Por que o ataque a Trump é um reflexo da violência endêmica nos EUA. Entrevista com James Piazza

Fonte: Pexels

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30 Abril 2026

Em 25 de abril de 2026, no Washington Hilton, durante o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, Donald Trump enfrentou uma ameaça de ataque. Os detalhes precisos que envolvem a incursão do homem armado ainda não estão claros.

À medida que a investigação avança, Alfonso Serrano, editor da seção de política e sociedade do The Conversation nos Estados Unidos, conversou com James Piazza, especialista em violência política da Penn State, para entender as raízes desse fenômeno estadunidense e as possíveis soluções.

A entrevista é de Alfonso Serrano, publicada por The Conversation, 28-04-2026. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Esta não é a primeira vez que Trump é alvo de violência política. O que este último ataque revela?

Acima de tudo, ele ressalta o extremo perigo do clima político estadunidense. Há vários anos – e certamente desde 6 de janeiro de 2021 (o ataque ao Capitólio por apoiadores de Donald Trump) – o país vem vivenciando um ressurgimento da violência política, definida como violência motivada por uma agenda política ou destinada a transmitir uma mensagem partidária. O trabalho do Laboratório de Pesquisa e Inovação em Polarização e Extremismo confirmou essa tendência crescente.

Vários exemplos recentes vêm à mente: a invasão do Capitólio; as múltiplas tentativas de assassinato contra o presidente Trump (em 2016; em julho e setembro de 2024; e em fevereiro de 2026); os assassinatos dos deputados de Minnesota Melissa Hortman e John Hoffman; o ataque a Paul Pelosi; e o assassinato de Charlie Kirk. No meu Estado natal, a Pensilvânia, o governador democrata Josh Shapiro foi alvo de um incêndio criminoso em sua residência.

O que explica esse aumento da violência política que assola os Estados Unidos?

Diversos fatores contribuem para a violência política que atualmente assola os Estados Unidos, de acordo com minha pesquisa e a de outros pesquisadores. Os Estados Unidos estão agora altamente polarizados politicamente: a divisão entre os estadunidenses está se aprofundando com base em suas lealdades partidárias. Há desconfiança e hostilidade entre eles, criando um clima tenso e instável onde cada eleição assume as características de um confronto existencial, um jogo de soma zero.

O que me impressiona particularmente é a dimensão moral dessa polarização. Um dos lados não vê mais o outro simplesmente como alguém que tem uma opinião diferente, mas como alguém malévolo ou imoral. Esse ambiente levou à normalização da violência política e enfraqueceu a reação negativa do público quando ela ocorre, tornando-a mais provável.

Além disso, a retórica política tornou-se muito mais controversa e violenta. Esse fenômeno caminha lado a lado com a polarização e contribui para a normalização da violência política. Isso é especialmente verdadeiro quando políticos recorrem a uma retórica demonizadora ou desumanizadora para atacar seus oponentes – por exemplo, usando palavras que retratam seus adversários como “subumanos”. Essas são práticas que incentivam o extremismo e contribuem para incitar a violência física.

A desinformação também é um fator importante na violência política. Várias pessoas envolvidas em atos recentes de violência política parecem ter sido motivadas por teorias da conspiração e outras formas de desinformação, muitas vezes obtidas nas redes sociais. A desinformação desempenha um papel particularmente significativo no contexto das comunidades de redes sociais, onde as pessoas são expostas a grandes quantidades de informações errôneas e ficam efetivamente isoladas de outras fontes que poderiam desafiar sua visão de mundo – uma situação que facilita a radicalização e, em alguns casos, alimenta a violência política.

Por fim, acredito que outro fator importante reside no ataque contínuo às normas democráticas e às instituições nos Estados Unidos. A democracia estadunidense está sob uma pressão sem precedentes na era moderna, o que afeta diretamente a confiança dos estadunidenses no governo, nas instituições democráticas e no próprio valor do sistema democrático. Minha pesquisa mostra que pessoas céticas em relação à democracia estão muito mais dispostas a tolerar, ou mesmo apoiar, a violência política.

Como essa onda de violência política difere de outros períodos de violência na história dos EUA?

Embora os Estados Unidos estejam atualmente vivenciando um ressurgimento da violência política, infelizmente não é algo sem precedentes. Podemos pensar no período de intensa polarização na década de 1850, às vésperas da Guerra Civil. Naquela época, havia uma divisão marcante entre abolicionistas e grupos pró-escravidão, resultando em assassinatos políticos, no ataque a um membro abolicionista do Congresso por um membro pró-escravidão e em um sangrento conflito civil no Kansas entre grupos armados pró e antiescravidão.

No início do século XX, após a Primeira Guerra Mundial, houve outro recrudescimento na violência política ligada a conflitos sociais e perpetrada pela segunda geração da Ku Klux Klan. Finalmente, a década de 1960 testemunhou um período de intensa violência política em torno da oposição à Guerra do Vietnã e da rejeição ao Movimento dos Direitos Civis. Embora a violência política atual apresente certas características únicas – especialmente a influência das redes sociais – acredito que podemos encontrar paralelos com períodos anteriores de violência política.

Para concluir, o que podemos aprender com este episódio?

Acredito ser essencial que os líderes políticos, tanto democratas quanto republicanos – ou qualquer outra pessoa – se unam para condenar este ataque e todas as formas de violência política, e que comentaristas e influenciadores façam o mesmo.

Pesquisadores já demonstraram amplamente que o que as elites políticas (políticos, líderes políticos, comentaristas da mídia, influenciadores online) dizem após esse tipo de evento tem um impacto considerável nas atitudes dos cidadãos. Se essa mensagem for unificada e vier de todo o espectro político, contribuirá ainda mais para reduzir a mentalidade que alimenta a violência.

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