Rubio em Roma: não cortesia, mas estratégia. Comentário de Antonio Spadaro

Marco Rubio em visita a Israel. (Foto: U.S. Embassy Jerusalem/Flickr)

Mais Lidos

  • Apenas algumas horas após receber um doutorado honorário da UAB, essa importante voz da teoria feminista analisa as causas e possíveis soluções para a ascensão do totalitarismo

    “É essencial que a esquerda pare de julgar a classe trabalhadora que vota na direita.” Entrevista com Judith Butler

    LER MAIS
  • Conscientização individual dos efeitos das mudanças climáticas aumenta, mas enfrentamento dos eventos extremos depende de ação coletiva, diz pesquisador da Universidade de Santa Cruz (Unisc)

    Dois anos após as enchentes: planos de governo das prefeituras gaúchas não enfrentam as questões climáticas. Entrevista especial com João Pedro Schmidt

    LER MAIS
  • Como Belo Monte mudou para sempre o Xingu

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Mai 2026

A visita sinaliza um esforço para amenizar as tensões com o Vaticano após semanas de atritos públicos.

O comentário é de Antonio Spadaro, SJ, publicada por Diário do Vaticano, 05-05-2026. 

Eis o comentário.

O secretário de Estado Marco Rubio estará em Roma de 6 a 8 de maio para "promover relações bilaterais com a Itália e o Vaticano" — pelo menos, essa é a formulação oficial do Departamento de Estado.

Rubio se reunirá com a liderança da Santa Sé para discutir a situação no Oriente Médio e os interesses comuns no Hemisfério Ocidental.

A linguagem diplomática é sóbria, quase clínica. Observadores interpretaram amplamente a missão como uma tentativa de reparar as relações com o Vaticano e a Itália após semanas de atritos públicos entre Washington, Roma e a Santa Sé.

Rubio, ele próprio católico, visitará a Itália pela terceira vez, pelo menos, durante seu mandato como principal diplomata do país. Seu encontro com Leão XIV será o primeiro encontro presencial conhecido entre o papa e um membro do governo americano em quase um ano. Esse intervalo, por si só, já diz muito.

Para entender essa visita, porém, é preciso olhar além da narrativa do degelo e analisar sua estrutura mais profunda.

A Santa Sé é um ator diplomático singularmente peculiar: não possui força militar, não exerce influência econômica significativa e, no entanto, exerce um tipo de influência normativa — uma capacidade de remodelar a gramática moral do conflito — desproporcionalmente grande ao seu peso material.

Quando o Papa Leão XIV declara que a guerra é impensável, ou moralmente indefensável, ele não está simplesmente expressando uma opinião religiosa. Ele está redefinindo os limites do que pode ser dito na vida pública, com efeitos reais e subsequentes sobre alianças, sobre a opinião pública global e sobre a legitimidade percebida de qualquer poder que aspire a se apresentar como uma força de estabilidade.

Trump declarou: "Não quero um papa que ache aceitável que o Irã tenha uma arma nuclear." O conflito tornou-se pessoal, teatral e extrapolou completamente os canais institucionais.

A viagem de Rubio tem como objetivo reverter essa trajetória — não negociar concessões concretas, mas sim reconduzir o confronto a um registro mais discreto e institucional.

Diplomatas têm um termo para esse tipo de trabalho: arrefecer a retórica. É a condição prévia necessária para qualquer realinhamento substancial, quando quer que ele venha a ocorrer.

Há também uma variável interna que tende a ser subestimada na cobertura de política externa: o catolicismo americano é politicamente significativo. Rubio pode servir como uma ponte simbólica entre o governo e um eleitorado que se sente genuinamente incomodado com o espetáculo da Casa Branca em conflito aberto com a mais alta autoridade moral de sua própria tradição.

Em resumo: Washington não veio a Roma para converter o papa. Veio para reconhecer — implícita, mas claramente — que a sua voz tem um peso no mundo que não pode ser simplesmente ignorado.

A situação criada pelas declarações do presidente Trump exigiu uma intervenção direta de alto nível, conduzida na linguagem apropriada da diplomacia: uma correção semântica a uma narrativa de conflito frontal com a Igreja.

Esta missão nasceu de uma crise que a mídia amplificou, mas não inventou. O encontro representa uma tentativa de transição — do espetáculo do confronto público para algo mais antigo e silencioso: uma diplomacia da presença, construída sobre o contato direto e que se contenta em não deixar rastros de declarações oficiais.

Leia mais