Nuvens sobre Teerã. A poluição da guerra ameaça o mundo

Foto: Chris LeBoutillier/Unsplash

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25 Março 2026

De céus escurecidos por incêndios provocados por poços danificados a aquíferos contaminados, de mares envenenados por petroleiros e navios de guerra afundando ao risco de radiação nuclear, os cientistas estão contabilizando os danos e avaliando o impacto dramático no setor energético.

A informação é de Luca Fraioli, publicada por La Repubblica, 23-03-2026.

Enquanto bombas caem sobre campos de gás, refinarias de petróleo e instalações de enriquecimento de urânio como Natanz, após a perda de vidas humanas e custos de energia, crescem também os temores sobre os efeitos que o conflito no Golfo tem e terá sobre o meio ambiente. Nas últimas horas, uma nova nuvem escura pairou sobre Teerã, com moradores da capital iraniana sofrendo de dores de cabeça, irritação nos olhos e na pele e dificuldade para respirar.

"Todas as guerras modernas impactam a saúde dos seres humanos e dos ecossistemas. Essas feridas muitas vezes só cicatrizam a longo prazo, mas também podem ser irreparáveis", explica Matteo Guidotti, químico do Conselho Nacional de Pesquisa (CNR) em Milão, um dos principais especialistas europeus em consequências ambientais de conflitos armados. Já após a chuva negra que caiu sobre Teerã nos últimos dias, muitos especialistas alertaram que a poluição causada pelas bombas e seus alvos (indústrias, fábricas de armamentos e refinarias de petróleo) se espalhará e persistirá por décadas. Isso terá sérios efeitos na saúde daqueles que vivem nessas áreas. "O ataque israelense a depósitos de petróleo nos arredores de Teerã foi o incidente de poluição mais grave até o momento nesta guerra", afirmou há alguns dias Doug Weir, diretor do Observatório de Conflitos e Meio Ambiente (CEOBS), uma organização sem fins lucrativos sediada no Reino Unido que visa conscientizar o público sobre as consequências ambientais e humanitárias da guerra. Mas, segundo a ONG, já ocorreram mais de 230 incidentes que representaram algum risco ambiental em decorrência das hostilidades em curso no Golfo.

Os prováveis ​​contaminantes incluem combustíveis, óleos, metais pesados, compostos energéticos e PFAS, enquanto os incêndios podem liberar dioxinas e furanos (compostos nocivos e potencialmente cancerígenos). "Muitas das maiores instalações militares do Irã", alertam os especialistas da CEOBS, "estão localizadas em áreas rurais ou subterrâneas, o que complica a avaliação de danos. Isso também pode reduzir o risco de exposição humana, mas outros locais no Irã, Líbano e Golfo Pérsico estão localizados perto de cidades, aumentando o risco de exposição da população a poluentes gerados por conflitos."

De particular preocupação são as instalações de mísseis iranianas atingidas: alguns propelentes líquidos usados ​​pelos militares de Teerã contêm substâncias altamente tóxicas, como a dimetil-hidrazina assimétrica. "Os locais afetados incluem as conhecidas bases militares de Tabriz e Zanjan, no noroeste do Irã, bem como o complexo de produção de mísseis de Khojir, a leste de Teerã. Grandes colunas de fumaça eram visíveis em cada instalação, e imagens de satélite mostram túneis colapsados ​​em vários pontos de acesso a Tabriz", afirma o relatório do CEOBS.

Embora o ar do Golfo esteja correndo o risco de se tornar irrespirável, as águas não estão em melhor situação. Só podemos imaginar o impacto que o plano dos Estados Unidos de aniquilar a frota iraniana terá sobre os habitats marinhos: eles podem já ter danificado ou afundado mais de 43 navios e atacado instalações portuárias militares em vários locais ao redor de Bandar Abbas e Konarak.

Os riscos vão além da região: "A fragata iraniana Dena foi torpedeada perto da costa do Sri Lanka", lembra a CEOBS, "e a consequente mancha de óleo de 20 quilômetros de extensão no país asiático".

"Muitas vezes, são necessárias décadas para avaliar os danos: nossos colegas poloneses e alemães, por exemplo, estão estudando o impacto no fundo do Mar Báltico de todas as munições lançadas ao fundo após a Segunda Guerra Mundial", explica Guidotti. "Será um dos capítulos de um volume conjunto sobre os efeitos a longo prazo dos conflitos armados, publicado pela Sociedade Real Britânica de Química."

Mas o Estreito de Ormuz está recebendo um fluxo constante de petroleiros, bem como de navios militares: "Já testemunhamos pelo menos 12 ataques a navios mercantes em portos ou no Golfo Pérsico", alerta a CEOBS. "À medida que o número de ataques aumenta, também aumenta o risco de um grave incidente ambiental."

Em relação à água doce, há preocupações com a contaminação das águas subterrâneas. "Isso já aconteceu na Ucrânia", lembra Guidotti. "A destruição da barragem de Nova Kakhovka pela Rússia causou a inundação de campos e áreas de mineração: essas águas contaminaram os lençóis freáticos, cuja remediação provavelmente levará anos, senão décadas."

A dessalinização desempenha um papel crucial nos países do Golfo: aproximadamente 450 usinas de dessalinização fornecem água potável para cerca de 100 milhões de pessoas na região. "Em 7 de outubro, o Irã acusou os Estados Unidos de atacar uma usina de dessalinização na ilha de Qeshm, comprometendo o abastecimento de água de 30 aldeias", relata a CEOBS. "No dia seguinte, o Bahrein acusou o Irã de danificar uma usina com um ataque de drone." Essas bombas não apenas deixam os civis com sede, mas também causam sérios danos ambientais: os produtos químicos usados ​​no processo de dessalinização incluem hipoclorito de sódio, cloreto férrico e ácido sulfúrico.

Rafael Grossi, diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, já havia se manifestado sobre a potencial contaminação radioativa decorrente de ataques a instalações nucleares iranianas, antes de tranquilizar o público em um artigo no jornal La Repubblica: "No momento, não há indícios de que a radioatividade esteja acima do normal". O perigo não foi totalmente eliminado, mas certamente é menor do que o vivenciado há três anos na usina nuclear de Zaporija, na Ucrânia: "No pior cenário, poderíamos ter enfrentado um novo Chernobyl", confirmou Guidotti. "Porque a instalação era importante e houve um período em que a probabilidade de impactos era alta. Felizmente, o alarme parece ter diminuído. Mas, para instalações nucleares, no Irã como em qualquer outro lugar, é sempre difícil avaliar o risco, justamente porque ele depende do dano potencial causado e da probabilidade de esse dano ocorrer."

E esses são apenas os possíveis efeitos locais, aqueles que serão sentidos principalmente por quem vive na região. "Há cerca de dez anos, o gelo de altitudes muito elevadas do Himalaia indiano foi estudado: na neve compactada depositada no início da década de 1990, foram encontrados vestígios de fuligem e poeira liberados durante os incêndios de petróleo na primeira Guerra do Golfo", explica Guidotti. "Não se trata apenas de 'sujar' o Teto do Mundo: o gelo mais escuro absorve mais calor do sol e derrete ainda mais rápido."

Mas as emissões de gases de efeito estufa também são uma preocupação global: as forças armadas consomem muita energia: "Calculou-se que o Exército dos EUA, sozinho, consome tanta energia para sua manutenção em tempos de paz quanto uma nação africana média", observa o pesquisador do CNR. Imagine durante um conflito. E depois há o período pós-guerra, com a reconstrução de cidades arrasadas. Mas mesmo antes disso, o descarte sustentável dos escombros — basta pensar em Gaza — acarreta enormes custos econômicos e ambientais.

O Instituto de Clima e Comunidade calculou que 5 milhões de toneladas de CO2 foram emitidas nos primeiros 14 dias dos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã. Os edifícios destruídos representam a maior parcela: a análise estima as emissões totais desse setor em 2,4 milhões de toneladas de CO2 equivalente (tCO2e). O combustível é o segundo maior contribuinte, com bombardeiros pesados ​​dos EUA vindos de lugares tão distantes quanto o oeste da Inglaterra para realizar ataques contra o Irã. A análise estima que entre 150 e 270 milhões de litros de combustível foram consumidos por aeronaves, embarcações de apoio e veículos nos primeiros 14 dias, produzindo uma emissão total de 529 mil tCO2e. "Em reuniões públicas, alguém ocasionalmente comenta que, com tantas pessoas morrendo por causa dos bombardeios, estamos preocupados com os patos nos pântanos da Ucrânia...", conclui Guidotti. A vida humana vem em primeiro lugar, mas devemos refletir sobre o fato de que, quando a guerra terminar, esperemos que o mais breve possível, nos mesmos locais onde os combates ocorreram, haverá crianças, mulheres e homens que terão que respirar aquele ar, beber aquela água, cultivar aquela terra e se alimentar com o que ela produz. Isso não é apenas uma questão ambiental.

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