02 Abril 2026
"Em uma realidade marcada pela busca constante de soluções rápidas e pela rejeição de tudo aquilo que incomoda, a Sexta-feira Santa se torna um contraponto necessário. Ela nos impede de fugir. Não permite atalhos. Obriga-nos a permanecer diante daquilo que, muitas vezes, preferiríamos ignorar: a dor do outro, a injustiça que persiste, as estruturas que continuam ferindo", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor, formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).
Eis o artigo.
Se a Quinta-feira Santa nos coloca diante do gesto, ou seja, é Deus que se abaixa, que serve e que se entrega, a Sexta-feira Santa nos impede de romantizar essa entrega.
Desta forma a Sexta-feira Santa é o momento em que a fé cristã se confronta com aquilo que ela mesma proclama: o amor levado até as últimas consequências. Não mais em forma de gesto simbólico, mas em forma de exposição total. Aquele que lavou os pés agora tem o corpo ferido. Aquele que partilhou o pão agora é partido. Não há continuidade sem ruptura.
Se, na noite anterior, fomos convidados a refletir sobre o cuidado, agora somos chamados a encarar o que acontece quando o cuidado é negado. A cruz não nasce do nada; ela é fruto de uma cadeia de omissões, de interesses, de medos e de conveniências. Ela revela o que acontece quando a dignidade do outro deixa de ser prioridade. E, por isso, não pode ser tratada como um evento distante ou exclusivamente religioso.
Vivemos em um tempo em que a responsabilidade é constantemente deslocada. Sempre há um outro culpado, uma justificativa, uma narrativa que ameniza o peso das escolhas. A Sexta-feira Santa rompe com essa lógica. Ela nos coloca diante de uma verdade incômoda: a cruz não é apenas consequência de grandes decisões históricas, mas também das pequenas infidelidades cotidianas.
Enquanto Jesus permanece, muitos se afastam. Enquanto Ele assume até o fim, outros escolhem preservar a própria segurança. Essa tensão não pertence apenas ao passado; ela se atualiza continuamente. Permanecer ao lado daquilo que exige compromisso real nunca foi simples.
Há, ainda, um aspecto profundamente desconcertante neste dia: a aparente ausência de intervenção. Não há um desfecho imediato. A cruz permanece como um acontecimento que não se resolve no instante em que acontece. Isso exige maturidade da fé. Exige reconhecer que nem tudo pode ser controlado, explicado ou rapidamente superado.
Em uma realidade marcada pela busca constante de soluções rápidas e pela rejeição de tudo aquilo que incomoda, a Sexta-feira Santa se torna um contraponto necessário. Ela nos impede de fugir. Não permite atalhos. Obriga-nos a permanecer diante daquilo que, muitas vezes, preferiríamos ignorar: a dor do outro, a injustiça que persiste, as estruturas que continuam ferindo.
E é exatamente aqui que a fé deixa de ser discurso e se torna posicionamento. Não basta reconhecer a cruz; é preciso decidir o que fazemos diante dela. Aproximar-se ou se afastar. Assumir ou justificar. Permanecer ou abandonar.
A Sexta-feira Santa não oferece consolo imediato, mas oferece lucidez. Ela revela que o amor, quando é verdadeiro, não se sustenta apenas em intenções, mas em escolhas concretas.
Talvez o maior risco deste dia seja reduzi-lo a um momento de emoção passageira, sem permitir que ele atravesse a vida. Porque, se a cruz não nos desloca, ela se torna apenas mais um símbolo entre tantos outros. E a fé, então, perde sua força transformadora.
Entre o gesto da Quinta-feira e a cruz da Sexta-feira, há um caminho que não pode ser ignorado. É o caminho da coerência. O mesmo Cristo que serviu é o que agora se entrega. E isso nos coloca diante de uma pergunta inevitável: estamos dispostos a viver aquilo que admiramos, ou continuaremos contemplando a cruz sem permitir que ela toque, de fato, a forma como existimos no mundo?
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