11 Março 2026
Trita Parsi é cientista político e analista que há quase vinte anos vem estudando o triângulo entre Washington, Teerã e Israel. É cofundador e vice-presidente executivo do Quincy Institute for Responsible Statecraft, um think tank estadunidense focado em política externa e segurança internacional. É autor de livros que se tornaram pontos de referência sobre a questão iraniana, entre os quais "Treacherous Alliance", dedicado às relações entre Irã, Israel e os Estados Unidos; "A Single Roll of the Dice", sobre a diplomacia de Obama com Teerã; e "Losing an Enemy", sobre as negociações que levaram ao acordo nuclear de 2015. Ao longo dos anos, ele lecionou em universidades estadunidenses, trabalhou por muito tempo no campo das relações EUA-Irã e se impôs no debate internacional como uma das vozes mais influentes e bem documentadas sobre a relação entre guerra, diplomacia e os interesses estratégicos estadunidenses.
A entrevsita é de Francesca Manocchi, publicada por La Stampa, 08-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
O senhor disse que essa não é uma guerra necessária, mas uma guerra escolhida. Em que sentido? Quem a quis e por quê?
Trump tinha uma alternativa real à guerra: um acordo intermediado por Omã, mais restritivo do que o JCPOA (Plano de Ação Conjunto Global, o acordo nuclear iraniano assinado em 2015), e ele decidiu não seguir esse caminho. Não havia nenhuma necessidade objetiva de chegar ao conflito. Nem os Estados Unidos nem Israel apresentaram provas de um ataque iraniano iminente, e não havia qualquer evidência séria que sugerisse que a via diplomática a essa altura estava fechada. Foi uma decisão política, tomada sob forte pressão israelense.
Na sua opinião, Trump não buscava um compromisso, mas uma rendição. É isso mesmo?
Exatamente. E ele escolheu chamar essa rendição de 'acordo'.
Se o canal diplomático ainda estava aberto e o Irã havia feito concessões substanciais, por que Washington optou por recorrer à força justamente naquele momento?
Porque estava convencido de que poderia conseguir muito mais. O que Teerã oferecia não equivalia a uma capitulação, mas ainda assim era um acordo mais avançado do que o JCPOA. Por exemplo, teria excluído a presença de estoques de urânio enriquecido no território iraniano. Mas para Trump, isso não era suficiente. Ele foi levado a acreditar que o Irã estava tão enfraquecido que poderia ser forçado à rendição total. É essa ilusão, mais do que qualquer outra coisa, que abriu caminho para a guerra.
Mais uma vez, está sendo evocada a mudança de regime. O senhor vem alertando contra essa perspectiva há anos. Por que acredita que uma mudança de regime imposta de fora no Irã correria o risco de produzir, acima de tudo, desagregação, em vez de uma verdadeira transição?
Não há sequer necessidade de formular hipóteses abstratas: basta olhar para o que está acontecendo. Trump está tratando Teerã como Gaza. Pensar que a democracia possa nascer de tamanha devastação é uma fantasia. E, para ser honesto, não acredito de forma alguma que a democracia seja o verdadeiro objetivo dessa guerra. Não é para Israel, e nem mesmo para Trump, que continua a falar abertamente sobre capitulação e sugere que quer determinar pessoalmente o futuro arranjo do poder iraniano. Esse não é um projeto de transição democrática. É uma imposição.
Na sua opinião, qual é o passo mais perigoso em termos de escalada hoje? Um envolvimento direto das bases estadunidenses na região, a expansão para os países do Golfo ou o fechamento completo dos canais diplomáticos?
Neste momento, vejo dois grandes perigos: o primeiro é o risco de uma guerra civil no Irã. O segundo é que Trump continue investindo em uma estratégia destinada ao fracasso, despejando recursos, credibilidade e poder estadunidense em um conflito que não pode ser vencido nos termos que ele tinha imaginado. É uma dinâmica já vista no Iraque e no Afeganistão: continua a ser relançada na esperança de reverter um resultado que já se mostra negativo. Assim, uma escolha errada corre o risco de se transformar em um desastre estratégico ainda maior, para os Estados Unidos e para o mundo.
Um dos aspectos mais reveladores dessa guerra é a indeterminação de seu desfecho político. Quando o objetivo não é claramente definido, que riscos surgem? E qual considera ser o verdadeiro objetivo final de Israel e dos Estados Unidos, que parecem perseguir objetivos diferentes?
De fato, não coincidem. Do ponto de vista israelense, essa guerra pode ser considerada útil mesmo que não leve a uma mudança de regime nem à derrubada definitiva da República Islâmica, desde que consiga degradar de forma duradoura o poder iraniano. O objetivo, essencialmente, é alterar o equilíbrio de poder na região, empurrando o Irã para as margens do tabuleiro geopolítico. Quando Trump diz que o Irã já foi obrigado a retroceder dez anos, está expressando uma lógica que Israel gostaria de radicalizar ainda mais. Não se trata realmente de democracia: trata-se de relações de poder. Para os Estados Unidos, no entanto, o cálculo é diferente. Washington pagaria o preço da instabilidade regional de forma muito mais direta: militarmente, economicamente, em termos energéticos e migratórios. O paradoxo é que, hoje, o pensamento estratégico não parece nascer em Washington. Nasce em Israel. Trump reage, absorve essa pressão, a segue, mas não a governa realmente de acordo com uma lógica estadunidense."Trump está com problemas no Irã e quer uma estratégia de saída; a crise energética também o assusta". Entrevista com Michael WalzerQual é hoje, na sua opinião, o verdadeiro objetivo estratégico do Irã?
Os iranianos sabem que o limiar da dor de Israel é muito alto, especialmente se os Estados Unidos permanecerem envolvidos na guerra. Os Estados Unidos e os países do Golfo, no entanto, têm um limiar de tolerância mais baixo. É por isso que o verdadeiro esforço do Irã não é tanto dobrar Israel, mas sim atingir o sistema que sustenta a guerra: o Golfo, a economia regional e global e as forças estadunidenses posicionadas na área. Atingir Israel também serve para mantê-lo sob pressão e forçá-lo a permanecer mobilizado. Mas a alavanca decisiva, do ponto de vista iraniano, está em outro lugar.
O que prevê para o Líbano, à luz dos últimos bombardeios e ordens de evacuação?
Temo um desastre também ali. Israel avançará o máximo que puder. Mas, nesse interim, o Hezbollah modificou sua postura tática e agora age de acordo com modalidades diferentes daquelas do passado. Não foi completamente neutralizado, e acredito que o teatro libanês possa se revelar muito mais difícil para Israel do que Tel Aviv imagina. O Líbano pagará um preço muito alto, mas não há nenhuma garantia de que Israel conseguirá controlar a dinâmica daquela escalada nos termos que espera.
O senhor estuda a relação entre os Estados Unidos e o Irã há anos. Ao analisar essa guerra, o que vê com mais clareza: o fracasso da dissuasão, da diplomacia ou da imaginação política?
Acima de tudo, vejo o fracasso da capacidade dos Estados Unidos de se manterem fiéis aos seus próprios interesses. Essa guerra não responde a uma lógica estratégica estadunidense: responde a uma guerra que Washington escolheu travar em função de Israel. E é aqui que entra em jogo o fracasso do establishment político estadunidense: em sua incapacidade de se comportar como potência autônoma, ou seja, como ator capaz de definir e buscar seus próprios interesses. Há apenas poucos meses, esse governo falava em reduzir seu envolvimento no Oriente Médio e redirecionar seu foco estratégico para as Américas. Hoje, ao contrário, encontra-se atolado em uma guerra contra o Irã que imaginava rápida e que agora corre o risco de se arrastar por meses. É um fracasso de análise, de coerência e, em última instância, de visão.
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