glasgow, na Escócia, anunciou na sexta-feira, 24-04-2026, a recuperação bem-sucedida de 42 páginas escondidas no Códice H, um dos manuscritos mais importantes do Novo Testamento. O que revela essa descoberta, descrita como "monumental" por estudiosos do Novo Testamento? Garrick Allen, professor de teologia e exegese bíblica da Universidade de Glasgow, que coordenou o programa de pesquisa, explica. 

A entrevista é de Gilles Donada, publicada por La Croix e reproduzida por Settimana News, 11-05-2026.

Eis a entrevista.

O que nos ensina a descoberta de 42 páginas perdidas do Novo Testamento num manuscrito antigo, o Códice H? [1]

Esta descoberta, que exigiu três anos de pesquisa por nossa equipe de quatro pessoas, contribui significativamente para nossa compreensão do estado do texto do Novo Testamento. Embora nenhum texto novo tenha sido identificado aqui — as cartas de Paulo estão entre os textos cristãos primitivos mais amplamente distribuídos —, existem muito poucos manuscritos que datam entre os séculos VI e IX. Cada novo documento descoberto, portanto, fornece evidências inestimáveis ​​desse período de transformações textuais e tecnológicas na produção de livros e nas práticas dos copistas.

Estas páginas contêm principalmente excertos das cartas de Paulo com seus respectivos capítulos, mas a estrutura dos cadernos sugere que o códice também pode ter incluído outros textos, talvez as epístolas católicas (isto é, aquelas não dirigidas a uma Igreja específica, como as cartas de Tiago, Pedro, João e Judas – ed. ) e os Atos dos Apóstolos. Esses não são textos desconhecidos, mas esta descoberta oferece um contexto importante sobre a forma do Novo Testamento naquela época. Por exemplo, o Códice H foi corrigido muito cedo com base em manuscritos pertencentes a outras tradições; nossas imagens nos permitem compreender melhor esse processo.

Você destaca que a divisão dos capítulos nas cartas de Paulo é diferente da atual. O que isso significa?

A maioria dos manuscritos gregos do Novo Testamento possui um sistema de capítulos muito diferente das divisões modernas de capítulos e versículos desenvolvidas por Robert Estienne em Paris, no século XVI. As divisões no Códice H incluem seções numeradas e títulos curtos, o que significa que as listas de capítulos neste manuscrito funcionam como resumos de cada livro.

As listas de capítulos são anteriores ao Códice H, mas este é o primeiro manuscrito em que elas são organizadas em formato de lista antes de cada livro. Além disso, graças a essa descoberta, conseguimos aumentar o número de páginas legíveis do Códice H em aproximadamente 50%: uma quantidade considerável de texto inédito.

O que torna o código H em que você trabalhou tão especial?

O Códice H, cuja origem exata permanece desconhecida — embora haja hipóteses de que venha da Palestina ou da Síria — é importante por vários motivos: representa o testemunho mais antigo de partes da tradição eutaliana (de Eutálio, provavelmente um diácono do século IV que trabalhou na organização do Novo Testamento – nota do editor), um conjunto difundido de "metadados" destinados à leitura das epístolas paulinas, incluindo listas de capítulos, índices e marcas de citação, prefácios e outros elementos que se repetem em manuscritos posteriores.

O que você aprendeu sobre o trabalho dos copistas?

Agora compreendemos melhor o processo de reutilização que permitiu que o Códice H chegasse até nós. Este manuscrito demonstra a engenhosidade dos mosteiros em manter suas bibliotecas em locais isolados. De fato, muitos manuscritos do Novo Testamento, datados dos séculos VI a IX, sobrevivem até hoje como folhas de guarda em outros livros ou como palimpsestos — isto é, textos subjacentes a páginas reutilizadas. Portanto, essa prática está longe de ser incomum.

Graças às técnicas avançadas de imagem e análise de dados, sabemos muito mais. Elas desempenham um papel crucial na nossa compreensão do passado: inúmeros manuscritos complexos, danificados ou palimpsestos (reescritos) tornar-se-ão acessíveis aos estudiosos.

Nota do IHU

O texto grego descoberto do Códice H está disponível gratuitamente no site do projeto Annotating the New Testament. A página da esquerda apresenta a versão digitalizada, enquanto a página da direita reproduz o texto grego. A cor vermelha indica o texto reconstruído, que não é legível devido a partes danificadas; a cor azul indica as palavras corrigidas. Ao posicionar o cursor sobre o texto azul, é exibida a leitura secundária. 

Notas

[1] Este famoso manuscrito é uma cópia grega das cartas de São Paulo, datada do século VI. Foi desmembrado entre os séculos X e XIII no mosteiro da Grande Lavra, no Monte Atos, na Grécia. Outros fragmentos são preservados em várias bibliotecas europeias.

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