"Nós, estadunidenses, e Leão XIV. Um pastor que pode nos unir". Entrevista com Robert Walter McElroy

Foto: Vatican Media

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08 Mai 2026

Além da formação teológica, Robert Walter McElroy possui doutorado em ciências políticas pela Universidade Stanford: uma rara combinação que o torna singularmente qualificado para interpretar a relação entre Igreja e poder político. O cardeal atuou como bispo de San Diego, na fronteira com o México, a fronteira mais atravessada do mundo, antes de ser nomeado pelo Papa Francisco como Arcebispo de Washington em 2022, liderando a diocese mais politicamente exposta dos Estados Unidos.

A entrevista é de Elena Molinari, publicado por Avvenire, 06-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

McElroy muitas vezes expressa sua proximidade com as prioridades pastorais de Francisco: atenção aos pobres, acolhimento de migrantes e diálogo com as periferias. Ele também compartilha uma relação pessoal com Leão XIV, que amadureceu durante os anos em que Prevost liderava o Dicastério para os Bispos e McElroy já era uma voz influente no episcopado estadunidense. O cardeal foi um dos três protagonistas do famoso episódio do programa 60 Minutes que provocou a duríssima reação de Donald Trump contra o Papa.

Eis a entrevista.

Eminência, um ano após a eleição do Papa Leão XIV, como descreveria o seu pontificado?

Foi um ano de forte renovação e, ao mesmo tempo, de continuidade. O Papa se posicionou como uma figura capaz de unir diferentes sensibilidades dentro da Igreja. Ele abordou as divisões buscando constantemente integrar as diversas posições da Igreja, transformando tensões em um caminho comum. Nos Estados Unidos, isso se viu de forma muito concreta: havia uma evidente polarização entre os bispos em questões de política pública, e Leão XIV nos ajudou a construir uma maior unidade, tanto nos conteúdos quanto no estilo pastoral. Já em novembro passado, na assembleia plenária da Conferência episcopal estadunidense, testemunhei um nível de unidade e de empenho compartilhado nunca visto em meus quinze anos de episcopado. Leão XIV é realmente o pastor da Igreja universal.

Qual o estilo do Papa que mais impressiona, especialmente aos olhos dos estadunidenses?

É um estilo profundamente pastoral, enraizado na escuta. Leão XIV insiste muito na sinodalidade, em escutar todas as vozes. O Papa fez escolhas muito concretas nesse sentido, por exemplo, nas nomeações episcopais. Na Califórnia, Flórida e Louisiana, escolheu bispos com experiência direta de migração ou provenientes de famílias de imigrantes. Isso envia uma mensagem clara: a Igreja estadunidense deve refletir a realidade de seu povo. E isso foi claramente percebido pelos fiéis.

O que mudou por ter um papa nascido em Chicago?

Antes da eleição de Leão XIV, o Papa era para muitos estadunidenses uma figura distante, respeitada, mas distante. Agora é alguém que entende de beisebol, que cresceu no Meio-Oeste, que fala com o sotaque e a cadência de sua terra natal. Os estadunidenses se sentem próximos a ele de forma visceral. Consideram-no um deles. E isso abriu portas que estavam fechadas há tempo. As conversões estão em alta, as igrejas estão registrando novos membros, jovens que nunca antes haviam se aproximado da fé. Em minha Arquidiocese de Washington, estamos vivendo um momento extraordinário nesse sentido.

O Papa se pronunciou sobre questões sensíveis, como imigração e a guerra no Irã, criticando algumas das decisões do governo Trump. Como interpretar essas declarações?

Não são intervenções contra alguém, mas a favor de princípios. Sobre a imigração, o Papa reafirmou a dignidade das pessoas, o dever de acolher e proteger. Sobre a guerra, ele disse que o conflito deve ser evitado e que a paz se constrói por meio da reconciliação. Disse que "Deus não abençoa nenhum conflito" e que os discípulos de Cristo não podem se aliar àqueles que usam a força. É uma mensagem exigente, mas coerente com o Evangelho.

O senhor escreveu palavras muito claras sobre a guerra no Irã. De que forma o Papa Leão XIV se insere na tradição católica sobre guerra e paz?

O Papa se insere plenamente na linha dos últimos pontificados, mas a torna ainda mais explícita. A posição da Igreja hoje é clara: a guerra deve ser evitada. Leão recordou uma tradição que se estende desde João XXIII com a Pacem in Terris — "é difícil imaginar a guerra como instrumento de justiça" — até Francisco com a Fratelli Tutti, onde se afirma que não podemos mais considerar a guerra uma solução. No caso do Irã, o Papa insistiu em dois pontos: a cessação permanente das hostilidades e a criação das condições para uma paz estável. Isso significa também conversão dos corações, não apenas acordos políticos. E significa lembrar que as condições da doutrina da guerra justa — dano grave e certo, último recurso, proporcionalidade — são extremamente difíceis de atender hoje, em um contexto de armas que podem destruir populações inteiras.

Como reagiu aos ataques de Donald Trump contra o Papa?

Achei-os muito preocupantes e, francamente, dolorosos. Não tanto pelo Papa em si, que não precisa de defesas, mas pelo que dizem sobre o clima em que vivemos. Estamos numa época de forte polarização e de deterioração da linguagem pública. Quando se ataca uma figura religiosa com um tom tão agressivo, contribui-se para uma espiral que torna o diálogo cada vez mais difícil. O Papa não é um ator político: suas palavras podem ser debatidas, mas a forma como as debatemos é o que importa. E hoje vemos, com frequência, um nível de agressividade que não ajuda a vida democrática.

Que sinais vê para o futuro desse pontificado e na maneira como Leão XIV fala aos estadunidenses?

O sinal mais importante é que o Papa consegue falar a pessoas muito diferentes entre si e que o faz abordando questões fundamentais: dignidade, justiça, paz, comunidade. Num país como os Estados Unidos, onde a polarização é muito forte, isso é essencial. Leão propõe orientações morais. E o faz com uma linguagem que os estadunidenses reconhecem como autêntica, porque nasce da sua mesma experiência. Acredito que essa é a sua força. Em um tempo de tensões, é uma contribuição que pode ter efeitos profundos, mesmo que não imediatamente visíveis.

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