07 Abril 2026
Os discípulos do movimento de Jesus incluíam homens e mulheres, mas estas últimas eram frequentemente negligenciadas. Que papel desempenharam na história da Paixão e como essa situação se desenvolveu na história da Igreja?
O artigo é de Mario Trifunovic, teólogo, publicado por Katholisch, 03-04-2026.
Eis o artigo.
Um pregador itinerante executado, que se dizia Filho de Deus, está no centro dos acontecimentos em Jerusalém há cerca de 2.000 anos. Some-se a isso uma legião de fiéis perplexa e tensões políticas sob a ocupação romana. E no âmago desse momento crucial estão aqueles que menos eram ouvidos na época: as mulheres.
Os relatos dos últimos dias de Jesus, transmitidos no Novo Testamento, pintam um quadro notável. Enquanto muitos dos apóstolos homens fugiram após a prisão de Jesus, apenas as discípulas permaneceram firmes. Elas permaneceram aos pés da cruz, observando à distância e suportando a pressão e a tensão. Entre elas estava uma das figuras mais proeminentes do movimento inicial de Jesus: Maria Madalena.
Outras mulheres também são mencionadas, como Maria, mãe de Tiago, e Salomé. Segundo o Evangelho de Marcos (Marcos 15,40), ela também estava aos pés da cruz quando Jesus morreu. Ela é frequentemente identificada como a mãe dos apóstolos Tiago Maior e João (cf. Marcos 15,40 com Mateus 27,56), o que a torna esposa de Zebedeu. Salomé também foi uma das mulheres da Galileia que seguiram, apoiaram e serviram a Jesus.
Fio vermelho
A presença das mulheres não é uma mera nota de rodapé, mas sim um tema recorrente ao longo da narrativa da Paixão. A importância histórica dessa cena reside no papel público que as mulheres desempenhavam naquela época. Seu testemunho era frequentemente considerado menos confiável nos tribunais, embora elas sejam testemunhas oculares fundamentais dos eventos narrados nos Evangelhos do Novo Testamento.
"Se alguém quisesse inventar uma história, dificilmente escolheria mulheres como as primeiras testemunhas", argumenta o estudioso britânico do Novo Testamento, Nicholas Thomas Wright. Em sua visão, esse detalhe em si corrobora a existência de uma tradição antiga e autêntica. O estudioso bíblico americano Raymond E. Brown concorda. Ele enfatiza que as mulheres não aparecem por acaso, mas sim como companheiras constantes de Jesus — mesmo antes da Paixão. Elas também o sustentavam materialmente, como relata o Evangelho de Lucas. Pois entre as mulheres do movimento de Jesus estava Joana, esposa de Cuza, um alto funcionário de Herodes Antipas. Em termos mais simples, poderíamos dizer que Joana pagava as contas de Jesus e seus seguidores.
Por fim, todos os quatro Evangelhos relatam a história de mulheres que visitaram o túmulo de Jesus no primeiro dia da semana e o encontraram vazio. Maria Madalena é particularmente destacada aqui. No Evangelho de João, ela é a primeira a encontrar o Cristo ressuscitado e, assim, torna-se a portadora da "boa nova". Por essa razão, ela recebeu um título bastante incomum na tradição da Igreja: Apóstola dos Apóstolos.
Forte no centro
Teólogos oferecem respostas diferentes sobre o porquê de as mulheres terem sido colocadas em um lugar tão central no texto do Novo Testamento. Para alguns, isso representa uma inversão consciente das expectativas da sociedade. Deus se revela não primeiro aos poderosos, mas aos marginalizados. Ideias semelhantes podem ser encontradas no discurso literal mais longo de Maria no Novo Testamento, o Magnificat. Nesse hino de louvor, ela diz: "Ele [Deus] derrubou os poderosos de seus tronos, mas exaltou os humildes."
Ao mesmo tempo, a história posterior da Igreja apresenta um quadro ambivalente. Embora figuras como Maria Madalena permaneçam presentes, os papéis de liderança na Igreja institucional são predominantemente assumidos por homens. A proeminência inicial das mulheres nos textos do Novo Testamento praticamente desaparece – apesar de figuras posteriores terem sido elevadas ao status de Doutoras da Igreja Católica. Entre elas, podemos citar, por exemplo, a mística e freira carmelita espanhola Teresa de Ávila (1515-1582), a freira dominicana italiana Catarina de Siena (1347-1380), a freira carmelita francesa Teresa de Lisieux (1873-1897) e a freira beneditina e erudita alemã Hildegarda de Bingen (1098-1179).
Proibição de pregação para mulheres
No século XIII, o Papa Gregório IX (1227-1241) proibiu que mulheres não ordenadas, assim como os homens, pregassem. Segundo ele, o ensino e as questões teológicas deveriam ser reservados ao clero instruído. Contudo, em um artigo para o jornal do Vaticano "L'Osservatore Romano", a freira dominicana Catherine Aubin cita mulheres como Hildegarda de Bingen, Catarina de Siena e Joana d'Arc como figuras que, "em séculos turbulentos, graças à sua autoridade pessoal, ajudaram a evangelizar um mundo ainda pagão e/ou uma Igreja hostil e dividida".
A pregação por leigos nunca foi explicitamente proibida na Igreja Católica, visto que mulheres e homens, assim como o clero, participam do ministério da proclamação. O Direito Canônico, em vigor desde 1983, afirma que os leigos podem ser autorizados a pregar, se necessário. Contudo, no cânone subsequente, a Igreja esclarece que, dentre as formas de pregação, destaca-se a homilia, que faz parte da celebração eucarística. Esta é reservada a bispos, padres e diáconos.
Outros exemplos
Apesar dos inúmeros obstáculos e debates dos últimos anos, a "questão feminina" é considerada urgente na Igreja Católica. O tema também surgiu durante o processo sinodal mundial iniciado pelo Papa Francisco (2013-2025). Além disso, Francisco facilitou uma mudança de mentalidade, possibilitando uma discussão aberta e livre sobre a ordenação de mulheres como diaconisas e sacerdotisas – apesar da rejeição de João Paulo II em maio de 1994.
Embora a questão da ordenação de mulheres como diaconisas e sacerdotisas permaneça em aberto, o Papa Francisco promoveu mulheres a cargos de liderança na Cúria Romana. O Papa Leão XIV deu continuidade a essa prática. Contudo, a situação é diferente em outras denominações cristãs: mais recentemente, a Igreja da Inglaterra elegeu Sarah Mullally como sua primeira Primaz Anglicana. Mullally é a primeira mulher a ocupar esse cargo e a 105ª sucessora de Santo Agostinho de Cantuária, que foi enviado à Inglaterra pelo Papa Gregório I por volta de 597 para evangelizar a população. Ele foi o fundador da Igreja Anglicana, que é protestante desde a Reforma Protestante no século XVI.
Em 2024, a Igreja Ortodoxa, entre outras, testemunhou a primeira ordenação sacramental de uma mulher nos tempos modernos. Serafim, arcebispo do Zimbábue, ordenou Angelic Molen como diácona em Harare. O Patriarcado Ortodoxo de Alexandria e de toda a África já havia decidido em 2016 admitir mulheres ao diaconato, como era costume na Igreja primitiva. Resta saber se e quando haverá um movimento semelhante na Igreja Católica. No entanto, até mesmo o Vaticano reconheceu recentemente a urgência da questão.
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