Irã e a esquerda. Artigo de Yanis Varoufakis

Foto: IRNA/Fotos Públicas

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20 Março 2026

O caminho para o lema “Mulher, Vida, Liberdade” não passa pelas ruínas fumegantes de Teerã. Passa pela derrota dos próprios poderes que, durante 70 anos, garantiram que o país não conhecesse nem a paz nem a democracia.

O artigo é de Yanis Varoufakis, publicado por Sin Permiso, e reproduzido por Ctxt, 19-03-2026. 

Yanis Varoufakis é ex-ministro das Finanças da Grécia, líder do partido MeRA25 e professor de economia na Universidade de Atenas.

Eis o artigo.

Mais uma vez, me vejo diante do dilema de me opor a uma guerra ilegal travada pelos Estados Unidos e seus aliados contra um país cujo regime rejeito veementemente. É um fardo indesejado, mas nós, ocidentais de esquerda, temos o dever de carregá-lo para não legitimar os regimes aos quais nos opomos, tanto no país bombardeado quanto no Ocidente.

Em 1999, tendo anteriormente feito campanha contra o regime de Slobodan Milošević, denunciei o bombardeio da OTAN à Iugoslávia. Em 2003, após duas décadas de campanha contra Saddam Hussein, manifestei-me contra a invasão do Iraque pela coalizão liderada pelos EUA. Em 2011, embora crítico do regime de Muammar Gaddafi, opus-me ao bombardeio da Líbia liderado pelos EUA, que a transformou em um Estado falido. No ano passado, embora consternado com o governo implacável de Bashar al-Assad, lamentei as maquinações dos EUA e de Israel que entregaram a Síria a um ex-membro da Al-Qaeda. E agora, depois de ter celebrado a rebelião “Mulher, Vida, Liberdade”, que ocorreu após a morte de Mahsa Amini durante sua detenção, e depois de ter criticado por muitos anos a teocracia da República Islâmica, o capitalismo de compadrio e a brutalidade contra mulheres e minorias, escrevo estas linhas para condenar, com todas as minhas forças, o plano americano-israelense de destruir o Irã.

Não se trata de neutralidade. Não se trata de "neutralidade entre os dois lados". Trata-se do dever da esquerda ocidental. Quando a gangue que domina nosso bairro lança um ataque não provocado contra uma gangue da qual também discordamos, matando inocentes, recusamo-nos a permanecer neutros ou a tomar partido. Denunciamos ambas, mas reconhecemos um dever especial e primordial: deter nossa própria gangue. Porque são nossos impostos que financiam suas bombas, é nosso silêncio que lhes dá consentimento, são nossos governos que matam — em nosso nome.

Então, vamos dar uma olhada nos nossos capangas. A alegação ocidental de que os Estados Unidos e a Europa, sem mencionar Israel, desejam democracia, estabilidade e normalidade no Irã é uma invenção. As origens da tragédia iraniana do pós-guerra remontam ao golpe anglo-americano de 1953, que derrubou o governo democraticamente eleito de Mohammad Mosaddeq por ousar querer petróleo iraniano para o povo iraniano. Foi então que os Estados Unidos e o Reino Unido abandonaram toda a pretensão moral de serem defensores da democracia iraniana, restaurando o poder absoluto do , um monarca corrupto e autocrático que governava o Irã como um feudo para corporações ocidentais. Para mantê-lo em seu trono de pavão, a CIA ajudou a criar e treinar a SAVAK (Escritório de Segurança Nacional e Inteligência), uma força policial secreta tão brutal que se tornou sinônimo de tortura. Durante 26 anos, os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido fizeram tudo o que podiam para negar aos iranianos qualquer aparência de democracia. Uma longa história de autoritarismo culminou na revolução de 1979 que derrubou o Xá.

Foi uma revolução ampla e popular que, inicialmente, mobilizou não apenas islamitas, mas também liberais, socialistas e comunistas. No entanto, os movimentos seculares que apoiaram o aiatolá Khomeini e comemoraram seu retorno do exílio em Paris desconheciam que Washington havia se aliado às facções islamitas mais reacionárias assim que percebeu que os revolucionários iriam triunfar. Um dos primeiros atos bárbaros do novo regime? A prisão e execução sumária dos líderes do Tudeh (Partido das Massas), o principal partido comunista que havia apoiado Khomeini. Essa troca de favores entre Washington e o regime islâmico durante a Guerra Fria deveria fazer os esquerdistas de hoje refletirem, vivendo sob a ilusão de que a República Islâmica está alinhada com a agenda e os valores anti-imperialistas da esquerda.

É claro que existe um motivo pelo qual os esquerdistas ocidentais se deixaram seduzir facilmente pelos elementos anti-imperialistas e mais populistas da República Islâmica. As contradições, que a esquerda deveria apreciar, não poderiam ser mais evidentes no caso da República Islâmica: um regime que, por um lado, adotou a retórica anti-imperialista como parte de seu projeto global para ressuscitar uma fictícia era de ouro islâmica, enquanto, por outro lado, esmagava a esquerda e sua agenda emancipadora.

A confusão foi agravada pela maior força da República Islâmica. Em nítido contraste com as plutocracias sunitas, o movimento xiita liderado por Khomeini demonstrou um compromisso genuíno com as massas pobres e desamparadas do mundo muçulmano. Esse compromisso incluía não apenas a redistribuição de renda e, pelo menos inicialmente, campanhas anticorrupção, mas também um apoio genuíno aos palestinos, que quase todos os regimes árabes haviam abandonado naquela época. Tudo isso ofereceu uma rara fonte de esperança de libertação.

Como era de se esperar, isso também levou a um confronto direto com os rivais sunitas da República Islâmica. Em 1980, instigado por Washington e financiado pelo Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, Saddam Hussein invadiu o Irã. Se ainda restasse alguma dúvida de que Saddam era um fantoche dos Estados Unidos, basta considerar o que aconteceu em 1987, quando um caça iraquiano disparou mísseis Exocet contra o USS Stark, matando 37 marinheiros americanos e ferindo 21: o presidente Reagan declarou que "o vilão da história é o Irã", enquanto diplomatas americanos voavam para Bagdá para entregar a absolvição de Saddam. Em 1988, Saddam recorreu ao uso de armas químicas contra aldeias curdas no Iraque, ataques que os Estados Unidos conheciam e nos quais foram cúmplices. Anos depois, após a invasão americana do Iraque, uma piada circulava em Washington: "Como vocês sabem que Saddam tinha armas químicas?", perguntaram ao porta-voz da Casa Branca. "Porque guardamos os recibos", respondeu ele.

As credenciais anti-imperialistas de Teerã foram ainda mais reforçadas pela invasão israelense do Líbano em 1982, que deu origem a um movimento social e de resistência apoiado pelo Irã: o Hezbollah. Isso permitiu que o regime iraniano se apresentasse, com alguma justificativa, como a única potência regional disposta e capaz de proteger os palestinos em particular e os árabes em geral da violência israelense, além de fornecer alguns serviços sociais básicos aos pobres. Ademais, à medida que a desigualdade atingia níveis sem precedentes na região, especialmente após o aumento massivo do excedente de mão de obra em todo o mundo, o apelo do Irã às massas disparou. Como era de se esperar, os países vizinhos do Golfo Pérsico estavam preocupados e, consequentemente, uniram forças com os Estados Unidos para "conter" o Irã.

Em 1991, uma disputa familiar no Ocidente levou os Estados Unidos a invadir o Iraque. Saddam Hussein estava furioso porque o Kuwait, que a pedido de Washington e das plutocracias do Golfo lhe emprestara grande parte do dinheiro para financiar a guerra de oito anos contra o Irã, exigia o pagamento da dívida e aumentava tanto sua produção de petróleo que as próprias receitas do Iraque estavam em declínio. Saddam, talvez por ter sido enganado pelos americanos ou por tê-los interpretado mal, pensou ter a bênção deles para lidar com o Kuwait invadindo o país. Assim que as tropas americanas pisaram em solo saudita, o fundamentalismo sunita levou à formação da Al-Qaeda, à tragédia das Torres Gêmeas e à desastrosa invasão do Iraque por George W. Bush, que, por sua vez, deu origem ao Estado Islâmico (ISIS), outro movimento terrorista sunita. Todos esses eventos fizeram com que a República Islâmica parecesse moderada e relativamente progressista: um país que, embora apoiasse de bom grado movimentos locais de resistência popular que confrontavam os inimigos regionais do Irã (na Palestina, no Iêmen, etc.), nunca invadiu diretamente nenhum outro país e se mostrou fundamental na luta contra a Al Qaeda e, mais impressionante ainda, na eliminação do Estado Islâmico.

À luz dessa história rica e trágica, a República Islâmica deve ser compreendida como um sistema poderoso que emergiu de uma crise de décadas, provocada pelos Estados Unidos e incentivada por Israel. Mas igualmente importante é entender sua economia política, que contradiz sua postura anti-imperialista no exterior e é hostil a tudo o que a esquerda representa. Desde a década de 1990, a privatização tem sido desenfreada no Irã, onde a facção reformista via o investimento estrangeiro e a integração ao mercado global (principalmente a União Europeia e o Reino Unido) como a única maneira de conter sua crise. Ao mesmo tempo, a coalizão conservadora, sob o controle da Guarda Revolucionária, estabeleceu e controlou empresas privatizadas com o objetivo de expandir para os mercados regionais.

Após o primeiro mandato de Trump ter encerrado o plano de Obama de reintegrar o Irã ao comércio e às finanças ocidentais, a ala conservadora aproveitou a oportunidade para se aliar à China e, em menor grau, à Rússia. Contudo, ao longo desse período, implementaram medidas de desregulamentação e cortes na ajuda aos mais pobres, o que desencadeou levantes populares espontâneos exigindo justiça social. Em seguida, a crise de 2008, que viu a China emergir como uma força estabilizadora em escala global, levou a ala conservadora a se aproximar ainda mais da China e da Rússia, na esperança de contornar as sanções americanas e aliviar as tensões causadas pelo seu próprio capitalismo de compadrio.

Em 2022, o assassinato de Mahsa Amini, uma jovem curda sunita de 22 anos, desencadeou o movimento “Mulher, Vida, Liberdade”. Comentaristas ocidentais, mais uma vez caindo na armadilha das ilusões projetivas, imaginaram que essa revolta fosse pró-Ocidente. Não era. Pelo contrário, combinava o descontentamento causado, por um lado, pela crescente desigualdade decorrente da transição da economia iraniana para o neoliberalismo com características islâmicas conservadoras e, por outro, por tensões étnicas, particularmente entre os curdos.

Essa rebelião foi derrotada não apenas pela brutal repressão, mas, mais importante, pela invocação do medo da desintegração do país: a perspectiva de o Irã se tornar uma nova Síria ou uma nova Líbia, algo que Benjamin Netanyahu almeja e para o qual passou anos tentando cooptar os Estados Unidos. É por isso que o regime continua a desfrutar do apoio de uma ampla parcela da população, incluindo aqueles que, de outra forma, se opõem ideologicamente a ele: eles podem esperar e rezar pelo fim da República Islâmica, mas também consideram a desintegração do Irã um mal pior do que o regime atual. Plenamente conscientes de que Trump e Netanyahu não podem e não irão lhes trazer um Irã estável e democrático, as bombas americanas e israelenses que caem sobre eles estão levando a uma maior tolerância ao regime atual… até mesmo entre seus oponentes.

E assim chegamos aos dias de hoje: Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, é agora o novo líder supremo do Irã. Os Estados Unidos e Israel assassinaram seu pai, sua mãe, sua esposa, sua irmã e, muito provavelmente, um de seus filhos. O regime é brutal, impopular entre grande parte da juventude iraniana e economicamente estagnado. É também produto de 70 anos de arrogância e agressão ocidental. Não desaparecerá com bombardeios. Não será moderado por sanções. O que a esquerda deve fazer e dizer neste contexto?

Sugiro que comecemos por responder aos imperialistas liberais que nos perguntam: “Mas e as mulheres? E a liberdade?” A eles, digo o seguinte: as mulheres do Irã não precisam que Washington ou Tel Aviv as bombardeiem com caças F-35. O caminho para o lema “Mulher, Vida, Liberdade” não passa pelas ruínas fumegantes de Teerã. Passa pela derrota das próprias potências que passaram 70 anos garantindo que o Irã jamais conhecesse a paz ou a democracia. O povo iraniano deve primeiro se libertar das garras da terrível escolha entre o regime atual e um destino pior do que o do Iraque, da Líbia e da Síria juntos.

Nossa tarefa, como esquerdistas no Ocidente, é pressionar nossos governos para que cessem os bombardeios. Para que acabem com as sanções que matam os pobres de fome e enriquecem os contrabandistas do regime. Para que desmantelam a máquina de propaganda que nos diz que guerra é paz e ocupação é liberdade. Só então, e somente então, o povo iraniano, exercendo seu imenso poder, poderá recuperar seu futuro das mãos dos teocratas e de seus apoiadores imperialistas.

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