Encruzilhada Apocalipse: quando a civilização corre rumo à catástrofe. Artigo de Massimo Cacciari

Foto: Juízo Final | Michelangelo

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27 Mai 2026

"Quem imaginaria um presidente dos EUA atacando a Igreja de Roma? Seria um grande erro descartar isso como um caso patopsicológico, limitado ao 'sujeito' de Trump." 

O artigo é de Massimo Cacciari, filósofo e ex-prefeito de Veneza, publicado por La Stampa, 11-05-2026. 

Eis o artigo. 

Quando se atravessam épocas de ruptura, figuras e conflitos tendem sempre a assumir um significado simbólico. Há momentos de crise que são, por assim dizer, normais, nos quais a Lei e a Ordem se reassentam ou se reformam para poder se adaptar às mudanças "locais" de situação e, assim, resistir e perdurar. Mas há outros em que a transformação é tão sistemática, afeta tão organicamente todos os aspectos da vida, que torna qualquer "reformismo" patético e nos força a considerar novas ordens globais.

Creio que a nossa época possui essas características catastróficas. Catástrofe significa, literalmente, uma mudança radical de estado. Não se trata do apocalipse, pois a ideia de apocalipse contempla o Juízo Divino que põe fim à história — e, no entanto, assemelha-se, pressentindo de alguma forma sua tremenda iminência. E nós, creio eu, para citar um verso do Fausto de Goethe, nos sentimos, em meio à consternação e ao medo, maduros para tal Dia.

Nada mais continua seguindo os passos do passado. A Tecnologia que revoluciona ininterruptamente as nossas formas de vida não é simplesmente uma nova expressão do Homo technicus. Ela coloca o próprio homem, a sua evolução biológica, como objeto de seu próprio poder de manipulação e transformação. Assim, uma outra Inteligência que não a humana será chamada a programar instituições, comportamentos, nossa própria imaginação.

Uma metamorfose semelhante está abalando a geopolítica; os equilíbrios entre os grandes espaços que haviam caracterizado o segundo pós-guerra evidentemente não se sustentam mais. À afirmação da realidade imperial da China deve-se somar o crescimento do espaço econômico, tecnológico e político do continente indiano. E a possibilidade de alcançar uma paz entre Estados Unidos, Ocidente e Israel no Oriente Médio demonstra mais a cada dia, com as guerras e os massacres que acarreta, sua radical falta de fundamento. Ou se chega a um acordo, a uma rede de tratados multipolares que nada mais têm a ver com a Yalta de outrora, ou, se a loucura nos leva a perseguir o objetivo de um Estado mundial, a catástrofe atual produzirá o Apocalipse.

E, por fim, o outro sinal da época de ruptura em que vivemos: a crise do Direito em todas as suas formas. Nos conflitos e nas guerras em curso, deixou até mesmo de ser mencionado. O Direito agora não passa de um "nome" para o ato em que exerço minha vontade de poder. A legalidade, como disse um representante de alto escalão estadunidense, é algo a ser tratado de forma "morna". Não só não deve tentar impedir, como também não deve dificultar a implementação do meu projeto. O que serve é uma Justiça patriótica, e o significado de pátria é decidido, mais uma vez, por quem detém o poder.

Mas não era o Estado de Direito o valor supremo que nós, ocidentais, oferecíamos ao resto do mundo? Aquele que afirmávamos também exportar?

Descontinuidade radical em todas as frentes. Nada continuará a ser como antes. Vamos repetir: há cheiro de apocalipse no ar. Inevitável que no mesmo discurso político surjam características e imagens de forte sentido simbólico.

Quem imaginaria um presidente americano atacando a Igreja de Roma? Seria um grande erro descartar isso como um caso patopsicológico, limitado ao "sujeito" de Trump. As formas atuais de poder que regulam o sistema econômico-financeiro global, em sua necessária relação com o sistema político-militar, não podem não entrar em conflito com o significado e o papel que a Igreja contemporânea é chamada, por sua própria natureza, a assumir. Antes de tudo, seu papel é de contenção ou freio. Nesse sentido, não se acaba contradizendo como tal a pressão irrefreável à qual o ritmo da inovação nos submete, mas certamente denuncia-se o fato de que o imperativo do indefinido desenvolvimento não considera seus próprios efeitos, as desigualdades que produz, não se traduz em bem-estar geral.

O sistema da Tecnologia, que se expressa na crescente simbiose entre economia e política que caracteriza os grandes espaços imperiais, não tolera essas funções de contenção. Para eles, estas representam limitações daquela liberdade do indivíduo, de cuja fonte, de cuja tensão inexaurível, somente provêm pesquisas, descobertas, inovações. Todo esforço deve ser empregado para promover sua energia criativa. Ou a política assume isso como seu objetivo, ou a ira de Deus vai destruí-la. O Anticristo é um Estado mundial que pretende programar crescimentos e distribuição de riquezas, e qualquer Estado que ainda queira exercer controle sobre a Inteligência que é a alma do desenvolvimento, governar seu espírito por meio de sua "letra", do Anticristo é a imagem.

Posta dessa forma a questão, o embate é radical, pois diz respeito ao significado último da escatologia cristã. Aquele que é pessoalmente chamado a representá-la e defendê-la não pode deixar de denunciar a total inversão feita da figura do Anticristo por quem agora se proclama seu autêntico inimigo. Anticristo é quem subverte completamente o sentido cristão de liberdade, assumindo a aparência de seu defensor e esvaziando-a a partir de dentro.

Perfila-se realmente uma batalha sobre as "coisas últimas", como ocorreu com outro Papa no início da Primeira Guerra Mundial, que levou ao suicídio da Europa. A liberdade cristã, entendida escatologicamente, é aquela que obedece ao "novo mandamento", o único mandamento, o mandamento do amor. É aquela do samaritano que, com gesto absolutamente gratuito, cura o inimigo quase morto em seu caminho. É aquela de quem sabe perdoar.

Existiu um poder que, por vezes, hipocritamente parecia prestar homenagem a esse "mandamento", e que o traía continuamente de todas as formas. Agora, fingimentos e hipocrisias já não têm mais espaço. É bom que seja assim. O espírito de cada um de nós pode decidir com clareza. Duas formas de liberdade confrontam-se e exigem essa decisão. A liberdade cujo único limite é o seu próprio poder. E aquela liberdade que transcende o seu próprio poder e reconhece o valor indestrutível do outro, cuida dele e com ele busca a paz.

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